Por que trabalhos como os das Guerrillas Girls importam?

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Por que trabalhos como os das Guerrillas Girls importam?

Reportagem: Bruna Scavuzzi e Isabela Moreno
Edição: Fred Lopes

 

“Luta armada efetuada em pequenos grupos de combatentes, compostos geralmente por pessoas não pertencentes a exércitos nacionais, sem respeito pelas convenções internacionais.”

Esta é a primeira sugestão do dicionário Priberam para o significado da palavra “guerrilha”. No caso do grupo de mulheres que se autodenomina “Guerrilla Girls”, o significado não foi entendido no sentido literal. Não pertencerem a nenhum exército. Suas armas são cartazes e o inimigo que combatem é o desrespeito contra as minorias.

Criado nos Estados Unidos em 1985, o coletivo é formado por artistas feministas que utilizam máscaras de gorilas para preservar o anonimato de suas integrantes e direcionar todas as atenções para os problemas que querem abordar. Quando as Guerrilla Girls começaram seus trabalhos, muitos comunicados nas ruas de Nova York eram feitos por meio de cartazes. A ideia de utilizá-los em forma de protesto, misturando elementos de humor e pop arte, deu tão certo que as obras continuam a ser produzidas e reconhecidas em todo o mundo 32 anos depois.

Versão brasileira do cartaz inspirado na obra “A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres (1814)

A primeira mostra individual das ativistas no Brasil, “Guerrilla Girls: Gráfica 1985-2017”, ficará em exposição do Museu de Arte de São Paulo (Masp) até fevereiro de 2018. Uma de suas obras mais marcantes é o grande cartaz amarelo com a representação da figura feminina nua da obra “A Grande Odalisca” (1814), de Jean-Auguste Dominique Ingres, vestida com a máscara de gorila e que aponta estatísticas dos locais onde o grupo expõe seus trabalhos. No caso de sua versão brasileira, a obra, afirma que apenas 6% dos artistas do acervo em exposição no museu são mulheres, enquanto 60% dos nus são femininos.

Em uma coletiva de imprensa realizada no museu, três integrantes do coletivo – que assinam como Frida Kahlo, Kathe Kollwitz e Shigeko Kubota – contaram que, assim como no Queermuseu, sua obra que critica a nudez feminina já havia sofrido censuras também. “Nós fizemos esse mesmo cartaz para uma organização em Nova York. Quando eles viram, disseram ‘oh, não podemos fazer isto, isto não está claro para o público’. Mas se tem uma coisa a respeito do nosso trabalho é que ele é claro pra cacete”, comentaram.

Elas também acreditam que Brasil e Estados Unidos têm similaridades tanto na diversidade populacional quanto no momento histórico. “Ambos os países estão encarando forças reacionárias. Provavelmente, essa é uma das maiores razões que estamos aqui [no Brasil]”.

Adriano Pedrosa, um dos curadores da mostra, defende que muitas pessoas precisam conhecer o trabalho delas.  “Para o grupo que nós falamos, parece que o trabalho das Guerrilla Girls é aceito. Mas se você olhar, por exemplo, os comentários nas notícias sobre a vinda delas para o Brasil, é muito assustador o quanto conservador eles podem ser.”

Quando questionado sobre o comprometimento do Masp em melhorar a  diversidade no museu, o curador garantiu que existe a vontade para isso. Contudo, a instituição enfrenta dificuldades para colocar o plano em prática, como o orçamento para aquisição de obras. “Dependemos mais de doações. Mas se você olhar as aquisições que realizamos nos últimos três anos, mais de 50% das obras são de artistas mulheres.”

Mas por que os museus aceitam os nus femininos e negligenciam a presença de trabalhos produzidos por artistas mulheres?

A pergunta foi feita pela professora do New York Institute of Fine Arts, Linda Nochlin, em 1971, quando escreveu um artigo no qual questionava por onde andavam as grandes artistas da História. Em seu ensaio “Por que não houve grandes mulheres artistas?”, Nochlin diz que “se as mulheres de fato tivessem alcançado o mesmo status que os homens na arte, então o status quo estaria bem. Porém, na realidade […] as coisas como estão e como estiveram, nas artes, bem como em centenas de outras áreas, são entediantes, opressivas e desestimulantes para todos aqueles que, como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente classe média e acima de tudo homens”.

As vantagens de ser uma artista mulher, Guerrilla Girls

Para as ativistas, a desigualdade social e econômica impacta diretamente no mundo da arte. “Os conselhos dos museus são formados por pessoas milionárias e bilionárias, em sua maioria homens brancos, que acabam ditando para o mundo o que comprar e o que colecionar”, destacam.

No Brasil, a manutenção do status quo contribuiu para a ascensão do discurso da extrema direita sobre moral e “bons costumes”. O caso do Queermuseu, em Porto Alegre, que foi fechado após protestos grupos organizados, como o Movimento Brasil Livre (MBL), além de simpatizantes, que viam pornografia e imoralidade na arte, é um exemplo de como o conservadorismo pode frear a expansão de debates sobre a igualdade de gênero e social.

