Eliza é mais poesia que mulher

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Eliza é mais poesia que mulher

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Por Thays Reis

Eliza Castro na Fábrica de Cultura do Capão Redondo. Fonte: Arquivo pessoal.

Com sotaque mineiro e voz ainda fina de menina, Eliza Castro, com z mesmo, declama sua poesia de forma rápida, acelerada e muito bem articulada. Quando abre a boca, mostra nos versos cadenciados toda sua lucidez e crítica sobre o mundo. Ali, Eliza é ela mesma.

Com sotaque mineiro e voz ainda aguda de menina, Eliza Castro, com z mesmo, declama sua poesia de forma rápida, acelerada e muito bem articulada. Quando a voz sai dos seus lábios, mostra nos versos cadenciados toda sua lucidez e crítica sobre o mundo. Ali, Eliza é ela mesma.

Em um evento de pós-graduandos da PUC-SP, um grupo de jovens negros periféricos do Slam da Guilhermina, evento que acontece na zona leste de São Paulo, finalmente entram em evidência em um espaço branco, classista e elitizado. Eliza, que é da zona leste de BH, é uma das convidadas especiais do grupo. 

O Slam é um campeonato de poesia falada, sem música ou qualquer outro acompanhamento, somente a voz de pessoas que tenham algo a dizer e coragem pra declamar. As regras do jogo são poesias de no máximo 3 minutos, que são julgadas com notas de 0 a 10, por pessoas escolhidas aleatoriamente na plateia.

“Eliza Castro, com z”, como ela mesma diz, tem apenas 19 anos, e muito a contar sobre o mundo. Com uma camiseta estampada “poesia marginal” com letras de pixe, calças jeans e um all star de cano alto branco, a garota vai tímida à frente do auditório, com os ombros encolhidos e cabeça baixa.

É só quando ela começa a declamar que Eliza ganha força e assume o espaço, se torna mulher, rainha e dona da palavra. Abre os braços, aponta, preenche o palco inteiro com a voz e questiona como que pra mim: “a TV faz ceia/ da cena/ do crime/ que comeram junto com a nossa história”.    

Atrás dos óculos fundos, os olhos de Eliza brilham ao declamar suas poesias que vão da sua luta secundarista durante as ocupações das escolas ao genocídio do povo negro. Da dificuldade diária de pegar o transporte público ao racismo sofrido em tão pouco tempo de história. “O que me inspira a escrever é o que eu vivo mesmo, minhas experiências pessoais”, diz ela.

Ela é uma mulher que muda muito o cabelo, mas não tanto quanto gostaria. Depois que descobriu que seu cabelo possui muitas possibilidades, Eliza sente vontade de ficar trocando de estilo diversas vezes. Assim como muitas pessoas negras, que vivem em um sistema racista e opressor, Eliza acredita que durante o processo de aceitação, a aparência estética é a primeira que muda. “Meu cabelo foi a primeira coisa que eu deixei natural, falei que não ia alisar mais, porque não fazia mais sentido. Acho que foi o início de uma grande transformação”, diz ela. 

Eliza se tornou poeta ainda no ensino médio, feito em Belo Horizonte. Seu professor de literatura, que participava do Slam Clube da Luta, grupo que surgiu em 2014 no centro da cidade, levou o grupo para dentro de uma sala de aula no início de 2018. Uma amiga dela competiu e ela se apaixonou. “Depois fui conhecer o slam Minas Gerais, uma competição em nível estadual, e falei: ‘é isso que eu quero!’. Comecei a escrever no início de 2018 e competir desde então, no final do ano passado”, diz ela.

Eliza conta que a primeira vez que declamou foi em um evento, mas que a sua primeira apresentação significativa foi no Slam Clube da Luta, grupo ao qual pertence. “Eu tava muito nervosa, nervosa mesmo.Até hoje eu fico, só que é um nervosismo diferente, talvez mais controlável”, diz a garota.

A jovem vem realizando diversos sonhos durante esse pouco tempo de poeta. Participou de dois livros, o “Antifa”, aglomeração de poemas de diversos autores com textos que combatem o fascismo e atuais posições autoritárias, da Coleção Slam, coordenado por Emerson Alcalde e “Raízes – Resistência Histórica vol.2”, reunião de textos em diversos formatos escrito por 20 mulheres negras.

A primeira vez que Eliza veio à São Paulo, foi para o lançamento de “Antifa”. A garota disse que teve que juntar dinheiro e, ainda com a ajuda dos pais, comprou a passagem para lançar o livro que ela tinha ajudado a construir. 

