A ocupação do espaço público por coletivos femininos de basquete

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A ocupação do espaço público por coletivos femininos de basquete

Ocupar espaços públicos para praticar esportes coletivos não é tarefa fácil em São Paulo, especialmente para as mulheres,
e não é diferente com coletivos de basquete. Não há uma cultura e conhecimento por grande parte da população para reforçar a ideia de que aquela praça, rua ou parque é de todos nós.

É o caso do Magic Minas, coletivo de mulheres que se reúne para aprender e jogar basquete em quadras públicas pela cidade. Elas começaram com um grupo que jogava na quadra de seu prédio, mas, como os encontros foram crescendo, o espaço ficou pequeno e viram então a necessidade de ir para um local maior, mas conseguir espaço foi mais difícil que o esperado.

Ao chegarem na quadra da Praça Rotary, onde jogam até hoje, encontraram um grupo de homens que jogava futsal lá todos os dias da semana, mas não queria abrir mão de um horário no local para as mulheres praticarem seu esporte.

O grupo começou então o movimento ocupa Rotary, e com um evento no Facebook, convidaram todos os coletivos feministas que conheciam para participar, que também divulgaram a causa. E no dia 10 de julho de 2016, mais de 200 mulheres se reuniram e entraram na quadra da Praça Rotary, conquistando um espaço que já era delas por direito. “A gente simplesmente entrou na quadra enquanto eles estavam jogando, porque eles não queriam sair. Eles comentaram que se sentiram acuados e nós dissemos ‘Nós nos sentimos assim a vida inteira, a gente queria apenas um dia jogar, e vocês não permitiram”, conta a treinadora das Magic Minas, Priscila da Silva.

Treino das Magic Minas na Praça Rotary

A ocupação contou com a participação de atletas de alto rendimento e profissionais, como a ex-jogadora Magic Paula, que se tornou como uma madrinha do time e foi homenageada no nome Magic Minas. Para Paula, a iniciativa do coletivo foi brilhante e  deve ser replicada em todo o Brasil, para que cada vez mais mulheres se sintam à vontade para jogar e se divertir.

Em 2017, elas foram procuradas pela Nike para fazer parte da campanha de lançamento do tênis Air Force 1. Toparam, mas ao invés de cachê, pediram materiais esportivos e a revitalização da quadra pública, já que o chão não estava em perfeitas condições e os aros constantemente sumiam.

Campanha de lançamento do novo tênis Nike

Além da reforma, o espaço recebeu uma pintura especial, que foi pensada e executada por oito integrantes do Efêmmera, coletivo que atua por mais visibilidade das mulheres na arte de rua. “Tinha que ser feito por elas, nos preocupamos com o fortalecimento das meninas que treinam com a gente, no bem-estar, saúde e confiança, e buscamos levar esse pensamento para fora de quadra”, considera Déa. O novo espaço de treino agora tem um piso em degradê e formas geométricas nas laterais, nas cores rosa, roxo e amarelo.
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Vídeo do coletivo Efêmmera sobre o dia da pintura.
Quadra da Praça Rotary depois da reforma

O esporte na sociedade sempre é visto como uma competição, mas no Magic Minas é sinônimo de parceria e colaboração. Seus valores estão ancorados na amorosidade e no fair-play, que consideram essenciais dentro e fora de quadra. A organização é horizontal, ou seja, não há uma líder no grupo e todas as decisões são tomadas por meio de diálogo, acolhendo a diversidade, e comportamentos ofensivos, provocativos ou excludentes são desencorajados por todas. O coletivo também incentiva encontros fora dos horários de treino para realmente criar uma rede de apoio entre as mulheres.

Na ativa a quase dois anos, atualmente as Magic Minas treinam três vezes por semana em locais diferentes da cidade. Às segundas-feiras, treinam na quadra reformada para elas na Praça Rotary das 20h às 22h; às quartas, no Parque da Aclimação das 19h30 às 21h30 e às sextas, no Centro Esportivo Mané Garrincha, na Vila Clementino, das 20h às 22h. Nos treinos com técnica, às segundas e sextas, é cobrada uma taxa de R$ 10 para jogar, com desconto para mensalistas.

Pra jogar o coletivo, não tem inscrição, seleção ou limites. “Eu sou bem iniciante, só jogava no colégio e sei que tem muitas mulheres nessa condição que treinam, então a sexta acaba sendo bem legal, porque como costuma ter menos gente, você acaba ficando mais tempo com a bola e dá para treinar melhor a técnica”, explica Isis Belucci Gomes, que começou a treinar há 4 meses.

Treino de sexta-feira no Centro Esportivo Mané Garrincha

Hoje, o Magic Minas possui mulheres cis, trans e de várias idades participando de seus treinos. Segundo dados do Ministério do Esporte, mais de 50% das mulheres brasileiras é sedentária, já que grande parte abandona a prática de esporte até os 15 anos ou depois que sai da escola. Na fase adulta, muitas vezes a mulher deixa de jogar pela falta de oportunidade e estrutura acessível fora de clubes específicos que geralmente cobram caro pela prática e treino.

