Massacre em Suzano: vivemos num mundo doente ou violento por natureza?

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Por Liana Ruiz

A música “Índios”, de Renato Russo, não poderia ter sido mais atual. “Mas nos deram espelhos, e vimos um mundo doente” retrata de forma poética o massacre ocorrido em Suzano, onde dois rapazes mataram brutalmente sete pessoas em uma escola pública tradicional da cidade e o dono de uma locadora de veículos.

No dia 13 de março de 2019, Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos, entraram no colégio Raul Brasil por volta das 9h40 e, usando uma arma calibre 38 e outros tipos de armas brancas, atiraram contra alunos e funcionários ali presentes, deixando sete mortos no local. Entre eles, a coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Umezu, a agente de organização escolar Eliana Regina de Oliveira Xavier e mais 5 estudantes do ensino médio. Além disso, pouco antes do massacre, os rapazes dirigiram até uma loja de automóveis e mataram Jorge Antonio de Moraes, tio do assassino mais jovem.

Homenagem as vítimas do massacre Foto: divulgação Twitter

O crime cometido deixou feridas que somente o tempo poderá curar e cicatrizes que ficarão marcadas para sempre na vida daquelas pessoas. Entretanto, casos como este podem despertar nas pessoas um ato reflexão e servir para reivindicar mudanças daquilo que não está sendo benéfico para a sociedade.

Uma das questões que vieram à tona, após o ocorrido em Suzano, foi o porte de armas. No Brasil, desde 2003, vigora uma lei federal, conhecida como Estatuto do Desarmamento (Lei 10.826/03), que tem por objetivo reduzir a circulação de armas e estabelecer penas rigorosas para crimes como o porte ilegal e o contrabando. Todavia, o que se pode observar é que o estatuto não foi suficiente para de fato diminuir a violência e o número de mortes por armas de fogo. Uma pesquisa feita pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Aplicada Econômica) em conjunto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada pelo portal de notícias do G1, mostrou que a taxa de homicídios, apesar de ter reduzido após a promulgação da lei do desarmamento, voltou a crescer desde 2007.

Gráfico divulgado pelo portal de notícias do G1

Segundo Antonio Sousa de Conceição Mendes, advogado nas áreas trabalhista, criminal e civil desde 1997, o Estatuto o Desarmamento pode ter reduzido os crimes de homicídios praticados com o emprego de armas de fogo, mas não conseguiu diminuir o índice de violência, como roubos e latrocínios. Para ele, o problema não está no código penal brasileiro, mas sim no cumprimento das penas. “O código penal aperfeiçoou-se ao longo dos anos, adequando-se ao surgimento de novos tipos penais, enquanto que a execução das penas torna-se cada vez menos eficaz”, diz o advogado.

Além disso, Antônio defende que o governo deveria usar o tempo de reclusão do detentos para reabilitá-los a viver em sociedade, proporcionando-lhes educação e/ou trabalho. “Poucos são os estabelecimentos penais que contam com a possibilidade de os presos trabalharem e/ou estudarem. Penso que o Estado deveria usar esse tempo dos presos para tentar mudar suas vidas, porque a grande maioria não tem uma profissão e o grau de educação é mínimo”, argumenta Sousa.

Outro tópico que gerou debate nos meios de comunicação, nas redes sociais e entre a população, foi até que ponto a tecnologia e os videogames violentos exercem um papel decisivo no desenvolvimento de comportamentos agressivos. De acordo com o psiquiatra, Francisco Carlos Ruiz, não existe uma relação entre tecnologia e violência na qual os videogames violentos sejam um fator relevante nos atos criminosos como o que ocorreu na escola Raul Brasil. Para ele, atos violentos, em sua maioria, são consequência de distúrbios mentais e que o foco da discussão deve ser em como ampliar serviços de saúde mental comunitários para prevenir que casos como este ocorram novamente. “Culpar os videogames pela violência me parece uma atitude moralista e que não ajuda a entender o fenômeno das agressões”, acrescenta o psiquiatra que tem 33 anos de experiência profissional.

Ele ainda menciona casos como o da creche em Janaúba (MG), em que o vigia colocou fogo no estabelecimento, e do atirador em Realengo (RJ), que matou 12 alunos de uma escola municipal, sendo fruto de um surto psicótico, sem relação direta com um comportamento vigente na sociedade. Para Francisco, o massacre em Suzano indica que eram dois jovens com transtornos de personalidade, que tinham plena consciência dos seus atos. “Nesse caso, a relação dos crimes com comportamentos da sociedade se torna mais próximo, mas ainda assim é difícil estabelecer uma relação clara de causa e efeito”, diz o profissional.

Já para o advogado Antonio Sousa, o ocorrido no começo de março deste ano, pode ser sim uma consequência da cultura da violência disseminada por filmes, games, fanatismo, discriminação, drogas e entre outras coisas. “É evidente que se houvesse um policial na porta das escolas, que as rondas escolares não fossem desviadas de sua finalidade, o caso de Suzano poderia não ter ocorrido, mas o alvo dos ataques poderia ter sido outro”, reflete Antonio.

Distúrbios Mentais Foto: shutterstock.com

Outra questão levantada por Francisco Carlos Ruiz, se refere a impunidade existente no país. Segundo ele, há uma tolerância maior em relação a violência no âmbito familiar, escolar, judicial, além de uma “impunidade no cenário político nacional, criando a impressão para toda a sociedade, e também para os jovens, de que não há justiça e um verdadeiro Estado de Direito no país”.

Coincidentemente ou não, dois dias após o massacre na escola Raul Brasil, um atirador entrou em duas mesquitas na Nova Zelândia, Masjid Al Noor e Linwood na cidade de Christchurch, matando 49 pessoas e deixando 48 feridas. O assassino, com uma câmera instalada em um capacete, transmitiu toda ação ao vivo pelo Facebook, mostrando seu ataque contra homens, mulheres e crianças enquanto caminhava.

Infelizmente mesmo o país sendo conhecido como um dos mais seguros do mundo, ficando atrás somente da Islândia no ranking mundial de segurança, não conseguiu ficar isento do terrorismo, da violência, da crueldade e da intolerância. A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, em pronunciamento na manhã seguinte ao massacre, sábado dia 16, anunciou que as leis que regulam o porte de armas serão alteradas e que uma das mudanças será o banimento do uso de armas semiautomáticas. “Agora é hora de mudar”, declarou Jacinda. Além disso, a primeira-ministra deixou claro que irá rejeitar qualquer tipo de ação e ideologia violenta e não permitirá que o ocorrido mude o perfil do país. “Esse é um lugar onde as pessoas devem se sentir seguras e vão se sentir seguras”, anunciou Ardern.


Jacinda Ardern durante entrevista coletiva Foto: REUTERS TV / REUTERS

Casos como o de Suzano, da Nova Zelândia e entre muitos outros parecidos, infelizmente continuarão ocorrendo se não houver mudanças e reflexão sobre o assunto. Sensacionalizar o problema não irá resolvê-lo e pode até mesmo banaliza-lo. A mídia exerce um papel importantíssimo no combate a injustiça, violência, corrupção e entre muitas outras coisas, mas para que isso ocorra ela deve noticiar com mais responsabilidade e comprometimento. A sociedade tem mudado muito no quesito comportamento e tolerância, o que pode ser um fator que propicie cada vez mais o desenvolvimento de distúrbios mentais. Esses acontecimentos devem servir de propulsores para uma profunda transformação na dinâmica coletiva global.



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