A metamorfose da arte na atualidade

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A metamorfose da arte na atualidade

Category : Notícias

Políticas de mediação cultural possibilitam interação à distância

Por Georgia Barcarolo

Gato gigante, de Nina Pandolfo. Fonte: Internet

Antes mesmo de entrar no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP), é difícil passar reto pelo gato gigante que, com ar de soberba e olhar sereno, instiga o público. A reação dos visitantes é um susto seguido de choque; alguns se perguntam se é permitido toca no felino, enquanto não desgrudam os olhos do animal. Ao lado, uma placa convida o público a passar a mão em sua pelugem e, uma vez feito isso, o gato reage: respira, ronrona, ganha vida.

A obra de mais de três metros da artista paulista Nina Pandolfo ilustra bem o rumo da arte nos últimos anos. Se antes as artes plásticas eram um privilégio de poucos e, quase que como uma lei social, só podiam ser apreciadas pelo alto escalão, hoje um dos conceitos da vertente contemporânea é a interação com o público. Do happening [improvisação que conta com a ajuda do espectador] ao ready-made [manifestação que eleva objetos banais à categoria de obra de arte], a arte contemporânea se vale da conexão com o receptor para ser arte de fato. O encontro entre Arte e Público é uma de suas principais características. Seja em qualquer linguagem ou meio, seu propósito é promover uma aproximação que produza significados para o público, que agora participa da proposta do artista.

Entretanto, mesmo com o crescente fluxo de visitação dos museus brasileiros nos últimos anos devido a exposições de grande porte – de 2014 a 2016, mais de 1 milhão de pessoas transitaram entre a Pinacoteca, MASP, Instituto Tomie Ohtake e MIS –, não é de hoje que se nota o distanciamento de grande parte da população e das artes, principalmente as artes do século XX, que desconstroem a imagem em um conceito.

Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-SP). Fonte: Internet

Para se contrapor às adversidades, políticas socioculturais foram introduzidas como aparatos de mediação cultural, as quais por meio de ações comunitárias, na vida cotidiana ou na simples introdução da disciplina de arte no currículo escolar, potencializam a experiência entre arte/cultura e público e estimulam o diálogo entre ambos.

Como forma de contornar essa tendência, o MASP decidiu inovar entre os museus brasileiros: desde março de 2017, o museu integrou a lista de instituições que fazem parte da plataforma Google Arts&Culture, como parte da política de mediação cultural do museu, que também conta com palestras abertas ao público, cursos e seminários. Assim como o Museu d’Orsay, de Paris, e o British Museum, o MASP tem uma interface que permite o passeio de internautas por alguns de seus corredores e exposições em realidade virtual.

O objetivo do museu, que disponibilizou mais de 1000 obras de seu acervo em alta qualidade de digitalização e zoom, foi de que pessoas do país inteiro pudessem aproveitar o acervo. Como resultado, pode-se apreciar sem sair de casa e ter maior interação com a arte; à medida em que se ganha maior visibilidade, sua publicidade atinge mais indivíduos e gera mais fluxo à instituição.

“É interessante como um único objeto suscita vários tipos de discussão e reflexão. Esse é o nosso papel [como mediador cultural]. Como o próprio nome sugere, a mediação constrói uma ponte entre o público e o acervo e colocamos o visitante como protagonista”, destaca o historiador e mediador cultural Rafael Pereira Santos. “A mediação reconhece a existência do conflito, mas procura possibilitar os diálogos para aproximar esses dois lados, estimulando um relacionamento amistoso e interativo.”

O uso da plataforma é considerado um grande passo na colaboração entre tecnologia e museus: com a popularização da internet e o hábito cada vez maior de compartilhamento, os museus apresentaram uma queda significativa em número de visitantes. A ferramenta dará oportunidade aos interessados por arte adquirirem incentivo para visitar as obras do acervo – o que auxiliará o uso de plataformas com o mesmo intuito para outras instituições.


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Por que trabalhos como os das Guerrillas Girls importam?

Reportagem: Bruna Scavuzzi e Isabela Moreno
Edição: Fred Lopes

 

“Luta armada efetuada em pequenos grupos de combatentes, compostos geralmente por pessoas não pertencentes a exércitos nacionais, sem respeito pelas convenções internacionais.”

Esta é a primeira sugestão do dicionário Priberam para o significado da palavra “guerrilha”. No caso do grupo de mulheres que se autodenomina “Guerrilla Girls”, o significado não foi entendido no sentido literal. Não pertencerem a nenhum exército. Suas armas são cartazes e o inimigo que combatem é o desrespeito contra as minorias.

