As cores de Helena Coutinho

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As cores de Helena Coutinho

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Category : Notícias

Por Larissa Coelho

É através de ruas estreitas, calçadas apertadas e casas do século passado que Jundiaí guarda seus tesouros. Engana-se quem pensa que o pedágio é a maior barreira entre a cidade e a capital, São Paulo. Na terra da uva, a vida acontece devagar. São as tardes de café bem passado e as andanças pelo bairro, os protagonistas da vez.

No sábado, o dia acaba na metade, e a cidade se recolhe, quase como um ritual divino. Para o orgulho dos clérigos, o domingo começa cedo, com a missa das seis e o recolhimento de doações de porta em porta às nove. De segunda à segunda a vida acontece, com poucas deturpações e desvios.

Para a mineira Helena Coutinho, no entanto, Jundiaí era mais do que sossego e rotina, era pedido em orações, feitas ao pé da cama todo dia antes do sono bater. Em abril de 1966, ela juntou a vida numa mala de mão – como diria Eliane Brum – e foi viver o sonho.

Mesmo hoje, com as indústrias e prédios espelhados – consequências da pouca distância entre a cidade e duas grandes metrópoles – Jundiaí não deixou de ser a menina dos olhos para Helena. É na calmaria do bairro da Ponte São João, que ela encontrou refúgio para viver a vida que sempre quis.

Aos 71 anos, Helena se tornou célebre na cidade da mesma maneira que eu a conheci: através das cores que entrega ao cinza do concreto urbano. Não é preciso perguntar aos vizinhos o endereço da mineirinha, basta seguir os postes pintados à mão até a casa de paredes floridas.

Três palmas no portão e ela aparece na porta da frente espremendo os olhos para conseguir enxergar a visita da vez. Entre tantos jornalistas com câmeras e tripés na mão que já apareceram por lá, a presença de uma garota com um bloquinho passa longe de qualquer preocupação.

Da calçada ao telefone da casa, tudo é pintado. Nas mãos de Helena, qualquer superfície vira tela branca. Com passos rápidos, ela corre para cozinha e oferece uma cadeira. Enquanto passa o café, ela começa a prosa, tornando quase dispensável o trabalho jornalístico.

“Só alegria me traz tudo isso que eu faço aqui. Pode alguém achar até que seja cafona, ultrapassado, enjoativo. Pra mim é novidade. Cada vez que eu olho minha pintura é como se eu tivesse feito ontem ou hoje”, ela conta.

Com aparência simples, ela dispensa vaidades: “Gosto das minhas mãos grossas porque é sinal de que estou trabalhando”. Ainda com restos de tinta nos braços, ela conta como tudo começou.

Foi através da delicadeza de Paulo, pintor de letreiros da região, que Helena descobriu o prazer pela arte. Enquanto se esforçava na placa de um mercadinho, o moço logo teve a tarefa reconhecida pela mineira: “Tô gostando de ver o trabalho seu! O senhor poderia fazer umas flores lá em casa?”.

Entre um café e outro, o rapaz concordou e dispensou qualquer pagamento. Ele forneceria as tintas e a mão de obra.

Com a paciência de quem já sabia a grandiosidade da senhora que lá estava, Paulo seguia cada instrução de Dona Helena. Primeiro vieram as folhas, depois as flores, depois a borboletas e, por fim, os pássaros. No fim do dia, lá estava a parede pintada, para o gosto da mineira.

Talentosa de nascença, como ela mesmo diz, logo seguiu colorindo o resto sozinha. Quando as paredes ficaram poucas para o tamanho da vontade, ela saiu do portão de casa. Pintou primeiro o poste da frente, partiu depois para os demais da rua e logo já havia colorido todo o quarteirão.

Helena virou capa do jornal da cidade e apareceu nas matérias da TV, sempre com a mesma simplicidade, como quem não ligava pro produto final, mas sim para conversa que vinha antes.

Os dramas da vida, no entanto, fogem dos limites da capital e alcançam as senhoras, nos bairros tranquilos do interior. Ela estava com a filha quando veio o mal estar e também quando veio o diagnóstico: Acidente Vascular Cerebral.

A fragilidade humana veio como um freio para Helena. Com a fala e movimentos das mãos afetados, ela afastou os pincéis e as cantorias das missas. Descobriu programas televisivos que há muito já não assistia pela falta de tempo entre uma arte e outra.

Foi com o pedido insistente de uma vizinha e xará que Helena voltou à ativa. “Ela queria que eu pintasse o poste da rua dela. Aquele foi o último, cansei de poste!”.

A canseira momentânea da pintura, pôs nela novos prazeres. Todo dia cedinho, a senhora puxa o carrinho de mão, montado com ferramentas e baldes de água, até o pracinha do bairro. Com cuidado ela analisa o trabalho a ser feito. Ervas daninhas a serem arrancadas e novas flores a serem plantadas.

Quando o trabalho está feito, ela para e admira com gosto o pedacinho de verde que cultiva no meio da selva de concreto.

Depois do nosso café, recheado de prosa que só ela poderia contar, ela pega o violão e se põe a cantar. Entre os versos da música “Helena Mineirinha”, composta em sua homenagem por uma amiga, ela prova que o AVC não foi capaz de tirar a essência. Se uma nota ou outra sai desafinada, pouco importa. Dos desprazeres da vida, só ficou um: as flores da pracinha do bairro que o vizinho, seu Orlando, havia arrancado no dia anterior.