Celso Unzelte, um perfil do jornalista professor, escritor e historiador

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Celso Unzelte, um perfil do jornalista professor, escritor e historiador

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Category : Notícias

Em tempos de queda da literatura, alta das fake news e ataque ao jornalismo e à educação, um jornalista escritor e professor parece uma ótima ideia para uma entrevista e, consequentemente, uma conversa sobre os temas. Formado em jornalismo pela FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado) em 1989, Celso Dario Unzelte é natural de São Paulo capital, criado no bairro do Ipiranga e jornalista de 51 anos. Atual integrante do programa Bate-bola Debate, da ESPN, e do programa Cartão Verde, da TV Cultura, Celso é  bem reconhecido no meio esportivo por suas participações nos programas e, principalmente, por ser um dos historiadores mais importantes do Corinthians, seu clube de coração.

Além dos trabalhos na televisão, o jornalista criou e administra um aplicativo, que também é livro, que reúne quase todas as informações do clube alvinegro, desde as mais básicas, como maiores marcadores, até todos os locais que já jogou. “Desde criança eu perguntava pro meu pai, que falava coisas sobre o Baltazar, que fazia gol de cabeça, eu queria saber quantos gols ele fez, em que jogos, queria mais detalhes e meu pai falava “não tem, nunca vi lugar que tinha relatado isso”, e eu falava que um dia ia escrever esse livro”, comenta o sobre o fato de pesquisar e documentar o time de coração.

Celso Unzelte escreveu dezoito obras ao longo de sua carreira, geralmente sobre futebol e a sociologia do esporte. Ele conta que o livro favorito também é relacionado ao “Timão”: “gostei muito de um que escrevi para a coleção da editora Maquinária, que é uma coleção dos 20 maiores jogos de cada clube […] é um livro que eu gosto muito porque escrevi a história através de personagens. É um avô, um pai e um filho. Eu me inspirei muito no meu pai, que fazia o papel do avô, o pai era eu e, as vezes, eu fazia o filho. E meu filho, Daniel, me inspirei pro neto, fiz muita coisa de ficção, mas era contar a história desses 20 jogos por essa família de três gerações que são corintianas.” Apesar do amor pelo clube, o “professor” (apelido adquirido na ESPN) não trabalha somente com a memória do alvinegro, em parceria com Mário Sérgio Venditti e Paulo Vinícius Coelho, respectivamente, também escreveu os livros Almanaque do Palmeiras, da Editora Abril, e Derby 100 anos – Corinthians e Palmeiras, da Editora Inbook.

Celso Unzelte vestindo o manto alvinegro.

Notoriamente ele tem um grande prazer de ler e escrever livros, inclusive sobre o futebol, porém o jornalista conta que foi a literatura que lhe introduziu ao esporte. “Quando eu era criança queria ser desenhista de HQ, não jogava futebol, não gostava de futebol e foi pelos quadrinhos que cheguei no esporte, o “Almanaque do Zé Carioca”, da editora Abril, falava de tudo do futebol e já que eu não era bom na prática, eu tentei ser na teoria”, alegou aos risos. 

Ademais, ainda conta que as histórias em quadrinhos foram as responsáveis por introduzi-lo ao meio literário: “era o que a gente tinha na época, não tínhamos internet e essa história dos quadrinhos sempre me fascinaram”. Ainda completou sobre o começo na vida literária mais madura graças a uma professora da escola, “com 9, 10 anos na escola, a professora mandou a gente ler “O Ateneu” e pra mim foi um choque, já que era um livro muito sério em relação ao o que eu costumava consumir na época. Acho que foi decisivo ali, eu poderia ter criado uma ojeriza a literatura, ali foi realmente a virada, leio quadrinhos até hoje, mas ali foi quando comecei a ler coisas consideradas mais sérias.”

Celso Unzelte no seu acervo de livros.

A respeito do futuro da literatura, Celso Unzelte se mostrou preocupado com o futuro do meio. “Acho que a leitura não vai morrer, mas tende a diminuir na medida em que você não mostra o valor da leitura para as outras gerações. É um processo que precisaria ter um plano de educação para isso, que, infelizmente, não vejo, vejo até o contrário, um desestímulo que começa até do poder central, desestímulo do conhecimento, uma desimportância do conhecimento, é um momento muito triste da nossa história e eu, sinceramente, não vejo muita perspectiva em relação a isso”, disse o jornalista ao criticar o atual momento de desinteresse por estudo no país. Ainda acrescentou que não é uma situação recente, mas um processo histórico do país: “o nosso presente já é produto do descaso de outros tempos, isso não começou agora, começa quando Portugal nos enxergava como colônia, enquanto já existia faculdades no Peru, na Colômbia, aqui era proibido imprimir. Tem a questão da escravidão, que é uma dívida social antiga, tanto problema envolvendo educação e cultura nesse país, que a gente fica muito desanimado”.