Esse era o caso de Dona Nice, de 64 anos. Ela conta que praticava basquete na época de escola, nos anos 70. Uma professora, inclusive, criou um time feminino na escola onde ela estudava para que as meninas, que mostraram muito gosto pelo esporte, pudessem praticar. Na época, era ainda mais difícil encontrar adversárias para jogos, por exemplo. Depois de formada, Nice começou a trabalhar, se casou, teve filhos e nunca mais praticou o esporte que tanto gostava. Há três anos, seu casamento de mais de 30 anos chegou ao fim e ela entrou em depressão. Sua filha, que sabia de seu amor pelo basquete, encontrou o Magic Minas na internet e sugeriu que Nice voltasse às quadras para praticar exercício como parte do tratamento para a doença.

Dona Nice em um dos treinos das Magic Minas

Desde então, ela frequenta os treinos e joga junto de outras mulheres que também seriam consideradas fora do padrão necessário para o esporte – muito novas, muito baixas ou que nunca jogaram – mas que são acolhidas no grupo. Para Nice, assim como para várias outras, a prática de esportes foi o empurrão necessário para uma melhoria importante na qualidade de vida, na saúde e até na autoestima. “Eu amo estar aqui, fui muito bem recebida. Quando estou jogando, eu sou feliz, esqueço meus problemas. Voltei a jogar basquete para melhorar a minha autoestima. Essas meninas são tudo de bom, pessoas muito queridas, são meus xodós”, conta Dona Nice.

Ao estimular a prática esportiva entre as mulheres, o Magic Minas foi muito além de treinos técnicos. Entre os principais efeitos estão deixar as jogadoras mais confiantes de seus potenciais e mais à vontade com seus corpos. O sucesso é tanto, que diariamente a organização recebe mensagens de várias mulheres interessadas até na prática de outros esportes. Muitas querem saber se há também treinos de handebol, futebol, vôlei, entre outros.

Além do Magic Minas, existem outros coletivos voltados para a prática de basquete em São Paulo. O Basquete e Autonomia, por exemplo, é um grupo do bairro de Capão Redondo, zona sul da cidade, que busca ensinar o esporte para crianças e adultos negros e indígenas. O coletivo busca seu espaço em quadras da região e, através de doações, consegue melhorias de equipamento, mais bolas para jogar e até fazer pequenas melhorias nas quadras. O propósito também é de produção cultural e luta pelo aumento da expectativa de vida nas regiões periféricas.

1° Torneio Basquete e Autonomia das Minas

Outro exemplo é o Rachão Basquete Feminino, que assim como o Magic Minas, é voltado para o esporte recreativo, promover a participação das mulheres em quadras públicas e melhorar a autoestima. O coletivo também promove encontros, bate-papos e rodas de conversa sobre temas relevantes relacionados ao feminismo e empoderamento feminino, como gordofobia, preconceito e machismo.

Roda de conversa do Rachão Basquete Feminino

Coletivos como esses são muito importantes como ato de resistência e reforçando que o espaço público é de todos, independentemente de gênero e classe social.


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“Na minha época de adolescente, até OB era tabu”, Samara Monzem. Como as atletas lidam com o ciclo menstrual

Por Dora Scobar, Gabriela Gaspar e Lara Guzzardi


Fonte: divulgação

A história das mulheres esportistas no Brasil foi e ainda é uma luta lenta e gradual. Enquanto a primeira partida oficial de futebol feminino foi disputada em 1885 na Inglaterra, segundo a FIFA, no Brasil, foi apenas em 1921. Oito anos antes, foi realizado um evento beneficente, que foi considerado o primeiro jogo oficial por muitos anos, até descobrirem que a até então partida feminina tinha jogadores vestidos de mulher infiltrados.

Não obstante, a prática do esporte mais famoso no país já enfrentou proibição legal para as mulheres durante a Era Vargas. O decreto-lei 3199, criado em 1941, proibia a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”, e só foi revogado mais de 30 anos depois, em 1979.

O atraso da inclusão de mulheres no meio esportivo e o machismo enraizado no meio majoritariamente masculino fizeram tardar também o cuidado da saúde das esportistas. Diferentemente dos homens, o cuidado e o preparo físico da mulher se depara com o ciclo menstrual, tendo que administrar menstruação e cólicas com treinos e campeonatos.  

A Dra. Karina Hatano, médica do Exercício e do Esporte, explica como as atletas podem administrar sua menstruação, fazendo uso de anticoncepcionais para interromper o fluxo. “A esportista pode, juntamente com um ginecologista, ajustar quando vai menstruar. A grande maioria das atletas de alto rendimento programam sua menstruação com alguma pílula ou hormônio, utilizando estratégias que não fazem mal à saúde quando bem controladas.” Explica a médica, atentando também para o cuidado da escolha de anticoncepcionais que não sejam classificados doping.

Caso a atleta prefira seguir menstruando, é possível “controlar os sintomas da tensão pré-menstrual (TPM), que é a principal correlação com a performance, para que atleta se sinta bem durante a prática esportiva”, conta Karina. Também há casos em que a esportista para de menstruar por excesso de atividade física e dietas muito restritivas, uma doença chamada amenorreia. “Existem ainda muitos treinadores físicos que infelizmente acreditam que a mulher que não menstrua de tanto treinar está na melhor da performance, e é justamente o contrário”, lamenta a especialista.  