Ela conta como as vivências do próprio slam são diferentes entre a cidade de Belo Horizonte e a capital da garoa. Segundo ela, em BH a cena do slam é mais difícil, tudo é mais precário, que os slams tem menos apoio, menos engajamento e menos infraestrutura. O Slam Clube da Luta, grupo do qual faz parte, se reúne em uma praça, sem caixa de som ou microfone, “é tudo na raça”, diz ela.

Ainda após essas publicações, em 2018, Eliza Castro publicou seu primeiro zine, um pequeno livro auto-publicado em pequena circulação de textos e imagens originais, reproduzidos por xerox, chamado “Imergindo na Poesia Marginal”, que marcou essa fase de descobrimento e ascensão da poeta na cena do slam na periferia. A peça custava apenas R$2,00, as edições eram limitadas e feitas com todo carinho e zelo.

Em 2019, a artista traz um novo zine, chamado “Silêncio também é poesia”, escrito a mão, com poemas mais sensíveis, subjetivos e pessoais que a slammer não costuma dizer em voz alta, por serem mais sensíveis e pessoais, diferente dos poemas combativos e questionadores que costuma declamar, por isso a escolha do nome. A publicação enquadra em margens de 1,5 cm a delicadeza e incerteza de uma jovem, expõe detalhes da sua caligrafia, sua letra “e” estilizada e o cuidado com cada palavra pensada e escrita. Ao mesmo tempo, a imperfeição e linhas irregulares, o texto que desce e sobe em linhas imaginárias dão um toque pessoal de quem mostra um pedacinho da alma, da vida subjetiva e de segredos que não são ditos, mas escritos para quem tiver a delicadeza de perceber e descobrir quem, de fato, Eliza é.

A garota hoje trabalha exclusivamente com poesia, vendendo livros, zines, fazendo intervenções artísticas pela cidade, movimentando a cena da poesia e fazendo o que realmente ama e acredita.

A garota de Belo Horizonte fala com todas as letras “a poesia me levou a lugares inimagináveis”. Em julho de 2018, Eliza foi pela primeira vez a Flip, na 19ª Festa Literária de Paraty, também para o lançamento de “Antifa”. Além da honra de ser convidada para um evento tão grande e reconhecido, a menina relembra que também foi a segunda vez que viu o mar, um detalhe tão importante para quem sempre morou longe das ondas. No Rio, a menina diz que frequentou vários slams pela região e conheceu muitos poetas que combinam com a cidade: “também são maravilhosos”. 

Como viver de arte é uma luta e uma escolha que, por vezes, gera muito preconceito, pergunto se os pais de Eliza aprovam sua escolha de trabalhar com poesia. Ao contrário das minhas expectativas, os pais da garota gostam muito, até mesmo “colam no rolê” algumas vezes, principalmente sua mãe, porque percebe que a poesia proporcionou muitas oportunidades a ela.

A poesia transformou a vida de Eliza, mostrou novos horizontes e possibilidades, realizou sonhos, aproximou o mar e um futuro mais brilhante do que ela pôde imaginar. Mostrou que tem um mundo lá fora que é todo dela, que a garota de 19 anos da voz doce tem pensamentos fortes e merece, ou melhor, deve ser ouvida. Ao lado de muitos outros poetas marginais, como se denominam, Eliza enriquece o conceito de arte e poesia.

Com sotaque mineiro e voz ainda fina de menina, Eliza Castro, com z mesmo, declama sua poesia de forma rápida, acelerada e muito bem articulada. Quando abre a boca, mostra nos versos cadenciados toda sua lucidez e crítica sobre o mundo. Ali, Eliza é ela mesma.

Em um evento de pós-graduandos da PUC-SP, um grupo de jovens negros periféricos do Slam da Guilhermina, evento que acontece na zona leste de São Paulo, finalmente entram em evidência em um espaço branco, classista e elitizado. 

O Slam é um campeonato de poesia falada, sem música ou qualquer outro acompanhamento, somente a voz de pessoas que tinham algo a dizer e tinham coragem pra declamar. As regras do jogo são poesias de no máximo 3 minutos, que são julgadas com notas de 0 a 10, por pessoas escolhidas aleatoriamente na plateia.

