A metamorfose da arte na atualidade

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A metamorfose da arte na atualidade

Category : Notícias

Políticas de mediação cultural possibilitam interação à distância

Por Georgia Barcarolo

Gato gigante, de Nina Pandolfo. Fonte: Internet

Antes mesmo de entrar no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP), é difícil passar reto pelo gato gigante que, com ar de soberba e olhar sereno, instiga o público. A reação dos visitantes é um susto seguido de choque; alguns se perguntam se é permitido toca no felino, enquanto não desgrudam os olhos do animal. Ao lado, uma placa convida o público a passar a mão em sua pelugem e, uma vez feito isso, o gato reage: respira, ronrona, ganha vida.

A obra de mais de três metros da artista paulista Nina Pandolfo ilustra bem o rumo da arte nos últimos anos. Se antes as artes plásticas eram um privilégio de poucos e, quase que como uma lei social, só podiam ser apreciadas pelo alto escalão, hoje um dos conceitos da vertente contemporânea é a interação com o público. Do happening [improvisação que conta com a ajuda do espectador] ao ready-made [manifestação que eleva objetos banais à categoria de obra de arte], a arte contemporânea se vale da conexão com o receptor para ser arte de fato. O encontro entre Arte e Público é uma de suas principais características. Seja em qualquer linguagem ou meio, seu propósito é promover uma aproximação que produza significados para o público, que agora participa da proposta do artista.

Entretanto, mesmo com o crescente fluxo de visitação dos museus brasileiros nos últimos anos devido a exposições de grande porte – de 2014 a 2016, mais de 1 milhão de pessoas transitaram entre a Pinacoteca, MASP, Instituto Tomie Ohtake e MIS –, não é de hoje que se nota o distanciamento de grande parte da população e das artes, principalmente as artes do século XX, que desconstroem a imagem em um conceito.

Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-SP). Fonte: Internet

Para se contrapor às adversidades, políticas socioculturais foram introduzidas como aparatos de mediação cultural, as quais por meio de ações comunitárias, na vida cotidiana ou na simples introdução da disciplina de arte no currículo escolar, potencializam a experiência entre arte/cultura e público e estimulam o diálogo entre ambos.

Como forma de contornar essa tendência, o MASP decidiu inovar entre os museus brasileiros: desde março de 2017, o museu integrou a lista de instituições que fazem parte da plataforma Google Arts&Culture, como parte da política de mediação cultural do museu, que também conta com palestras abertas ao público, cursos e seminários. Assim como o Museu d’Orsay, de Paris, e o British Museum, o MASP tem uma interface que permite o passeio de internautas por alguns de seus corredores e exposições em realidade virtual.

O objetivo do museu, que disponibilizou mais de 1000 obras de seu acervo em alta qualidade de digitalização e zoom, foi de que pessoas do país inteiro pudessem aproveitar o acervo. Como resultado, pode-se apreciar sem sair de casa e ter maior interação com a arte; à medida em que se ganha maior visibilidade, sua publicidade atinge mais indivíduos e gera mais fluxo à instituição.

“É interessante como um único objeto suscita vários tipos de discussão e reflexão. Esse é o nosso papel [como mediador cultural]. Como o próprio nome sugere, a mediação constrói uma ponte entre o público e o acervo e colocamos o visitante como protagonista”, destaca o historiador e mediador cultural Rafael Pereira Santos. “A mediação reconhece a existência do conflito, mas procura possibilitar os diálogos para aproximar esses dois lados, estimulando um relacionamento amistoso e interativo.”

O uso da plataforma é considerado um grande passo na colaboração entre tecnologia e museus: com a popularização da internet e o hábito cada vez maior de compartilhamento, os museus apresentaram uma queda significativa em número de visitantes. A ferramenta dará oportunidade aos interessados por arte adquirirem incentivo para visitar as obras do acervo – o que auxiliará o uso de plataformas com o mesmo intuito para outras instituições.