Já na visão de Samara Monzem, técnica e atleta de futsal, é desigual o tratamento que recebem as mulheres atletas, visto que “somos nós unicamente que temos que tomar remédios contraceptivos, já que não existe uma versão masculina.” Samara comenta que  os efeitos colaterais desse tipo de medicação podem ser bem sérios.

Técnica Samara Monzem junto à sua equipe “Futeboys”. Fonte: Divulgação

A menstruação é tratada como tabu desde os antigos escritos bíblicos, a exemplo de Levíticos 15 onde a mulher menstruada é descrita como ‘impura e contagiosa’, até as propagandas atuais de absorvente na televisão, com o sangue menstrual sempre retratado graficamente em azul. As teorias acerca desse enorme tabu são de origens geográficas e temporais diversas e carregadas de controvérsias, sendo estudadas até os dias atuais por antropólogos e historiadores.

Alguns estudiosos argumentam que o tabu começou, em parte, porque os humanos primitivos acreditavam que o sangue menstrual era sujo. A antropóloga Shirley Lindenbaum apresentou uma teoria em 1972 que defendia que o tabu era uma forma natural de controle populacional, já que limitava o contato sexual com mulheres por causa do estigma da “sujeira”, e em 2000, o historiador Robert S. McElvaine veio com o termo síndrome não-menstrual (SNM) para descrever a inveja reprodutiva que levava os homens a tratarem com preconceito a menstruação e perpetuar a dominação social sobre as mulheres como forma de compensar psicologicamente aquilo que os homens não são capazes de fazer biologicamente.

‘’Na minha época de adolescente, até OB era tabu”, diz a atleta. Monzem acredita que, apesar da crescente onda de liberdade para tratar de assuntos pertencentes ao universo  feminino, ainda há “uma negligência muito grande com a saúde da mulher”.

A atleta explica que o método mais confortável para ela controlar seu ciclo, sem interromper a rotina esportiva, é através do uso do coletor menstrual. No entanto, ela só entrou em contato com este método ”depois de mais de 10 anos menstruando”.

A análise de todos os fatores históricos nos leva a conclusão de que, após todo esse preconceito e limitação fundamentado principalmente no machismo estrutural histórico, as mulheres atletas também sofrem na época da menstruação. Além de serem alvo de hostilidade nesse período por causa do estigma na hora da competição ou treino, elas podem também passar por experiências biologicamente negativas. A nadadora Fu Yuanhui declarou após a Olimpíada de 2016 no Rio: “Eu não acho que fui muito bem hoje. Sinto que desapontei meus companheiros de equipe”, disse. Pouco depois ela começou a se contorcer e, questionada pela repórter se estava com dor de estômago, respondeu: “Minha menstruação veio ontem, então eu me senti particularmente cansada, mas isso não é uma desculpa. Eu não nadei bem o suficiente”, comentou.

O “Sagrado Feminino”

As pesquisas e informações sobre ferramentas que possam facilitar a vida das mulheres durante o período menstrual sempre foram insuficientes e pouco divulgadas devido ao tabu acerca do assunto, passando por uma mudança apenas de uns anos para cá. Após séculos de estigma a respeito desse momento fundamental do ciclo reprodutivo feminino, as mulheres passaram a se reconectar cada vez mais com o seu corpo, a natureza à sua volta e sua liberdade durante o século 21. O Sagrado Feminino, como é chamada a filosofia que promove um estilo de vida baseado em ensinamentos sobre aspectos físicos e mentais da figura feminina, foi resgatado e inspirado nas chamadas “bruxas” da Idade Média, a maioria delas queimadas em fogueiras.

“A verdade é que, além de a menstruação servir como uma limpeza do órgão reprodutivo feminino e reforçar as defesas do organismo graças ao estrogênio natural, ela é uma fonte de criatividade, espiritualidade, intuição e autoconhecimento. É a fonte dos nossos poderes – como divindades –, sendo o ápice o de gerar uma vida”, revela Bela Lima, a ex-advogada em seu blog sobre autoconhecimento e espiritualidade, Bela Jornada. Segundo a estudiosa do assunto, essa poderosa capacidade feminina foi reprimida por tanto tempo que as mulheres acabaram se afastando de seu “poder divino”.

Mas nem tudo são trevas. Os hormônios femininos durante o ciclo menstrual também podem ser usados a favor das esportistas, com consultas médicas especializadas e conhecimento das características hormonais. Por exemplo, “as mulheres que preferem jogar menstruadas,  relatam que pode proporcionar uma melhor agressividade nesse período, conseguindo jogar isso no esporte”, diz Dra. Karina Hotano. Todavia, o tabu em torno do tema restringe drasticamente o acesso a esse conhecimento.

Para dar visibilidade ao assunto, em 2015 a atleta Kiran Gandhi correu a maratona de Londres sem absorvente durante sua menstruação. De acordo com ela em seu blog, sua atitude foi uma forma de combater o sexismo em nome daquelas que não têm acesso a absorventes e aquelas que apesar das cólicas e das dores, escondem e fingem que não existe.

Obs: Caso o leitor tenha se atentado para a escassez de entrevistado homens, gostaríamos de avisar que a redação tentou contatar um médico homem. No entanto, este nos pediu, gentilmente,  que tentássemos falar com sua secretária primeiro.