 

Fotos: Bruna Scavuzzi/Contraponto Digital


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Corpo nu e a tempestade em copo copo d’água

Por Felipe Augusto de Souza

O mês de agosto foi marcado por fortes acontecimentos envolvendo a arte no Brasil. A exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira, que estava em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, foi cancelada e acusada pelo conteúdo de algumas obras. Às criticas em grande parte vieram por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) que acusaram a mostra de conter conteúdo de zoofilia, pedofilia e blasfêmia.

Não é novidade que a extrema direita tem ganhado força no país, reflexo disso foram as inúmeras acusações e compartilhamentos nas redes sociais de pessoas que apoiavam a censura e o cancelamento da mostra. De lá para cá, alguns meses após o episódio que fere a liberdade de expressão, muito se discute sobre a força da bancada evangélica e de movimentos como o MBL.

Para a psicóloga Rafaela Soares, o episódio denota o discurso distorcido por parte de alguns líderes religiosos e até mesmo de pessoas comuns que pactuam com o conservadorismo. “A sociedade brasileira tende a conservar idéias de tradicionalismo ao longo de sua existência, mantendo alguns padrões moralistas, alguns deles impregnados na nossa cultura. Esses grupos tendem a propagar essas discussões de forma isolada e irresponsável, desconsiderando todas as partes envolvidas e é ai que está o perigo, essas afirmações geram mais preconceitos em uma sociedade ainda muito fechada”.

O caso de Porto Alegre não foi o único, recentemente o mesmo grupo criticou a atuação no Museu de Arte Moderna (MAM), onde um ator era colocado no centro da sala, nu, e as pessoas ao redor interagiam com o homem. O assunto ganhou fôlego e acusações de pedofilia quando uma criança de aproximadamente 5 anos tocou o pé do ator em cena, que estava deitado no chão.

Estamos vivendo um novo surto, casos assim já foram usados anos atrás, e são conhecidos como período da arte degenerada —termo utilizado pelo regime nazista para descrever toda a arte moderna; proibindo os artistas de exibirem ou venderem a própria arte e, em alguns casos, proibidos de produzir a arte. A utilização da arte como objeto de persuasão não é novidade e Luciana Pasqualucci, pesquisadora de Doutorado em Educação acredita que esse tipo de censura não é algo recente. “A arte já foi usada em outros tempos como meios de persuasão política, isso não é algo novo. Penso que o  fato não está acontecendo apenas por parte das pessoas que dizem “a arte da pedofilia, arte do capeta”, isto também é responsabilidade das pessoas que recebem e acatam”.

Entender arte no Brasil ainda é uma discussão que precisa ser debatida, e a pesquisadora acrescenta que esse entendimento só será possível com trocas e diálogos. “Os sentidos da arte são construídos através de repertórios, e também, com esse movimento dialógico entre as pessoas e entre os conhecimentos das pessoas. Esses grupos utilizam da persuasão para convencer outros grupos do que eles querem”.

Com o discurso da “preservação da família” os movimentos extremistas estão pautando a sociedade e ganhando seguidores por pregar conceitos religiosos, familiares e políticos. José Mota é estudante de Jornalismo e interessado por arte, procurou aprimorar seu repertório para não ser contagiado por discursos como esse do MBL que fere a liberdade de expressão. “Se eu não tivesse participado de cursos no MAM e MASP, provavelmente não teria enxergado censura. Ainda estamos muito guiados por uma imprensa manipuladora que distorce as informações por interesses próprios. Na escola eu não tive essa educação para absorver  a arte, busquei o conhecimento. Para se ter uma ideia, em um semestre de faculdade tive mais repertório artístico que em todos os anos de colégio”.

Por conta da necessidade em trazer a arte mais para o ambiente acadêmico, universidades como a PUC estão fazendo uma ponte entre estudantes e museus, ampliando esses conhecimentos e trazendo o repertório artístico para a formação do estudante. Luciana é uma das pessoas inseridas no projeto e destaca a importância de falar sobre arte durante o período de aprendizado. “Sou a favor da educação com cultura, porque é por meio da cultura e da intervenção artística que você repensa os seus valores”.

Foi para fomentar o debate e frisar a liberdade de expressão que o Museu de Arte de São Paulo (MASP) trouxe para o Brasil a exposição “Histórias da Sexualidade”,  com o objetivo de estimular o debate tão urgente na sociedade, cruzando histórias, temporalidades, regiões e pessoas. “O MASP, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer de maneira critica e criativa diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais”.

A exposição acontece nos dois pisos do salão, com obras que dialogam com o discurso a cerca da sexualidade e gênero. Nas paredes é possível encontrar obras de Nicolas Poussin, Tracey Moffatt e muitas outras.