“Eliza Castro, com z”, como ela mesma diz, tem apenas 19 anos, e muito mais a contar sobre o mundo do que já viveu na pele. Com uma camiseta estampada “poesia marginal” com letras de pixe, calças jeans e um all star de cano alto branco, a garota vai tímida à frente do auditório, com os ombros encolhidos e cabeça baixa. 

É só quando ela começa a declamar que Eliza ganha força e assume o espaço, se torna mulher, rainha e dona da palavra. Abre os braços, aponta, preenche o palco inteiro com a voz e questiona como que pra mim: “a TV faz ceia/ da cena/ do crime/ que comeram junto com a nossa história”.    

Atrás dos óculos fundos, os olhos de Eliza brilham ao declamar suas poesias que vão da sua luta secundarista durante as ocupações das escolas ao genocídio do povo negro. Da dificuldade diária de pegar o transporte público ao racismo sofrido em tão pouco tempo de história. 

Eliza se tornou poeta ainda no ensino médio, feito em Belo Horizonte. Seu professor de literatura, que participava do Slam Clube da Luta, grupo que surgiu em 2014 no centro da cidade, levou o grupo para dentro de uma sala de aula no início de 2918. Uma amiga dela competiu e ela se apaixonou. “Depois fui conhecer o slam Minas Gerais, uma competição em nível estadual, e falei: ‘é isso que eu quero!’. Comecei a escrever e competir desde então, no final do ano passado”, diz ela.

A jovem sonhadora vem realizando pequenos sonhos durante esse pouco tempo de poeta. Participou de dois livros, o “Antifa”, aglomeração de poemas de diversos autores com textos que combatem o fascismo e atuais posições autoritárias, da Coleção Slam, coordenado por Emerson Alcalde e “Raízes – Resistência Histórica vol.2”, reunião de textos em diversos formatos escrito por 20 mulheres negras.

A primeira vez que Eliza veio à São Paulo, foi para o lançamento de “Antifa”. A garota disse que teve que juntar dinheiro e, ainda com a ajuda dos pais, comprou a passagem para lançar o livro que ela tinha ajudado a construir. 

Ela conta como as vivências do próprio slam são diferentes entre a cidade de Belo Horizonte e a capital da garoa. Segundo ela, em BH a cena do slam é mais difícil, tudo é mais precário, que os slams tem menos apoio, menos engajamento e menos infraestrutura. O Clube da Luta, grupo do qual faz parte, se reúne em uma praça, sem caixa de som ou microfone, que é tudo “na raça”, diz ela.

Ainda após essas publicações, em 2018, Eliza Castro publicou seu primeiro zine, um pequeno livro auto-publicado em pequena circulação de textos e imagens originais, reproduzidos por xerox, chamado “Imergindo na Poesia Marginal”, que marcou essa fase de descobrimento e ascensão da poeta na cena do slam na periferia. A peça custava apenas R$2,00, as edições eram limitadas e feitas com todo carinho e zelo.

Em 2019, a artista traz um novo zine, chamado “Silêncio também é poesia”, escrito a mão, com poemas mais sensíveis, subjetivos e pessoais que a slammer não costuma dizer em voz alta, por serem mais sensíveis e pessoais, diferente dos poemas combativos e questionadores que ela costuma declamar, por isso a escolha do nome. A publicação enquadra em margens de 1,5 cm a delicadeza e incerteza de uma jovem, expõe detalhes da sua caligrafia, seu “e” estilizado e o cuidado com cada palavra pensada e escrita. Ao mesmo tempo, a imperfeição e linhas irregulares, o texto que desce e sobe em linhas imaginárias dão um toque pessoal de quem mostra um pedacinho da alma, da vida subjetiva e de segredos que não são ditos, mas escritos para quem tiver a delicadeza de perceber e descobrir quem, de fato, Eliza é.

A garota de Belo Horizonte fala com todas as letras “a poesia me levou a lugares inimagináveis”. A garota conta com orgulho que, em julho de 2018, Eliza foi pela primeira vez a Flip, na 19ª Festa Literária de Paraty, também para o lançamento de “Antifa”. Além da honra de ser convidada para um evento tão grande e reconhecido, a menina relembra que também foi a segunda vez que viu o mar, um detalhe tão importante para quem sempre morou longe das ondas. No Rio, a menina diz que frequentou vários slams pela região e conheceu muitos poetas que combinam com a cidade: “também são maravilhosos”. 

