17.700 km, a relação entre uma professora e um país do outro lado do mundo

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17.700 km, a relação entre uma professora e um país do outro lado do mundo

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Category : Notícias

Era um sábado de manhã, meu pai foi me acordar para eu ir à aula de mandarim. Como todo sábado acordei, escovei os dentes, vesti uma roupa e olhei no relógio, já eram 9:00, estava atrasada.

Em 15 minutos consegui chegar no curso, sentei na minha cadeira e nas três horas seguintes meu cérebro tentava raciocinar em chinês. Hedan  que é minha professora, nos fazia perguntas exigindo respostas (que meu cérebro demorou muito para pensar).

Assim que acabou a aula fui falar com ela, pois na semana anterior eu havia falado que queria fazer entrevistá-la.

Hedan  é uma chinesa que há quatro anos vive no Brasil, dando aulas de mandarim no Instituto Confúcio da Unesp, convênio criado em 2008 entre a universidade estadual e o governo Popular da China. 

Hedan, minha professora de chinês

O personagem dessa reportagem nasceu no dia 23 de janeiro de 1993, em Wuhan na China, cerca de 17.700 km de distância de São Paulo.

Filha mais velha de uma família de …, entrou na universidade de Hubei no curso de … No final desse período, Hedan se viu apaixonada pelo país e pela cultura e decidiu permanecer aqui, já faz quatro anos que ela virou professora e não pensa em voltar para a China

Existe um programa para que alunos recém formados pela universidade de Hubei possam dar aula aqui no Brasil. Após se formar em seu curso, uma amiga de Hedan que fazia parte do departamento de ensino para estrangeiros, a incentivou a participar do programa do Instituto Confúcio. Após passar na prova e ser convidada a vir dar aula, ela pensou em só ficar um ano para poder ter uma experiência e ver como era a cultura.

Cidade de Wuhan, província de Hubei Reprodução: Youlin Magazine

O personagem dessa reportagem nasceu em Hubei, importante província no meio da China. Nasceu no dia 29 de janeiro de 1993, é a filha mais velha de uma família e morava com seus pais e sua irmã. 

Existe um programa para que alunos recém formados pela universidade de Hubei possam dar aula aqui no Brasil. Após se formar em seu curso, uma amiga de Hedan que fazia parte do departamento de ensino para estrangeiros, a incentivou a participar do programa do Instituto Confúcio. Após passar na prova e ser convidada a vir dar aula, ela pensou em só ficar um ano para poder ter uma experiência e ver como era a cultura.

No final desse período, Hedan se viu apaixonada pelo país e pela cultura e decidiu permanecer aqui, já faz quatro anos que ela virou professora.

Ao ser perguntada sobre como era dar aula no instituto, ela me respondeu que o mesmo é responsável por difundir a cultura chinesa, através de eventos como Festival da Lanterna e a Mostra de Cinema Chinês, contudo para ela a melhor parte é ficar com os alunos e conversar com eles.

Instituto Confúcio, local que Hedan trabalha Reprodução: China Vistos

Ela continua dizendo que como ela e os alunos são de culturas diferentes, sempre existem coisas interessantes, “ tem vontade para saber mais coisas, coisas novas” disse.

Como dito acima, o Instituto Confúcio é responsável por diversos eventos para promover a cultura chinesa, quando eu fiz a entrevista com Hedan, no dia anterior havia sido comemorado o Festival da Lua, por ser considerado a segunda data festiva mais importante, atrás apenas  do ano novo chinês. Ao comemorar a festividade são realizados alguns costumes entre eles, reunir a família, fazer um sacrifício para a lua, brincar com as lanternas e comer o bolo da lua. Por conta disso decidi perguntar quais datas festivas ela acha que seriam interessantes comemorar aqui no Brasil, ela me disse que o Festival do Dragão e o da Lua seriam os melhores para apresentar os costumes chinês.

Hedan ressaltou o fato de haverem certos preconceitos em relação à China, uma vez que como os dois países ficam muito longe é muito difícil conhecer realmente a cultura e os costumes. Ela ressalta a importância desses eventos e da difusão da cultura chinesa, pois no Brasil, principalmente em São paulo existem muitos descendentes de chineses, “ é bom para eles conhecerem a cultura dos pais e familiares” acrescenta.