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O Brasil além do futebol

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O rugby e o xadrez, esportes menos conhecidos e praticados no país, desconstroem preconceitos e ensinam valores que ultrapassam a importância do exercício físico

Por Gabriela Fogaça e Matias Diego

O Brasil é conhecido como o país do futebol. A seleção brasileira de futebol, que já ganhou cinco Copas do Mundo, acolhe fãs no planeta inteiro e emociona a torcida quando entra em campo. Mas o que muita gente não sabe é que o país também é lar para diversos esportes menos populares que vêm crescendo ao longo dos anos e que merecem reconhecimento.

Um deles é o rugby. Esporte coletivo de contato físico intenso, ele foi criado na Inglaterra e chegou ao Brasil no século XIX, em Salvador, na Bahia. O rugby é organizado pela Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) e possui seis federações estaduais filiadas: gaúcha, catarinense, paranaense, paulista, mineira e fluminense. Os principais torneios no país são o Super 10 e a Copa do Brasil, ambos de abrangência nacional.

A jornalista Teresa Raquel Bastos conheceu o esporte em sua cidade natal, Teresina, Piauí, em 2007. Ela jogou rugby por três anos e está fora de campo desde 2013, quando sofreu uma lesão no joelho. Em 2009, junto com sua treinadora, Teresa fundou o site Rugby de Calcinha – que futuramente daria origem ao seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) – após perceber que não havia nenhum site de rugby feminino no Brasil. Segundo ela, o rugby feminino, “apesar de ter melhores resultados, não tinha a visibilidade que merecia”.

Capa do TCC da jornalista Teresa Raquel Bastos. Foto: Rugby de Calcinha/Website

“O TCC surgiu da vontade de falar sobre rugby feminino e misturar feminismo e reportagem. Quis ouvir das minhas amigas e colegas como elas se sentiam como mulheres nesse esporte julgado masculino. Quis dar uma resposta aos diversos absurdos que ouvi nos campeonatos que frequentei”

Para Teresa, falar de outro esporte que não seja o futebol no Brasil é complicado e há muitas diferenças entre os dois. “A cultura do futebol, que é bem diferente da do rugby, afasta, já que ele é mais respeitoso”. Além disso, para ela, o rugby pode ser assustador devido ao contato corporal que exige. Existe, também, uma falha na divulgação do rugby, pois ele é considerado um esporte de elite, dificultando sua popularização.

A estudante de jornalismo Jéssica Tavares concorda com Teresa. Integrante do time de rugby da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) há dois anos, ela se interessou pelo esporte por causa da faculdade. “O time é muito aberto e receptivo, não é necessário passar por peneiras, é só você chegar com força de vontade e querer aprender o esporte”. A equipe é formada por atletas de todos os cursos e de outras universidades também, gerando uma integração entre os estudantes.

De acordo com Jéssica, mesmo que o rugby seja o segundo esporte coletivo mais praticado no mundo, no Brasil ele ainda não é tão popular. Quando ele chegou ao país, por ser considerado um esporte de elite, foi mal visto e isso dificultou a divulgação, se tornando uma barreira a ser enfrentada para a disseminação do esporte.

O rugby ainda está muito associado à um esporte para homens, ligado à brutalidade e à força. Uma das maneiras que Teresa encontrou de lidar com esse rótulo, em um país machista com suas atletas, como o Brasil, é lembrar que a seleção feminina tem mais resultados positivos do que a masculina. As mulheres também sofrem em outros países, ao serem desvalorizadas em seus clubes e ao serem sexualizadas, entre outras questões. “Mas eu lidava com o machismo jogando e treinando muito, dando o meu melhor no campo pelo meu time”, explica Teresa.

Jéssica ressalta que o esporte tem, de fato, o contato brusco com outros atletas. Entretanto, todas as posições e formações possuem uma técnica e há treinos específicos para isso. Para ela, relacionar o rugby ao homem é “reflexo de uma construção histórica de exclusão, dificuldades e limitações, que vêm se desfazendo lentamente”.

Jéssica durante uma partida de rugby. Foto: PUC Rugby

“O rugby é um esporte totalmente democrático, sem recorte de gênero, que coloca em prática o empoderamento feminino. O número de equipes femininas de rugby tem crescido, afinal, lugar de mulher é no esporte que ela quiser”

Hoje, Jéssica é diretora de modalidade da atlética de comunicação da PUC-SP, sendo responsável pela organização da modalidade de rugby dentro da entidade. Além de participar dos treinos e campeonatos, ela acompanha a seleção brasileira e realiza trabalhos sociais dentro da prática do rugby.

Mais do que transmitir a importância do exercício físico, o rugby é um esporte que contém muitos valores. Para Teresa, o principal é o respeito, ensinado na maneira em lidar com o adversário, com os árbitros e com a torcida adversária. A equipe também é essencial, pois a noção do coletivo é necessária para que o time cresça e obtenha resultados positivos. “Não existe time de um jogador só, um time assim fracassa. O rugby ensina muito isso”.

Equipe feminina do PUC Rugby. Foto: PUC Rugby

Jéssica reforça a posição de Teresa, e conta que o rugby possui cinco pilares de valores: integridade, respeito, solidariedade, paixão e disciplina. “É um esporte que te ensina a trabalhar e pensar muito no coletivo, sempre ajudando seus companheiros de equipe. Além de incentivar a superação, no rugby você sempre pode melhorar se esforçando mais”.