Criado nos Estados Unidos em 1985, o coletivo é formado por artistas feministas que utilizam máscaras de gorilas para preservar o anonimato de suas integrantes e direcionar todas as atenções para os problemas que querem abordar. Quando as Guerrilla Girls começaram seus trabalhos, muitos comunicados nas ruas de Nova York eram feitos por meio de cartazes. A ideia de utilizá-los em forma de protesto, misturando elementos de humor e pop arte, deu tão certo que as obras continuam a ser produzidas e reconhecidas em todo o mundo 32 anos depois.

Versão brasileira do cartaz inspirado na obra “A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres (1814)

A primeira mostra individual das ativistas no Brasil, “Guerrilla Girls: Gráfica 1985-2017”, ficará em exposição do Museu de Arte de São Paulo (Masp) até fevereiro de 2018. Uma de suas obras mais marcantes é o grande cartaz amarelo com a representação da figura feminina nua da obra “A Grande Odalisca” (1814), de Jean-Auguste Dominique Ingres, vestida com a máscara de gorila e que aponta estatísticas dos locais onde o grupo expõe seus trabalhos. No caso de sua versão brasileira, a obra, afirma que apenas 6% dos artistas do acervo em exposição no museu são mulheres, enquanto 60% dos nus são femininos.

Em uma coletiva de imprensa realizada no museu, três integrantes do coletivo – que assinam como Frida Kahlo, Kathe Kollwitz e Shigeko Kubota – contaram que, assim como no Queermuseu, sua obra que critica a nudez feminina já havia sofrido censuras também. “Nós fizemos esse mesmo cartaz para uma organização em Nova York. Quando eles viram, disseram ‘oh, não podemos fazer isto, isto não está claro para o público’. Mas se tem uma coisa a respeito do nosso trabalho é que ele é claro pra cacete”, comentaram.

Elas também acreditam que Brasil e Estados Unidos têm similaridades tanto na diversidade populacional quanto no momento histórico. “Ambos os países estão encarando forças reacionárias. Provavelmente, essa é uma das maiores razões que estamos aqui [no Brasil]”.

Adriano Pedrosa, um dos curadores da mostra, defende que muitas pessoas precisam conhecer o trabalho delas.  “Para o grupo que nós falamos, parece que o trabalho das Guerrilla Girls é aceito. Mas se você olhar, por exemplo, os comentários nas notícias sobre a vinda delas para o Brasil, é muito assustador o quanto conservador eles podem ser.”

Quando questionado sobre o comprometimento do Masp em melhorar a  diversidade no museu, o curador garantiu que existe a vontade para isso. Contudo, a instituição enfrenta dificuldades para colocar o plano em prática, como o orçamento para aquisição de obras. “Dependemos mais de doações. Mas se você olhar as aquisições que realizamos nos últimos três anos, mais de 50% das obras são de artistas mulheres.”

Mas por que os museus aceitam os nus femininos e negligenciam a presença de trabalhos produzidos por artistas mulheres?

A pergunta foi feita pela professora do New York Institute of Fine Arts, Linda Nochlin, em 1971, quando escreveu um artigo no qual questionava por onde andavam as grandes artistas da História. Em seu ensaio “Por que não houve grandes mulheres artistas?”, Nochlin diz que “se as mulheres de fato tivessem alcançado o mesmo status que os homens na arte, então o status quo estaria bem. Porém, na realidade […] as coisas como estão e como estiveram, nas artes, bem como em centenas de outras áreas, são entediantes, opressivas e desestimulantes para todos aqueles que, como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente classe média e acima de tudo homens”.

As vantagens de ser uma artista mulher, Guerrilla Girls

Para as ativistas, a desigualdade social e econômica impacta diretamente no mundo da arte. “Os conselhos dos museus são formados por pessoas milionárias e bilionárias, em sua maioria homens brancos, que acabam ditando para o mundo o que comprar e o que colecionar”, destacam.

No Brasil, a manutenção do status quo contribuiu para a ascensão do discurso da extrema direita sobre moral e “bons costumes”. O caso do Queermuseu, em Porto Alegre, que foi fechado após protestos grupos organizados, como o Movimento Brasil Livre (MBL), além de simpatizantes, que viam pornografia e imoralidade na arte, é um exemplo de como o conservadorismo pode frear a expansão de debates sobre a igualdade de gênero e social.

 

Fotos: Bruna Scavuzzi/Contraponto Digital


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Corpo nu e a tempestade em copo copo d’água

Por Felipe Augusto de Souza

O mês de agosto foi marcado por fortes acontecimentos envolvendo a arte no Brasil. A exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte brasileira, que estava em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, foi cancelada e acusada pelo conteúdo de algumas obras. Às criticas em grande parte vieram por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) que acusaram a mostra de conter conteúdo de zoofilia, pedofilia e blasfêmia.