Nosso próximo assunto foi sobre o aumento de pessoas interessadas em aprender língua chinesa, quando ela começou a me responder dois alunos chineses que estão na minha sala entraram para perguntar  algo para ela. Os três começaram a conversar em mandarim e eu fiquei muito perdida, quando fui escutar a entrevista continuei não entendendo, acho que talvez eles estavam falando sobre comida. 

Ao recomeçarmos nossa conversa ela enfatizou a cooperação China-Brasil,que cada vez mais empresas chinesas estão em território brasileiro,  o que gera mais oportunidades caso a pessoa saiba mandarim. Inclusive tenho uma amiga que faz aula comigo, que foi contratada pela empresa de celular Huawei, que recentemente começou suas atividades aqui em São Paulo.

Nessa parte da entrevista decidi fazer uma série de perguntas para saber os pontos de vistas da Hedan. 

Primeiramente eu quis saber qual sua opinião sobre o atual governo brasileiro, ela começou me dizendo que o governo do Brasil é bem diferente do da China. Para ela um governo de quatro anos possui vantagens e desvantagens, se um partido não for bom, é necessário ficar o período completo, ela termina  falando que por ser estrangeira não possui realmente poder para falar desse assunto, uma vez que a sua concepção foi feita a partir dos pontos de vista dos alunos. 

Nosso segundo tema foi referente a uma conversa que tivemos sobre a comunidade LGBT, há duas semanas uma aluna da minha sala disse que ouviu dizer que uma autora foi presa por escrever um livro em que o casal principal é homossexual. Nesse dia Hedan disse que isso era mentira e inclusive nos recomendo um c-drama ( programas de televisão, semelhantes a séries americanas, porém, normalmente só possuem uma temporada) no qual o casal principal era gay, contudo em momento algum há contato físico entre eles. Perguntei se quando ela veio pro Brasil ela teve um choque cultural pois aqui temos representações de casais do mesmo sexo no TV. Ela me disse que atualmente na China, os jovens estão mais acostumados com relações homoafetivas em relação às pessoas mais velhas.

O nosso terceiro tema foi C-pop, que no caso adoro muito. Ao ser abordada sobre o que ela achava do aumento de pessoas escutando esse gênero de música, ela me disse que não conhece muito, mas que acha que é uma tendência entre os jovens. Ela ressaltou o fato dos  cantores serem jovens e bonitos, o que para ela faz com que eles sejam populares.

Em cima Cai Xukun, embaixo Kris Wu e na direita Zhang Lay Reprodução: Jayne Star, Bandsintown e Pinterest

Mudando totalmente os assunto, perguntei sobre algo atual que é o conflito com Hong Kong e a política de uma só China. Hedan começou a me falar que aqui no Brasil existem manifestações, e que ela acha isso totalmente aceitável, porém, em Hong Kong eles estão destruindo a cidade, incluindo as estações de metrô e a cidade, ela ainda acrescenta que eles influenciam muito a vida dos outros habitantes. 

Protesto em Hong Kong 26 de julho Reprodução: Quartz

O último tópico que comentamos foi sobre o que ela mais sentia falta. Era natural que ela falasse família ou amigos, só que ela me disse comida. Admito que fiquei chocada uma vez que na área da Liberdade principalmente existem tantos restaurantes que é difícil de numerar.

Com o final dessa entrevista percebi que não sei nada da China, leio matérias, vejo notícias mas realmente tenho uma visão de fora. Que Hedan ou como eu a chamo Laoshi não é tão diferente de mim, atualmente estou no meu quarto semestre do mandarim e acredito que nunca tive uma professora que consegui me relacionar tão bem, além de  gostarmos de gastar dinheiro com roupas e comidas, adoramos dançar. Inclusive a primeira vez que falei com ela foi nos ensaios para uma apresentação de dança tradicional chinesa. Ao surgir a necessidade de entrevistar alguém, achei que Hedan não aceitaria o meu pedido, afinal de contas normalmente as pessoas não gostam de dar entrevistas para estudantes de jornalismo. Contudo quando mandei mensagem ela se mostrou super disposta, durante a nossa conversa ela respondeu todas as minhas perguntas. 

Nem sempre é necessário uma pessoa da mesma cultura e background que você para te entender e te ajudar nos momentos de necessidade. Uma pessoa de Hubei, 17.700 km de distância de São Paulo pode mudar sua vida.