Atualmente, o site Rugby de Calcinha conta com colaboradores nacionais e internacionais, e é utilizado para a divulgação de campeonatos, coberturas de eventos esportivos e artigos de opinião.

Como forma de comparação com o Brasil, a Espanha se encontra em um nível no qual o rugby já é um esporte bem mais conhecido e praticado, com transmissões semanais na televisão aberta e até títulos recentes de expressão, como a vitória da seleção feminina espanhola no Campeonato Europeu de 2018.

E foi justamente por títulos expressivos que o rugby ganhou notoriedade na Espanha. É o que conta Germán Augusto, jogador e treinador colombiano de 36 anos radicado na cidade de Alcorcón, próxima de Madrid, na Espanha. “Até pouco tempo atrás a imprensa especializada em rugby era pouca e a televisão só lembrava desse esporte quando havia algum título. Mas nas últimas temporadas o rugby feminino virou moda na Espanha graças aos títulos europeus conquistados pelas jogadoras”.

Praticante desse esporte desde 2007, quando teve seu primeiro contato com o rugby na universidade, Germán acredita que seu esporte é similar ao sempre popular futebol porque seu principal objetivo é avançar com a bola, o que inevitavelmente produz choques e disputas, “mas sempre dentro de um parâmetro de lealdade”. Segundo ele, o rugby é um esporte duro mas as técnicas e táticas buscam evitar impactos nocivos, sendo que cada ano há uma revisão das regras com o intuito de que se jogue o maior tempo possível com segurança.

Jogador do time sênior do Club de Rugby Alcorcón, além de ensinar crianças de 3 até 8 anos, Germán revela que sempre tenta incentivar crianças que nunca praticaram nenhum esporte a começar a jogar rugby, o que pode convertê-las em líderes fora dos campos.

“É importante que as crianças saibam que quando caírem nada de ruim irá acontecer, porque sempre poderão se levantar ou se não, algum companheiro irá ajudá-las”

Germán (com a camiseta vermelha) entrando em campo em um jogo em 2017. Foto: Rugby Alcorcón/Facebook

Para Germán, um grande diferencial do rugby é o fator da inclusão, pois pelo menos na Espanha, os times podem ser mistos até a categoria sub-16, além do esforço e comprometimento com o time ser realmente valorizado pelos treinadores, independentemente da qualidade do atleta. “É um esporte no qual os individualistas não os melhores, já que há especialistas em todas as posições e se alguém erra, o time todo erra, e se alguém marca um ponto, é o time que marca”.

O esporte como ciência

Em um caso parecido com o do rugby, outro esporte sem quase nenhum tipo de difusão no Brasil é o xadrez. Praticado nos moldes atuais desde o século XV, na Europa, esse esporte puramente mental precisa apenas de um tabuleiro quadriculado dividido em 64 casas que são ocupadas por 32 peças, com diferentes funções dentro do jogo.

Murilo Brandão, 27, aluno de filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), opina que embora no Brasil a maioria das pessoas saibam o que é o xadrez, o público que realmente o pratica é muito reduzido. Segundo ele, isso ocorre “basicamente por dois motivos: à ausência de uma estrutura de iniciação ao xadrez mais abrangente e à falta de exposição midiática do esporte”.

Para ele, é muito difícil um indivíduo ter contato com o xadrez em nosso país, já que não depende muito das pessoas que ele conhece ou da instituição na qual estuda. Fora isso, “não há uma cultura enxadrista que te leve ao xadrez”.

Diferentemente de outros esportes populares como o futebol, o xadrez exige que o interessado tenha um iniciação na prática antes de acompanhar partidas, pois ainda que uma pessoa conheça as regras desse esporte, ela pode não entender o que realmente está acontecendo durante o jogo.

Esse é o outro problema citado anteriormente: a falta de apoio ao xadrez por parte dos grandes veículos de comunicação. “A última notícia que lembro ter saído acerca do xadrez em mídia tradicional com algum alcance foi uma reportagem na Folha de São Paulo sobre o Krikor, um jogador brasileiro que deixou de ir às olimpíadas de xadrez por ocasião política, ou seja, a notícia não era o esporte em si”, conclui Murilo.

Essa falta de divulgação do xadrez provoca, inevitavelmente, uma distância enorme entre o grande público e esse esporte, o que significa menor popularidade e possibilidades remotas de que surjam novos talentos. “Acho que até por isso dois dos maiores enxadristas do Brasil atualmente são também grandes produtores de conteúdo informativo acerca do xadrez para o Brasil, o próprio Krikor e o Rafael Leitão, este com um site especializado sobre o assunto e o primeiro com um canal no Youtube muito bom sobre o esporte”.

Murilo (de azul) e a equipe vencedora da Copa USP 2017. Foto: Divulgação pessoal

Murilo opina que assim como em outros esportes, o xadrez precisaria de um grande resultado individual de um brasileiro em um campeonato relevante a nível internacional para que algum veículo de comunicação de massas demonstrasse interesse, o que poderia chamar a atenção do grande público.