Não é novidade que a extrema direita tem ganhado força no país, reflexo disso foram as inúmeras acusações e compartilhamentos nas redes sociais de pessoas que apoiavam a censura e o cancelamento da mostra. De lá para cá, alguns meses após o episódio que fere a liberdade de expressão, muito se discute sobre a força da bancada evangélica e de movimentos como o MBL.

Para a psicóloga Rafaela Soares, o episódio denota o discurso distorcido por parte de alguns líderes religiosos e até mesmo de pessoas comuns que pactuam com o conservadorismo. “A sociedade brasileira tende a conservar idéias de tradicionalismo ao longo de sua existência, mantendo alguns padrões moralistas, alguns deles impregnados na nossa cultura. Esses grupos tendem a propagar essas discussões de forma isolada e irresponsável, desconsiderando todas as partes envolvidas e é ai que está o perigo, essas afirmações geram mais preconceitos em uma sociedade ainda muito fechada”.

O caso de Porto Alegre não foi o único, recentemente o mesmo grupo criticou a atuação no Museu de Arte Moderna (MAM), onde um ator era colocado no centro da sala, nu, e as pessoas ao redor interagiam com o homem. O assunto ganhou fôlego e acusações de pedofilia quando uma criança de aproximadamente 5 anos tocou o pé do ator em cena, que estava deitado no chão.

Estamos vivendo um novo surto, casos assim já foram usados anos atrás, e são conhecidos como período da arte degenerada —termo utilizado pelo regime nazista para descrever toda a arte moderna; proibindo os artistas de exibirem ou venderem a própria arte e, em alguns casos, proibidos de produzir a arte. A utilização da arte como objeto de persuasão não é novidade e Luciana Pasqualucci, pesquisadora de Doutorado em Educação acredita que esse tipo de censura não é algo recente. “A arte já foi usada em outros tempos como meios de persuasão política, isso não é algo novo. Penso que o  fato não está acontecendo apenas por parte das pessoas que dizem “a arte da pedofilia, arte do capeta”, isto também é responsabilidade das pessoas que recebem e acatam”.

Entender arte no Brasil ainda é uma discussão que precisa ser debatida, e a pesquisadora acrescenta que esse entendimento só será possível com trocas e diálogos. “Os sentidos da arte são construídos através de repertórios, e também, com esse movimento dialógico entre as pessoas e entre os conhecimentos das pessoas. Esses grupos utilizam da persuasão para convencer outros grupos do que eles querem”.

Com o discurso da “preservação da família” os movimentos extremistas estão pautando a sociedade e ganhando seguidores por pregar conceitos religiosos, familiares e políticos. José Mota é estudante de Jornalismo e interessado por arte, procurou aprimorar seu repertório para não ser contagiado por discursos como esse do MBL que fere a liberdade de expressão. “Se eu não tivesse participado de cursos no MAM e MASP, provavelmente não teria enxergado censura. Ainda estamos muito guiados por uma imprensa manipuladora que distorce as informações por interesses próprios. Na escola eu não tive essa educação para absorver  a arte, busquei o conhecimento. Para se ter uma ideia, em um semestre de faculdade tive mais repertório artístico que em todos os anos de colégio”.

Por conta da necessidade em trazer a arte mais para o ambiente acadêmico, universidades como a PUC estão fazendo uma ponte entre estudantes e museus, ampliando esses conhecimentos e trazendo o repertório artístico para a formação do estudante. Luciana é uma das pessoas inseridas no projeto e destaca a importância de falar sobre arte durante o período de aprendizado. “Sou a favor da educação com cultura, porque é por meio da cultura e da intervenção artística que você repensa os seus valores”.

Foi para fomentar o debate e frisar a liberdade de expressão que o Museu de Arte de São Paulo (MASP) trouxe para o Brasil a exposição “Histórias da Sexualidade”,  com o objetivo de estimular o debate tão urgente na sociedade, cruzando histórias, temporalidades, regiões e pessoas. “O MASP, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer de maneira critica e criativa diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais”.

A exposição acontece nos dois pisos do salão, com obras que dialogam com o discurso a cerca da sexualidade e gênero. Nas paredes é possível encontrar obras de Nicolas Poussin, Tracey Moffatt e muitas outras.