Entretanto, a literatura não é a única coisa que preocupa o “professor”, as suas duas outras profissões também lhe deixam apreensivo. Ao ser perguntado sobre os ataques aos jornalistas e aos professores, Celso comenta que isso lhe aflige:  “é muito triste, tem a ver com aquilo que a gente falou da desvalorização do saber, da leitura, e acho que isso tem que ter um basta. As pessoas têm que parar para pensar mais nesse bem do comum do que em questões ideológicas, senão vai ser o caos”.

Ainda sobre o jornalismo e a alta das fake news, Unzelte crê que a sociedade brasileira foi pega desprevenida com esse fenômeno. “A gente não estava tão preparado para esse fácil acesso à informação que temos hoje. De repente, todo mundo passou a ser criador de conteúdo, todo mundo passou a receber e assimilar conteúdo. Então deu essa confusão na cabeça das pessoas”, disse o professor. Entretanto, ele acredita que, em algum momento, esse meio de propagar mentira na internet vai cair em desuso, “as próprias fake news vão cair em descrédito, a prática não surpreende mais ninguém, as pessoas já sabem, mais ou menos, o que tem cara de fake news ou não. É um processo que demora tempo, mas tá em andamento”.

Em relação a sua carreira no meio, Celso Unzelte coleciona várias experiências bem diferentes e muitos anos de sequência onde trabalhou. Em 2015, após ser promovido para editor da revista Placar, ficou apenas mais três meses e pediu demissão após uma capa com os dizeres “Corinthians 99% campeão” ainda durante o título do campeonato brasileiro. “Aquilo foi só uma gota d’água. Na verdade eu tentei mudar por dentro a estrutura, o jeito de fazer revista, hoje em dia, não é o jeito que eu gosto de fazer”, disse o professor. Ainda completou que a falta de investimento também influenciou na escolha, “eu não quero fazer revista com tanta pouca gente e tão pouco investimento”.

A passagem pela ESPN também é muito marcante. O jornalista fez alguns programas que marcaram época, principalmente o “Loucos por futebol”. Sobre esse programa e a parceria com os apresentadores Marcelo Duarte e Paulo Vinícius Coelho (PVC), Celso disse “o que aconteceu foi que, infelizmente, a ESPN mudou de perfil, não foi só o Loucos por futebol que caiu. Houve uma série de programas que antes fazia, produzia e editava, que ficaram de fora”. Ainda teve a tentativa de manter a ideia em um canal no Youtube, porém isso durou pouco, “A gente tentou fazer o canal e não conseguiu, mas não descartamos, no futuro, fazer alguma coisa relacionada ao programa”, disse ao relembrar com carinho da ideia.

Marcelo Duarte, PVC e Celso Unzelte, respectivamente da esquerda para a direita.

Sobre a situação atual e o futuro do time de coração, ele disse que “daria uma chance pro Carille com um jogador que viesse realmente pra desequilibrar jogando pelo lado de campo e, pelo menos um meia, pelo menos dois jogadores para mudar o time de patamar”. Ao comentar sobre a recente eliminação na Sul Americana, Celso Unzelte ressaltou os méritos da equipe equatoriana: “a gente têm que reconhecer quando o adversário é melhor, hoje o Del Valle é um time mais bem postado que o Corinthians, mostrou isso no jogo de ida em SP, foi uma eliminação inapelável”.

Além disso, o jornalista analisa o momento mais marcante como torcedor, o título de campeão paulista do Corinthians em 1977. “O Corinthians é um raro clube do mundo que é fácil você dizer qual é o principal jogo e o principal gol, o gol do Basílio, por mais que depois tenha sido campeão do mundo, do continente, do Brasil, mas naquela época o nosso mundo era São Paulo, o Corinthians foi campeão do mundo aquele dia, o torcedor se sentiu campeão do mundo, mais até do que se sentiria depois. Aquilo foi uma saga, transcendeu o futebol. Corinthians campeão era um aspecto cultural”, contou ao se recordar da vitória alvinegra sobre a Ponte Preta.

Ao finalizar, Celso Unzelte dá uma dica para quem está começando no jornalismo: “Diferencie-se. Tente fazer algo que contribua, algo que as pessoas não tenham, hoje em dia todo mundo tem Google, ser mais um jornalista disso não acrescenta muito, vamos pensar em alimentá-lo. Faça algo diferente, um trabalho que convença as pessoas a te dar emprego e consumirem o que você faz”. Essa reflexão e conselho pode servir muito para quem está começando e, assim como eu, está um pouco perdido no meio, fuja do comum.