Mesmo com todas as possibilidades que a internet oferece para o aprendizado do xadrez, enquanto a divulgação não chegar de forma mais institucionalizada às pessoas, a situação desse esporte no Brasil continuará a mesma: “A outra questão, a falta de exposição midiática do esporte, é seja um problema crônico de todas as modalidades do esporte brasileiro e de políticas públicas na gestão do esporte, e que não vá ocorrer uma melhora tão cedo”.


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“Sem conflito é impossível inserir o feminismo nas Igrejas”, diz membro de ONG feminista

O feminismo tem crescido dentro das religiões, mas enfrenta muita oposição, mesmo entre as mulheres.

Por Letícia Passos

“Maria foi consultada para ser a mãe de Deus”. Esse são os dizeres de um dos quadros espalhados pela sede da ONG Católicas pelo Direito de Decidir. A frase faz referência a uma das questões discutidas pelo feminismo moderno: o direito das mulheres de escolher se querem ou não ter filhos. A CDD é uma organização católica e feminista que apoia diversas causas sociais, inclusive a legalização do aborto e os direitos LGBT.

Tem se tornado cada vez mais comum ver o feminismo adentrar a religião, seja qual for a vertente. No Oriente Médio, por exemplo, muçulmanas protestam por mais direitos e comemoram cada avanço que conseguem, como na Tunísia onde o casamento misto entre um não-muçulmano e um muçulmano agora é permitido não só para os homens, como também para as mulheres. A decisão do governo tunisiano enfrentou oposição dos líderes religiosos, mas manteve-se firme e não revogou o decreto. Essa iniciativa, a primeira do gênero no Oriente Médio dentro do Islã, é só mais uma amostra de que o feminino tem ganhado cada vez mais espaço nos ambientes religiosos, conhecidos pelo patriarcado exacerbado.

No entanto, o movimento feminista ainda encontra muita resistência não só nas figuras masculinas, como nas próprias mulheres. É possível encontrar na internet religiosas que se consideram anti-feministas ou se declaram “pró-mulher”, mas que abominam o feminismo.

Mas o que gera essa reação entre as mulheres religiosas? A doutora em Ciências da Religião e membro da ONG Católicas pelo Direito de Decidir Regina Soares Jukerwicz, 62, explica o que distanciou algumas mulheres do feminismo. “Por muito tempo se trabalhou a ideia de que uma coisa é o movimento de mulheres e outra é o feminismo. Então nas instituições religiosas fica muito bem você ser ‘pró-mulher’ porque elas lutam pelos movimentos populares, mas no momento em que as mulheres demandam direitos individuais, isso se torna um problema para as igrejas”, explica. “Quando as instituições religiosas pararam de apoiar esses grupos, algumas mulheres começaram a se afastar do feminismo por causa dos ponto de conflitos com as igrejas”, continua.  

Outro motivo que pode afastar as mulheres do feminismo é a maneira como ele é mostrado pela mídia. A maioria de nossa entrevistadas afirmaram que grande parte do que sabem sobre o feminismo e suas vertentes através do que a mídia divulga. “A mídia não interfere diretamente na inserção do feminismo nas Igrejas, mas a forma como trata o feminismo é uma maneira deturpada, fala de um grupo de mulheres radicais”, afirma Regina Soares.

Por causa dessa distorção do que é o feminismo, muitas mulheres religiosas preferem se manter longe das lutas feministas. “Acredito que não seja possível você ser evangélica e ser feminista”, diz Ana Paula, 24, estudante de Sistemas de Informação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). “Creio que pelo que o feminismo prega hoje seja impossível uma mulher religiosa conservadora da palavra de Deus apoiar tais práticas”, afirma.

Existe uma crença de que religião e feminismo não pode se misturar porque são controversas e defendem princípios diferentes. Mas para Regina Soares, essas contradições não são tão excludentes quanto pode parecer a princípio. “Se formos na proposta inicial tanto do Cristianismo quanto do feminismo acabamos por encontrar eixos comuns, como o desejo pela igualdade não só entre os gêneros, mas entre as diferenças raciais, as diferentes culturas. Então nesse sentido, dá pra dizer que não há contradição entre os dois”, garante.

Dentro dos coletivos feministas, a ideia de que os dois lados não podem se misturar também não é bem aceita. “Creio que o feminismo deve estar aberto a todas as mulheres: religiosas, ateias ou agnósticas. Só devemos tomar cuidado para que a nossa militância não se torne impositiva, ‘passando por cima’ da crença alheia”, afirma Eva Pacheco, 21, estudante de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e militante feminista.

Mesmo com a crença de que existem contradições insuperáveis entre feminismo e religião, e o péssimo trabalho da mídia em apresentar as ideias feministas, muitas mulheres religiosas acreditam no feminismo, ainda que não apoiem todas as causas defendidas pelo movimento, como é o caso da engenheira Larissa Carneiro, 23. “O ideal feminista deve ser abraçado por todas. As questões das vertentes é que precisam de cuidado, principalmente o extremismo. Questões como a legalização do aborto, por exemplo, eu não concordo”, explica.

A auxiliar de laboratório Sueli Mafalda, 23, é protestante e se considera feminista porque acredita que as mulheres não devem ter sua independência ligada ao homem e que a religião não deve impedi-las de acreditar em outras propostas sociais. “Acho que a mulher deve ser o que lhe convém, independente de sua opção religiosa”, diz.