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Arte nas ruas de São Paulo

Por: Júlia Ferrari e Luciana Moraes

A Arte de Rua (ou Street Art) é o nome que se dá às manifestações artísticas desenvolvidas no espaço público. Ela não precisa de tempo, espaço ou reconhecimento para acontecer; precisa apenas da rua.

Esse movimento começou oficialmente nos Estados Unidos nos anos 70, mas estudiosos afirmam que esse tipo de arte vem desde a Grécia e Roma Antiga, já que esses povos já espalhavam pinturas pelas cidades, bem como danças, peças e etc. Sua proposta é justamente fazer com que a arte saia de lugares consagrados, como museus, teatros e cinemas, e trazê-la para as ruas, para que possam ter mais visibilidade.  

Nos últimos anos esse tipo de manifestação ganhou força no Brasil, a população se apropriou das ruas, inclusive com apoio da prefeitura que começou um projeto de interdição de algumas avenidas da cidade aos finais de semana para a prática de esportes e lazer das famílias.

Grafitis, músicos de rua, artistas e outras tantas manifestações se tornaram frequentes pela cidade. O Contraponto Digital fotografou algumas dessas demonstrações pela cidade, confira a seguir:

 

Rua Alexandre Dumas – Chácara Santo Antônio

Parque Chácara Santo Antônio

Parque Chácara Santo Antônio

Parque Chácara Santo Antônio

 

Parque Chácara Santo Antônio

Rua Alexandre Dumas – Chácara Santo Antônio

Rua Alexandre Dumas – Chácara Santo Antônio

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo

 

Avenida Paulista – São Paulo

Avenida Paulista – São Paulo


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Unindo cultura ao entretenimento, museus e exposições entram na agenda do paulistano

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Museus velhos, passeios chatos e pouco atrativos, públicos restritos. Essa realidade para exposições ficou para trás há alguns anos nos centros culturais de São Paulo. Museus da Imagem e do Som, do Futebol, Instituto Tomie Ohtake, Comic-Con, são alguns dos exemplos de como a cultura vem tentando se reinventar, fugindo de padrões que durante décadas foram predominantes e, agora, misturando cultura e entretenimento, enxergando as duas como um conjunto.

Museu da Imagem e do Som – MIS

Um dos espaços que mais soube se reinventar, e se adequar aos novos padrões, é o MIS, o Museu da Imagem e do Som, um tradicional pólo cultural da cidade que se recriou nas mãos de André Sturm, quando o mesmo assumiu o local em 2011 e anos depois o transformou em um dos maiores e mais visitados núcleos de comunicação cultural do país.

Acompanhando uma série de mudanças no formato de como se enxerga a cultura e o entretenimento, o MIS parece ter achado a fórmula do sucesso. Reabriu em agosto de 2008 inteiramente renovado para ser um museu público pronto para dialogar com a arte do século XXI, sem deixar de lado a rica história acumulada desde os anos 1970. Suas instalações foram reformadas e renovadas, numa ação que possibilitou a adequação do edifício aos seus diversos eixos de atuação, mas sem se esquecer da importância de manter sua identidade como espaço cultural que fez história na cidade de São Paulo.

Em pouco mais de três anos, o MIS se tornou o museu mais visitado do estado, com mais de 600 mil visitantes em 2014, sendo eleito também a Atração do Ano pela Quatro Rodas.

Entre julho de 2014 e janeiro de 2015 o MIS manteve um dos maiores sucessos de sua história, sobre o clássico da TV Cultura, Castelo Rá-Tim-Bum – A exposição. A mostra deixou claro qual eram os caminhos adotados pela curadoria do museu: um espaço totalmente lúdico e interativo.

Na entrada, peças que compunham o cenário restauradas pela curadoria. Mais a frente era possível imergir no próprio castelo, cômodos foram recriados, assim como os locais onde eram gravados os episódios de um dos desenhos infantis de maior sucesso no Brasil. E é nessa memória que o museu apostou. Todos que visitavam saiam sentindo-se como se realmente estivessem saído da própria série.

O sucesso foi tanto que o MIS teve que prorrogar a duração em duas oportunidades, fazendo com que a exposição tenha durado mais de 6 meses. Lucas Vanzeto, 21, estudante de administração, foi à mostra nos últimos dias, e fala que demorou para conseguir ingressos, “estava tentando ir com meus amigos desde novembro, mas só consegui um dia vazio e sem tantas filas em um dia de semana, já em janeiro… Foi muito bom, foi diferente de um museu normal”.

