Perfil: Alemanizando o Brasil

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Perfil: Alemanizando o Brasil

Por Valentina Castro

Era o ano de 1984. O muro de Berlim ainda não havia caído, a Alemanha era dividida entre os capitalistas e os socialista e muito mais que uma barreira física, pairava entre alemães uma barreira ideológica. Foi neste contexto que Anna Losso embarcou em uma aventura que mudaria sua vida: viajar até o Brasil em busca de uma mudança em sua vida. Ela buscou uma ascensão profissional e um refúgio de tudo o que estava acontecendo na em seu país, foi em busca de uma unidade, de uma pátria para chamar de sua. 

Logo após se formar no curso de pedagogia ela decidiu que era hora de arriscar. Com uma simples bagagem de mão ela atravessou o oceano atlântico e chegou em São Paulo.  As possibilidades eram três, e ela escolheu a mais arriscada. Anna buscava em anúncios do jornal um trabalho. Ela se interessou por um em que era ofertado a possibilidade de trabalhar como babá em outro continente, no Brasil.  Sem o domínio do português e com pouco conhecimento da cultura, Anna decidiu ser babá de crianças alemãs em um condomínio fechado. Quando ela pisou no Brasil, ela diz que o clima era “quente que nem um banho quente em um dia de calor extremo”. O que diziam a ela na Alemanha era que no Brasil só veria macacos na rua, uma abundância de frutas e que em frente ao quintal haveria uma floresta tropical.  

Anna chegou no final de julho e trabalho um mês como babá. Foi despedida e ficou sem rumo. Mas algo dentro dela dizia para ficar, dizia que era no Brasil que a vida dela deveria continuar. Anna não desistiu, e quando a sua patroa mandou o caseiro da casa levá-la ao aeroporto, ela recusou, disse para deixá-la na rodoviária. Antes de embarcar nesta aventura, ela tinha descoberto que tinha um tio que morava no interior de São Paulo, em Rio Claro. Anna não o conhecia, buscou o sobrenome dele na lista telefônica e apareceu na porta da casa, com uma mala e muita vontade de ficar. Permaneceu até o começo de setembro, quando voltou a São Paulo para dar aulas no colégio alemão Porto Seguro. 

A vida não foi fácil no começo, em nenhum é, ainda mais estando no desconhecido, sem poder se comunicar fluentemente ou sem ter o apoio da familia. Anna desafiou o padrão. Ela morou em uma república enquanto era substituta das aulas de alemão no colégio. Queria aprender e a cada dia descobria uma nova versão sua. Após seis meses teve que sair do país, pois seu visto havia expirado. Decidiu pegar um trem rumo à Corumbá, na fronteira com a Bolívia. Foram cinco incansáveis dias, na precariedade, dormindo mal todos os dias. Mas a vontade era maior. O visto era a necessidade, mas conhecer o novo era o desejo. Chegou a La Paz, se instalou em um hotel e foi conhecer a cidade. O destino novamente colocou uma pedra em seu caminho. Ao voltar de um tour não encontrou suas coisas e viu que tinha sido roubada. Pegaram tudo de Anna, passaporte, roupas e dinheiro. Ficou presa no país por 2 meses, até conseguir um novo passaporte. Sobreviveu com a ajuda de turistas e locais. A sorte podia ter virado, mas a vontade de residir no Brasil, onde o estado do Mato Grosso do Sul tem o mesmo tamanho que todo o território alemão, era maior. Ao final desta aventura ela conclui que foi uma boa experiência, e recordando esses momentos coloca um sorriso em seu rosto. O tão sofrido visto veio e ela pode permanecer mais um pouco no Brasil. 

Anna, depois de sua passagem pela Bolívia, se instalou em Piracicaba, uma cidade também localizada no interior paulista. Ao colocar um anuncio no jornal oferecendo aulas particulares de alemão, conheceu seu marido, com quem teve três filhas e com quem segue junto até hoje. Na cidade ela dá aulas há mais de dez anos em uma escola alemã com a pedagogia Waldorf, que procura procura integrar de maneira holística o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico dos alunos. Holística também se define Anna. Não acredita em mera coincidência e crê que foi o destino quem colocou ela nesta vida de professora. 

Anna Losso

A vida de Anna Losso é baseada em acordar todos os dias cedo para trilhar o rumo de pequenos seres que um dia serão importantes para a sociedade. Ela não mudaria suas escolhas e não se vê fazendo outra coisa. Já tentou ser artista, faxineira, babá, mas ser professora motiva seu ser interno. Ver o brilho nos olhos das crianças, que como ela cita “ainda são ingênuas para o mundo lá fora, querem aprender, e devemos mostrar um alternativa com um propósito de vida”, não tem preço, muito menos salário que pague. 

Sua paixão pela filosofia da escola é colocada em prática quando Anna ministra suas aulas. Além de ser fascinada pela sua profissão, ela é fascinada pela proposta da escola, com a qual ela luta e defende. No meio do caos todo que a sociedade é envolvida, Anna enxerga um refúgio ao ensinar alemão e mostrar um pouco de sua cultura natal. 

As saudades de seu país se resumem a momentos em que viveu nas paisagens alemãs, nas florestas e bosques de lá. A poesia que lia e a cultura que todos os dias inspirava onde vivia. A liberdade também é um tema para Anna Losso, na Alemanha era simples andar pelas ruas, pegar um trem e chegar à outro país. No Brasil isso quase não existe, mas nem por isso Anna quis voltar.

Muitas vezes é questionada sobre sobre o nazismo, se ela é contra judeus e o que acha deste momento sombrio vivido pelos alemães. Suas respostas são claras e sinceras: ela é contra o nazismo e suas semelhanças e cita o período em que ocorreu como um momento sombrio, que não deve ser esquecido para não se repetir no futuro. Fora isso nunca sentiu preconceito em solo brasileiro, pelo contrário, se sente como parte dos mais de 200 milhões de pessoas que aqui vivem. No inverso do que ela vive muitos são os brasileiros e estrangeiros que sofrem em solo alemão e batalham diariamente contra o xenofobismo. A onda de imigrações vista de árabes, africanos e sulamericanos à Alemanha nos últimos anos, reacendeu o debate sobre as políticas migratórias e foram inúmeros os casos de preconceito sofrido pelos imigrantes.

Anna Losso é um peixe fora do aquário. São muitos os brasileiros que buscam uma nova vida na Alemanha, querem sair da dificuldade de não achar um emprego. É raro se deparar com o caminho oposto dele, uma alemã vivendo no Brasil. Mas não é uma simples alemã, é uma alemã que tem fascínio por onde vive. Embora as perspectivas de vida em um país europeu sejam melhores, a qualidade de vida tenha um dos melhores rankings, segurança e políticas públicas funcionem, foi no Brasil que Anna quis permanecer. Ela nos ensina que quando temos um objetivo de vida, quando temos paixão pelo que fazemos não há território ou cultura que sejam erradas. Hoje o muro de Berlim caiu, o mundo se abriu e vemos a cada dia mais a união de culturas, que formam nossa nação.