Qualquer que seja a religião, é possível encontrar organizações feministas dentro de instituições religiosas que defendem os direitos das mulheres e isso não diminui a religiosidade, pelo contrário, as colocam mais perto do que a ideologia de suas religiões pregam, como respeito e amor ao próximo.  

Mesmo que se diga que há muitas semelhanças entre o feminismo e as diversas religiões, os conflitos são inevitáveis, como explica Regina Soares. “Sem conflito é impossível inserir o feminismo nas Igrejas porque partem de lugares diferentes. A teologia feminista por si é conflitiva porque vem fazer uma denúncia. Ela vai mostrar base de pensamentos diferentes”, afirma.

No entanto, esses conflitos podem ser base para renovar a maneira de divulgar o feminismo e inspirar novas formas de mostrar o que ele veio trazer para as mulheres. No Islã, por exemplo, além da militância convencional, é possível encontrar uma rica variedade cultural, como filmes que relatam os absurdos sofridos por mulheres muçulmanas e a luta delas pela liberdade, pelo seu direito de escolha.

O filme “Love Crimes of Kabul (2012)”, dirigido pela documentarista iraniano-americana Tanaz Eshaghian, conta a história de três muçulmanas presas por “crime morais”, como sexo antes do casamento e por fugir de casa. Uma das acusadas, uma jovem de 18 anos, apesar de ter sido examinada para comprovar sua virgindade, foi sentenciada a três anos de prisão por ter sido encontrada sozinha com um homem. O que chama a atenção neste filme é a falta de união entre as mulheres; muitas delas foram acusadas de crimes por terem agido de acordo com suas vontades, mas tentam minimizar suas acusações enquanto apontam o dedo na cara de outra interna, afirmando que se estavam ali é porque mereciam. O documentário enfatiza o quanto há a necessidade da luta pelo fim do patriarcado em qualquer país e em qualquer religião e como a desunião entre as mulheres pode impedir ou retardar conquistas necessárias.

Fugir de casa ou ter relações sexuais antes do casamento é passível de prisão no Afeganistão

Apesar de não se identificar com o feminismo atual, Ana Paula afirma que é necessário união para que haja avanços. “O principal objetivo deveria ser a união das mulheres, mas há uma divisão entre as que se sentem representadas pelas feministas e outras que querem distância”, diz. Regina Soares concorda com esse pensamento e garante que se assumir ou aceitar o feminismo não é o mais importante na questão da libertação das mulheres. “Primeiro tem que romper essa questão conceitual da linguagem porque não importa se a mulher se diga feminista ou não, o que eu acho importante é que elas se conscientizem dos seus direitos”, conclui.  

No Catolicismo, a produção cinematográfica não é significativa, entretanto, na literatura, um dos nomes mais icônicos da teologia feminista é a brasileira Ivone Gebara, uma teóloga, que também é freira, e defende o casamento gay e a legalização do aborto. Por suas ideias “rebeldes”, Ivone foi punida pelo Vaticano, sendo proibida de dar aulas e conceder entrevistas. Mas a punição teve o efeito oposto: instigou ela a divulgar ainda mais as suas opiniões revolucionárias. Entre suas obras encontramos títulos como: “O que é teologia feminista (2007)”, “Teología a ritmo de mujer (1995) e “Out of Depths: Women’s experience of evil and salvation (2002)”, que visam explicar o catolicismo pelo ponto de vista feminino.

Apesar de ter sido em nações protestantes que o feminismo encontrou maior espaço para a formação de movimentos de libertação, como a emancipação das mulheres, no aspecto cultural, essa vertente do Cristianismo deixa muito a desejar. Mesmo tendo coletivos feministas dentro de igrejas pentecostais e neopentecostais, como o “Evangélicas pela igualdade de gênero”, ainda falta incentivo para a produção de filmes e livros que tratem do feminismo protestante. É muito fácil achar longametragens que tratam da fé em Deus ou que contam milagres dentro das igrejas, mas quando o assunto é feminismo, a indústria cinematográfica e literária é praticamente inexistente.

O que pode ser encontrado são ensaios ou artigos acadêmicos que tratam do tema, como por exemplo, a tese de mestrado de Valéria Vilhena, evangélica e doutora em Educação e História Cultural, intitulado “Pela voz das Mulheres: uma análise da violência doméstica entre mulheres evangélicas atendidas no Núcleo de Convivência da Mulher – Casa Sofia (2009)”. Esse artigo é importante para o feminismo protestante principalmente pelo fato de que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas, segundo pesquisa feita em 2016 pela Universidade Presbiteriana Mackenzie a partir de relatos colhidos por organizações não-governamentais que trabalham no apoio às vítimas desse tipo de violência.

Com o feminismo ganhando cada vez mais espaço dentro da religião é preciso haver mais estímulo para que ele possa fincar raízes nessas instituições. Mas é preciso lembrar que antes de sair anunciando o feminismo é necessário saber para que tipo de público religioso está se falando, como orienta Regina Soares. “O feminismo que as mulheres rejeitam pode ser o que foi plantado pela mídia, uma versão distorcida de que toda feminista é ‘sapatão’ e odeia homem. Para mudar essa realidade tem que trabalhar a metodologia, você precisa saber pra que tipo de grupo está falando para não espantar e afastar as mulheres ainda mais”, adverte.