Castelo Rá-Tim-Bum: A exposição foi uma das masi visitadas obras do Brasil em 2014 (Foto: Revista Brasileiros)

O MIS mudou o conceito de museu, joga e aposta todas as fichas em uma experiência que, acima de tudo, preza pelo entretenimento, e não só pela cultura. Mesmo porque, a cultura é entretenimento, é lazer, é diversão. Enxergar isso talvez tenha sido o grande mérito de André Sturm, que conta ainda com recursos tecnológicos para expandir o alcance e o sucesso do local, tornando-o mais moderno e acessível.

Instituto Tomie Ohtake

O Instituto Tomie Ohtake, inaugurado em 2001, realiza mostras inéditas no Brasil. Em 2014, organizou a exposição de Yayoi Kusama, “Obsessão Infinita” e em 2017 a de Yoko Ono, “O céu ainda é azul, você sabe…”, ambas sucesso de crítica e de público.

A mostra de Yayoi Kusama tinha como atrativo a diversidade de obras (pinturas, trabalhos em papel, esculturas, vídeos, apresentação de slides e instalações). As obras, em especial as instalações, eram imersivas e colaborativas, e as bolinhas que tornaram a artista famosa apareciam em móveis, corpos e esculturas. A aluna de pedagogia Isabel Lotufo,  21, acredita que a mente instável da artista aparece nas obras: “achei algumas instalações um pouco perturbadoras e incômodas”, mas gostou do estilo mais “participativo” da exposição.

Yayoi Kusama: Obsessão Infinita

Obsessão Infinita (foto: divulgação)

A exposição de Yoko Ono é vasta e diversa, assim como a carreira artística da artista. As obras questionam a relação entre artista e espectador, e as 65 peças vem com “sugestões” que incluem o espectador no processo criativo. As proposições, às vezes sucintas (como “Respire”, de 1966), às vezes abertas (como em “Pintura para apertar as mãos”, de 1961), convidam o espectador a desempenhar um papel ativo. A aluna de psicologia Mariana Cohen, 22, adorou ser convidada a participar do processo criativo: “acredito que as instruções interativas e o caráter questionador da mostra estimulam e instigam o público”, e acrescentou que iria em outras exposições do tipo.

O público é convidado a interagir com as obras da artista nipo-americana: pregos em tela de madeira

Pregos em tela de madeira (foto: Veja SP)

Museu do Futebol e Museu da Língua Portuguesa

Inaugurado em 2008 o Museu do Futebol, junto ao Museu da Língua Portuguesa, inaugurado dois anos antes, são marcos na cultura paulistana. O pioneirismo do formato das exposições, sempre interativas e muito mais tecnológicas, abre caminho para um novo jeito de se enxergar a cultura, que hoje em dia entretêm e não só exibe ou informa.

O Museu da Língua Portuguesa, fechado depois de um incêndio em 2015, inaugurou uma nova era nos espaços da cidade, por isso sua reconstrução seguirá o projeto original, “Foi decidido que o museu, enquanto projeto museológico, foi um sucesso, reconhecido. Por isso, a continuidade dele era fundamental”, explicou a coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico da Secretaria de Estado da Cultura, Renata Vieira da Motta.

Interior do Museu da Língua Portuguesa

Com som, imagens interativas, uso de tecnologias avançadas e muito mais lúdico do que as pesadas exposições do MASP, Museu do Ipiranga e mesmo as antigas mostras da Pinacoteca. O novo formato de cultura e entretenimento chama atenção do público que se sente mais próximo das exibições como recorda a estudante Carolina Lima, de 20 anos, “Eu lembro que podia mexer e tocar nas coisas no Museu da Língua Portuguesa, tinham várias telas, músicas, vídeos. ” Ela conta que ainda não visitou o Museu do Futebol, mas tem vontade após ouvir comentários entre os amigos.

A instalação, embaixo das arquibancadas do Estádio Paulo Machado de Carvalho – o Pacaembu, tem 15 salas temáticas e interativas, que narram de forma lúdica e interativa a chegada e consagração do futebol como esporte nacional.

Sala das Copas do Mundo

São seis mil metros quadrados que fazem o visitante viajar no tempo. Entre objetos, gravações e fotos em preto e branco o material reunido ali tem mais de seis horas de lembranças em uma homenagem a um dos maiores patrimônios cultural do país. O trajeto ainda conta com mesas de pebolim, para se sentir o técnico, telão touch com um campinho virtual e, para aqueles que se arriscam, chute a gol.

O espaço custou mais de R$25 milhões para abrir. No primeiro ano recebeu 370 mil pessoas e teve durante os meses de junho e julho de 2014, durante a Copa do Mundo, seu maior ápice de visitação: 75 mil visitantes. O Museu da Língua Portuguesa teve investimento de R$37 milhões, para a reconstrução está estimado o valor de R$65 milhões, divididos entre o pagamento do seguro e investimento de organizações privadas, como a Fundação Roberto Marinho.