A poesia transformou a vida de Eliza, mostrou novos horizontes e possibilidades, realizou sonhos, aproximou o mar e um futuro mais brilhante do que ela pôde imaginar. Mostrou que tem um mundo lá fora que é todo dela, que a garota de 19 anos da voz doce tem pensamentos fortes e merece, ou melhor, deve ser ouvida. Mal sabia Eliza que ela também transforma, a cada dia, o conceito de poesia.

Em um evento de pós-graduandos da PUC-SP, um grupo de jovens negros periféricos do Slam da Guilhermina finalmente entram em evidência em um espaço branco, classista e elitizado. O Slam é um campeonato de poesia falada, sem música ou qualquer outro acompanhamento, somente a voz de pessoas que tinham algo a dizer e tinham coragem pra declamar.

“Eliza Castro, com z”, como ela mesma diz, tem apenas 19 anos, e muito mais a contar sobre o mundo do que já viveu na pele. Com uma camiseta pixada “poesia marginal”, a garota vai tímida à frente do auditório, com os ombros encolhidos e cabeça baixa. Mas quando ela fala se torna mulher, rainha e dona da palavra. Abre os braços, aponta, preenche o espaço inteiro com a voz e questiona como que pra mim: “a TV faz ceia/ da cena/ do crime/ que comeram junto com a nossa história”.    

Atrás dos óculos fundos, os olhos de Eliza brilham ao declamar suas poesias que vão da sua luta secundarista durante as ocupações das escolas ao genocídio do povo negro. Da dificuldade diária de pegar o transporte público ao racis 

Eliza se tornou poeta ainda no ensino médio, feito em Belo Horizonte. Seu professor de literatura, que participava do Slam Clube da Luta, levou o grupo para dentro de uma sala de aula. Uma amiga dela competiu e ela se apaixonou. “Depois fui conhecer o slam MG e falei: ‘é isso!’ Comecei a escrever e competir desde então, no final do ano passado”, diz ela.

A jovem sonhadora vem realizando pequenos sonhos durante esse pouco tempo de poeta. Participou de dois livros, o “Antifa”, aglomeração de poemas de diversos autores com textos antifascismo, da Coleção Slam, coordenado por Emerson Alcalde e “Raízes – Resistência Histórica vol.2”, reunião de textos em diversos formatos escrito por 20 mulheres negras.

A primeira vez que Eliza veio à São Paulo, foi para o lançamento de “Antifa”. A garota disse que teve que juntar dinheiro e, ainda com a ajuda dos pais, comprou a passagem para lançar o livro que ela tinha ajudado a construir. 

Ela conta como as vivências do próprio slam são diferentes entre a Belo Horizonte e a capital da garoa. Segundo ela, em BH a cena do slam é mais difícil, tudo é mais precário, que os slams tem menos apoio e menos infraestrutura. O Clube da Luta, grupo do qual faz parte, se reúne em uma praça, sem caixa de som ou microfone, que é tudo “na raça”.

Ainda após essas publicações, em 2018, Eliza Castro publicou seu primeiro zine, um livreto auto-publicado em pequena circulação de textos e imagens originais, reproduzidos por xerox, chamado “Imergindo na Poesia Marginal”, que marcou essa fase de descobrimento e ascensão da poeta na cena do slam na periferia. A peça custava apenas R$2,00, as edições eram limitadas e feitas com o maior carinho.

Em 2019, a artista traz um novo zine, chamado “Silêncio também é poesia”, escrito a mão, com poemas mais sensíveis, subjetivos e pessoais que a slammer não costuma dizer em voz alta, por isso a escolha do nome. A publicação enquadra em margens de 1,5 cm a delicadeza e incerteza de uma jovem, mostra em detalhes o valor da imperfeição das linhas com o cuidado do papel costurado a mão. Da importância da pessoalidade de ler, em sua grafia, o que Eliza sente e descobrir quem ela é.

A garota de Belo Horizonte fala com todas as letras “a poesia me levou a lugares inimagináveis”. Em julho de 2018, Eliza foi pela primeira vez a Flip, Festa Literária de Paraty, também para o lançamento de “Antifa”. Segundo ela, também foi a segunda vez que viu o mar, e tudo isso a deixou muito emocionada. No Rio, a menina diz que foi em vários slams pela região e conheceu muitos poetas que combinam com a cidade: também são maravilhosos. 

A poesia transformou a vida de Eliza, mostrou novos horizontes e possibilidades. Mostrou que tem um mundo lá fora que é todo dela, que a garota de 19 anos da voz doce tem pensamentos fortes e merece ser ouvida. Mal sabia Eliza que ela também transforma, a cada dia, o conceito de poesia.