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Por que trabalhos como os das Guerrillas Girls importam?

Reportagem: Bruna Scavuzzi e Isabela Moreno
Edição: Fred Lopes

 

“Luta armada efetuada em pequenos grupos de combatentes, compostos geralmente por pessoas não pertencentes a exércitos nacionais, sem respeito pelas convenções internacionais.”

Esta é a primeira sugestão do dicionário Priberam para o significado da palavra “guerrilha”. No caso do grupo de mulheres que se autodenomina “Guerrilla Girls”, o significado não foi entendido no sentido literal. Não pertencerem a nenhum exército. Suas armas são cartazes e o inimigo que combatem é o desrespeito contra as minorias.

Criado nos Estados Unidos em 1985, o coletivo é formado por artistas feministas que utilizam máscaras de gorilas para preservar o anonimato de suas integrantes e direcionar todas as atenções para os problemas que querem abordar. Quando as Guerrilla Girls começaram seus trabalhos, muitos comunicados nas ruas de Nova York eram feitos por meio de cartazes. A ideia de utilizá-los em forma de protesto, misturando elementos de humor e pop arte, deu tão certo que as obras continuam a ser produzidas e reconhecidas em todo o mundo 32 anos depois.

Versão brasileira do cartaz inspirado na obra “A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres (1814)

A primeira mostra individual das ativistas no Brasil, “Guerrilla Girls: Gráfica 1985-2017”, ficará em exposição do Museu de Arte de São Paulo (Masp) até fevereiro de 2018. Uma de suas obras mais marcantes é o grande cartaz amarelo com a representação da figura feminina nua da obra “A Grande Odalisca” (1814), de Jean-Auguste Dominique Ingres, vestida com a máscara de gorila e que aponta estatísticas dos locais onde o grupo expõe seus trabalhos. No caso de sua versão brasileira, a obra, afirma que apenas 6% dos artistas do acervo em exposição no museu são mulheres, enquanto 60% dos nus são femininos.

Em uma coletiva de imprensa realizada no museu, três integrantes do coletivo – que assinam como Frida Kahlo, Kathe Kollwitz e Shigeko Kubota – contaram que, assim como no Queermuseu, sua obra que critica a nudez feminina já havia sofrido censuras também. “Nós fizemos esse mesmo cartaz para uma organização em Nova York. Quando eles viram, disseram ‘oh, não podemos fazer isto, isto não está claro para o público’. Mas se tem uma coisa a respeito do nosso trabalho é que ele é claro pra cacete”, comentaram.

Elas também acreditam que Brasil e Estados Unidos têm similaridades tanto na diversidade populacional quanto no momento histórico. “Ambos os países estão encarando forças reacionárias. Provavelmente, essa é uma das maiores razões que estamos aqui [no Brasil]”.

Adriano Pedrosa, um dos curadores da mostra, defende que muitas pessoas precisam conhecer o trabalho delas.  “Para o grupo que nós falamos, parece que o trabalho das Guerrilla Girls é aceito. Mas se você olhar, por exemplo, os comentários nas notícias sobre a vinda delas para o Brasil, é muito assustador o quanto conservador eles podem ser.”

Quando questionado sobre o comprometimento do Masp em melhorar a  diversidade no museu, o curador garantiu que existe a vontade para isso. Contudo, a instituição enfrenta dificuldades para colocar o plano em prática, como o orçamento para aquisição de obras. “Dependemos mais de doações. Mas se você olhar as aquisições que realizamos nos últimos três anos, mais de 50% das obras são de artistas mulheres.”

Mas por que os museus aceitam os nus femininos e negligenciam a presença de trabalhos produzidos por artistas mulheres?

A pergunta foi feita pela professora do New York Institute of Fine Arts, Linda Nochlin, em 1971, quando escreveu um artigo no qual questionava por onde andavam as grandes artistas da História. Em seu ensaio “Por que não houve grandes mulheres artistas?”, Nochlin diz que “se as mulheres de fato tivessem alcançado o mesmo status que os homens na arte, então o status quo estaria bem. Porém, na realidade […] as coisas como estão e como estiveram, nas artes, bem como em centenas de outras áreas, são entediantes, opressivas e desestimulantes para todos aqueles que, como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente classe média e acima de tudo homens”.

As vantagens de ser uma artista mulher, Guerrilla Girls

Para as ativistas, a desigualdade social e econômica impacta diretamente no mundo da arte. “Os conselhos dos museus são formados por pessoas milionárias e bilionárias, em sua maioria homens brancos, que acabam ditando para o mundo o que comprar e o que colecionar”, destacam.

No Brasil, a manutenção do status quo contribuiu para a ascensão do discurso da extrema direita sobre moral e “bons costumes”. O caso do Queermuseu, em Porto Alegre, que foi fechado após protestos grupos organizados, como o Movimento Brasil Livre (MBL), além de simpatizantes, que viam pornografia e imoralidade na arte, é um exemplo de como o conservadorismo pode frear a expansão de debates sobre a igualdade de gênero e social.

 

Fotos: Bruna Scavuzzi/Contraponto Digital