Além da semelhança no formato, ambos os espaços são administrados pela Organização Social de Cultura IDBrasil Cultura, Educação e Esporte, uma entidade privada e declarada sem fins lucrativos que presta serviços à comunidade. Os Museus se mantém através de captações feitas por eles mesmos, como ingressos, patrocínios, locações e atividades desenvolvidas no local. Esse modelo de gestão começou em 2005 no Estado de São Paulo e se mantém forte até os dias de hoje incentivando a área cultural da cidade e do estado.

 

Comic Con

Tudo começou em 1968, quando um grupo de amigos se encontrou em um hotel na Inglaterra e chamou a reunião de “Comicon”. No ano de 1970, em San Diego, na Califórnia, foi fundada a primeira Convenção do Golden State Comic Book Convention, realizada por um grupo de locais, que reuniu cerca de 300 pessoas. O evento era aberto para escritores de livros e revistas em quadrinhos, expositores, etc. tudo ligado à cultura pop.

Atualmente chamada de Comic Con, a convenção ocorre não apenas na Califórnia, mas em Nova York, Buenos Aires, Tóquio, Londres, Índia, Filipinas, São Paulo, Recife, e em mais 31 lugares espalhados no globo, sendo a versão paulista a maior do mundo.

Aqui, o evento é chamado de Comic Com Experience (CCXP), e assim como nas outras cidades, tem quatro dias de duração (normalmente de quinta a domingo). Ocorre no São Paulo Expo no começo de dezembro, e conta com a presença de atores de filmes e séries, tanto estrangeiros quanto brasileiros, diretores, produtores, roteiristas, produtores de games, autores de livros, além de várias exposições.

Os “painéis” são entrevistas abertas ao público, e ano passado recebemos nomes como Vladmir Brichta, Neil Patrick Harris, o elenco completo das séries Shadowhunters e 3%, ambas da Netflix, sendo a última brasileira; parte do elenco de Sense8 (Miguel Angel Silvestre, Brian J. Smith e Tina Desai); a Luna de Harry Potter, Evanna Lynch; Maurício de Souza, sua filha Mônica e a equipe dos gibis, das séries disponibilizadas na internet e do filme que está previsto para estrear em dois anos. Além de todos esses nomes, o Auditório Cinemark, o maior do evento, também recebeu nos outros dias o desenhista da Mulher Maravilha, Yannick Paquette, o diretor de Guardiões da Galáxia, James Gunn, entre outros nomes.

Espalhados pela arena estão estandes exibindo figurinos e até algumas atividades interativas, como o estande de Game of Thrones, onde era possível sentar no Trono de Ferro, observar o figurino de Cersei (Lena Headey) e assistir a montagem da abertura icônica da série. Além de participar das entrevistas e exposições interativas, é muito comum que os visitantes vistam “cosplays”, que são fantasias extremamente bem feitas dos seus personagens favoritos.

O ponto negativo do evento são os preços. “É realmente um evento muito legal, mas é muito caro. ”, opinou Matheus Campos, estudante, 20. “Além da entrada, gastamos bastante com os cosplays também.”. Os ingressos entraram a venda no começo do mês e o primeiro lote já cobra números altos: as entradas diárias variam de acordo com o dia escolhido e vão de R$59,98 a R$259,98 (entradas inteiras). Se o cliente preferir, há um pacote de ingressos para os quatro dias, no valor inteiro de R$759,98. Além disso, há três pacotes especiais: o Epic Experience (R$999,00), que garante acesso à Spoiler Night (visita ao pavilhão), entradas VIPs uma hora antes da abertura dos portões para o público geral, e pôster e camiseta exclusivos do evento; Full Experience (R$6999,00), que também garante entrada antecipada e outras regalias como entrada e assento VIP no Auditório Cinemark, onde ocorrem os painéis, acesso ao estacionamento sem custo adicional, acesso ao Lounge e outros produtos exclusivos; e o pacote Unlock (R$1999,00), que inclui acesso às conferências e palestras relacionadas ao negócio do entretenimento e visitas guiadas.

Na sua terceira edição em São Paulo, no ano passado, o evento utilizou 115 mil metros quadrados, representando um aumento de 194% de sua primeira edição, em 2014, e superando a edição de San Diego. Com relação ao público, chegou a cerca de 200 mil visitantes, 80% mais que dois anos atrás. 

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(Foto: CCXP 2016)

A edição deste ano está marcada para os dias 7 a 10 de dezembro, no São Paulo Expo, e espera receber mais de 190 mil visitantes. Dois artistas de quadrinhos já foram confirmados: o desenhista das tirinhas Um Sábado Qualquer, Carlos Ruas, e uma das desenhistas da Mulher Maravilha, Nicola Scott. Os ingressos já estão à venda no site do evento.

 

Mais informações: o evento disponibiliza transporte da estação do Metrô Ana Rosa até o São Paulo Expo.

Site Comic Con Experience


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Consequências identitárias pós-migração em massa

políticas xenofóbicas e perda de traços culturais caracterizam a europa de novas faces

Por Alessandra Tavares, Douglas Silva, Júlia Bulbov, Julia Fregonese e Mayara Sousa

A imigração existe desde os primórdios da humanidade, seja por questões de desastre natural, perseguição política, estudo, trabalho, até mesmo por amor. As consequências desse deslocamento, quando é fruto de guerras, ou seja, uma mudança imposta, é a crise de identidade do indivíduo, que perde sua casa, seu trabalho, seus vizinhos, amigos, suas referências culturais, as tradições, as comidas típicas que eram presentes na sua região de origem, tendo uma quebra radical em cada aspecto de sua vida.

As consequências se estendem também para os países em que os refugiados  buscam ajuda. Desde 2011 é noticiado uma mudança no pensamento europeu por conta disso, o que impulsiona ainda mais políticas extremistas de direita e difunde a xenofobia.

Identidade do imigrante

Um dos mecanismos de reconhecimento do sujeito é saber que pertence a uma nação. “O sentimento de identidade e lealdade é gerado pela ideia de que a nação é uma comunidade simbólica e, portanto, compartilhada por um número grande de indivíduos capazes de dar ao homem uma significação de pertencimento” afirma Helder Rodrigues Pereira em seu artigo “A crise da identidade na cultura pós-moderna”.

O reconhecimento local vem, normalmente, acompanhado pelo uso da língua materna e pela adoção de costumes. Ele pode mudar quando o sujeito sai de seu país e desenvolve um sentimento por outra nacionalidade; isto inclui a renúncia ao país natal e a aquisição de uma nova cidadania.

Segundo Jean S. Phinney, pesquisadora sobre a formação identitária, refugiados adultos chegam a um novo país com seus traços culturais bem estabelecidos. Quanto mais tempo eles permanecerem, maior possibilidade de se estabelecer com a nova cultura. Porém, aqueles que foram deslocados chegam com a ideia de voltar a suas origens e, portanto, não se reconhecem como parte do novo país.

Uma particularidade étnica origina-se na herança ancestral da pessoa e não pode ser mudada, embora possa ser negada ou ignorada. “É um laço poderoso de um povo (…) uma das forças organizadoras mais importantes das compreensões individuais da realidade, agrupamentos e divisão de povos no mundo atual” afirmam os sociólogos Spickard e Burroughs.

Stuart Hall, sociólogo e teórico cultural, em sua obra “A identidade cultural na pós-modernidade” diz que o colapso das identidades modernas é causado por um tipo de mudança estrutural que está transformando as sociedades. Essa perda é chamada de deslocamento ou descentração do sujeito, ou seja, o sujeito não se relaciona no mundo, nem em si mesmo. Ela pode ser compreendida num processo de fragmentação do indivíduo moderno.

No caso dos imigrantes, a crise é causada por esse deslocamento proposto por Hall, a pessoa tem que se adaptar com novos costumes e muitas vezes sua cultura fica “abandonada”.

Identidade do europeu

Quando nem os direitos dos cidadãos são garantidos durante uma crise econômica, os que mais sofrem são os imigrantes. Movimentos populistas os fazem de bodes expiatórios, assustam os eleitores e levam partidos moderados e centristas a imitá-los por motivos eleitoreiros. Ao preço de dissolver os próprios valores ditos “europeus”, de tolerância, igualdade e laicidade, para supervalorizar os egoísmos e peculiaridades regionais e nacionais.

“O “projeto europeu” vive um desequilíbrio que alguns afirmam ser estrutural e de continuidade, enquanto que outros defendem ser transitória, mas conjunturalmente agravada por um cenário de crise econômica e financeira.

“Faz tempo que a União Europeia está polarizada entre os partidários do multiculturalismo e do ultranacionalismo. Você tem a incrível ascensão de partidos nacionalistas de extrema direita como o Ukip, na Grã-Bretanha, a Frente Nacional, na França e o Pegida, na Alemanha. Este último, especialmente, não só se diz publicamente anti-imigrante, mas também parece se sustentar sobre uma única plataforma: livrar a Europa de todos os muçulmanos.” relata o iraniano Reza Aslan, especialista em temas religiosos, durante uma entrevista para o Estado de São Paulo em 2016.

“E esse tipo de ambiente hostil é algo que os islamistas estão aguentando há muito tempo. Não tem a ver apenas com Islã, mas com política de imigração, problemas da UE e, em um sentido mais amplo, com a crise de identidade que muitos europeus estão sofrendo ao encarar um mundo que não parece mais com aquele que estavam acostumados. A polarização levou a esses ataques, que fortalecerão os partidos de ultradireita e a situação vai ficar mais tensa.” completa Aslan.

 

Reação política

Em março deste ano, ocorreu o encontro simbólico na Casa Branca entre dois dos maiores líderes mundiais: a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente dos Estados Unidos Donald Trump. A recusa de Trump em apertar as mãos de Merkel jogou os holofotes de volta às políticas de imigração de cada país. O governo dos EUA havia lançado em fevereiro uma restrição de voo a viajantes provindos de diversos países muçulmanos, ato que foi barrado no mesmo mês pela Justiça. No caso da Alemanha, em 2015 entraram quase 900 mil pessoas estrangeiras procurando refúgio no país, número que em 2016 caiu para 280 mil novos chegados.

No entanto, com as novas eleições europeias se aproximando, candidatos de extrema direita vêm ganhando novos eleitores através do discurso xenofóbico. Um exemplo é a candidata francesa Marine Le Pen, líder nacional do partido National Front, que explica a ilegalidade do deslocamento através do argumento de que a cidadania francesa deve ser herdada ou conquistada pelo mérito. Além disso, Le Pen também não separa a religião islâmica do extremismo, proclamando que imigrantes estão buscando converter os franceses ao terrorismo. Países como a Alemanha, Holanda, Grécia, Hungria, Suécia, Áustria e até mesmo Eslováquia tiveram seus partidos de extrema-direita crescendo nas pesquisas eleitorais.

Vem crescendo junto aos partidos de extrema-direita a teoria chamada de “grande substituição” (Great Replacement), que prevê, como consequência da imigração, a substituição de cidadãos europeus nativos por estrangeiros, com o apoio do governo e da imprensa, que iriam destruir a identidade europeia. Na Alemanha surgiu o movimento PEGIDA (Patriotic Europeans Against the Islamisation of the West, ou Europeus Patrióticos Contra a Islamização do Oeste), que se espalhou para outros países como Holanda, Inglaterra e República Checa. O movimento pede a renúncia de Merkel e a interrupção imediata de recepção de imigrantes e refugiados.

Políticas de integração do imigrante na Europa

A União Europeia (UE) tem como tática para os programas de integração estabelecer métodos que buscam equilibrar a abordagem do problema. Trata-se de meios que consigam compreender e balancear a questão da migração e barrar o deslocamento ilegal. A abordagem dada pela UE a essa questão, promove a garantia de tratamento justo aos nacionais de países terceiros que vivem legalmente nos Estados-Membros e aperfeiçoar processos de combate ao deslocamento clandestino. Por fim, estipula o objetivo de desenvolver direitos e deveres aos sujeitos que estão na legalidade, equivalentes aos dos cidadãos da União Européia, enquanto a migração ilegal é, tratada pela UE, através de políticas de regresso.

O primeiro projeto de acolhimento para refugiados da Europa, surgiu com a finalidade de oferecer uma entrada legal, segura e digna na UE aos imigrantes. O programa se baseia no acordo assinado entre os ministérios do Interior e de Relações Exteriores da Itália e três entidades religiosas, a Comunidade de Santo Egídio (que deslocou 700 refugiados do Oriente Médio para a Itália), a Federação das Igrejas Evangélicas da Itália e a Mesa Valdesa. As organizações religiosas arcam com todas as despesas dos asilados, enquanto as autoridades italianas se encarregam da aprovação de cada imigrante e de sua segurança. A Santo Egídio colabora com as questões a longo prazo e o acolhimento inicial. Todos os direitos oferecidos são financiados sem fundos do Estado. A organização recebeu mais refugiados que a soma de 15 países da União Europeia.

As Organizações não Governamentais (ONGs) são muito importantes para a integração do novo indivíduo no país que o receberá. A principal função destas ONGs é restabelecer a inclusão educacional (ensinando as condições básicas e necessárias para que se consiga ler, escrever e falar a língua do país) e cultural (aproximando a sua cultura materna da cultura que será vivenciada) para que seja oferecida ao imigrante a possibilidade de trabalho e renda, auxiliando na independência e autonomia necessária para estabilizar a vida em um novo país.