Deep Web: como as más influências incitam o ódio

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Por Henrique Soto e Victor Félix

A Internet foi uma das maiores invenções do homem. Graças a ela, somos capazes de obter qualquer informação em um piscar de olhos. É possível saber de algo que está acontecendo do outro lado do mundo instantaneamente. Além disso, podemos nos conectar e interagir com qualquer pessoa ao redor do mundo. Com a Internet, os conceitos de distância e de fronteira foram redefinidos. Porém, a Internet não tem apenas o lado bom, com inúmeras utilidades, como plataforma de pesquisa, interação e de informação. Ela possui também um lado “obscuro”, que contém diversos tipos de conteúdos, legais ou não, lícitos ou ilícitos. Essa face desconhecida da Internet é o que chamamos de deep web.

Em conversa, o professor Diogo Ortiz, do departamento de Engenharia da Computação na PUC-SP esclarece o que é e como funciona essa camada sombria da web. Ele explica que a EFF, Eletronic Frontier Foundation, uma fundação para tecnologias livres, desenvolveu uma versão do navegador Tor para que os jornalistas pudessem usar. Para embaralhar o IP (Internet Protocol – é um número que identifica um dispositivo em uma rede) e não permitir o rastreamento de informações. E com isso, surgiram vários sites hospedados na deep web, coisas tanto para o bem quanto para o mal. Diogo fala dos conteúdos que podemos encontrar lá e a liberdade que alguns sentem para se expressar. “Na deep web você encontra de tudo. Bons conteúdos em desenvolvimento, e também coisas ruins, como armas, drogas e serviços ilícitos, como produtos de pornografia – principalmente ligado à questão de pedofilia. Também dos recentes fóruns que surgiram, onde é ainda mais difícil identificar o IP, fazendo com que o usuário se sinta ainda mais à vontade para expor todo o seu pior lado”, explica.

Propagar ódio às minorias e planejar ataques são pautas corriqueiras em certos fóruns. Essas pessoas se sentem “seguras” até certo ponto porque conhecem a complexidade de identificação. O professor diz sobre o obstáculo que há para controlar o conteúdo da deep web, que se prende muito mais ao quesito técnico do que judicial. “As leis que se aplicam para a web normal também se aplicam para a deep web. O problema não é mais uma questão jurídica, e sim técnica. Quando eu me sinto ofendido por uma ofensa no Facebook, eu posso pedir judicialmente que o Facebook derrube aquela página. Na deep web, como há esse embaralhamento de IP, é muito mais difícil para as autoridades conseguirem localizar os responsáveis, e isso dificulta qualquer ação de derrubada.”

Por fim, Diogo fala que os jovens que cometeram o massacre em Suzano em março de 2019 participavam de um fórum dentro da deep web, assim como qualquer outro atentado ter sido planejado dentro dela. No entanto, são as pessoas que dão o mau uso dessa ferramenta, não o contrário. “A gente tem que entender a web, e mesmo a deep web, como uma ferramenta. Não é ela que faz o mal, são as pessoas que vão lá e dão algum tipo de uso para o mal. O problema são como as pessoas estão se comportando.”

A obscura camada da Internet, a Deep Web. Fonte: Internet

E isso tudo traz a tona vários questionamentos: em que medida as coisas que vemos na internet nos influenciam, afetam nossa mente e nosso psicológico? Como controlar isso?

Nossa identidade é formada, acima de tudo, pelo meio no qual vivemos. Hoje, no mundo globalizado e tecnológico, somos bombardeados por informações o tempo todo, principalmente nas redes sociais,. Isso faz com que as pessoas sofram influências dos mais diversos tipos em um curto período de tempo. A ideia de um mundo perfeito, onde todos vivem uma vida perfeita e alegre, recheada de bens materiais – é constantemente propagada na grande mídia. E este sonho de uma vida bem-sucedida acaba influenciando as pessoas, criando uma enorme pressão psicológica nos indivíduos: a busca incessante por se realizar financeiramente, por ser feliz, por ter tudo do bom e do melhor. Mas, quando as pessoas não conseguem o que querem, elas começam a pensar: o que eu fiz de errado? Será que não sou bom o suficiente? Devo desistir?

Em entrevista, a psicóloga especialista em saúde mental Gisa Aquino, reflete um pouco sobre a questão. “Culturalmente no Brasil, sofremos a influência forte da cultura americana. Parte disso, através das redes sociais que expandem vorazmente o ‘American Way of Life’. Evidentemente,  diante de olhares voltados às comparações para às quais somos convocados à cada olhada na rede, nos questionamos: Como nos realizarmos? Como sermos nós mesmos se diante de nós apresenta-se o mundo do belo, perfeito, rico e bem sucedido? No aspecto negativo, individualismo, competitividade e solidão são comportamentos observados. Uma saída para pessoas de personalidades e histórias de vida mais devastadas seria a violência”, afirma Gisa.

Ela também fala um pouco sobre os jovens brasileiros, faixa etária mais afetada por doenças mentais. “Doenças Mentais que afetam o narcisismo são hoje mais comuns. Estatísticas apontam que 80% da população infanto-juvenil no Brasil sofre de alguma doença mental e, o que é ainda mais grave, estão sem tratamento. Se quisermos mudar a vida de jovens brasileiros, precisamos investir em saúde pública, dando voz aos jovens que se formam através de ‘contos de fada’, expostos nas redes sociais”, completa Gisa.

No que se refere à deep web, Gisa comenta que uma mistura de sentimentos de ódio e impotência, somados à “liberdade” e ao anonimato que a deep web oferece aos seus usuários, acabam influenciando o psicológico de pessoas com doenças mentais e com problemas de autoestima e depressão, facilitando a ocorrência de massacres como o de Suzano. “Segundo Freud em seu texto o Mal Estar na Civilização: ‘Em circunstâncias favoráveis,  quando foram suprimidas as forças psíquicas contrárias que usualmente inibem a agressividade,  ela também se expressa de modo espontâneo e, revela o homem como uma besta selvagem à qual desconhece a própria espécie’. Ora, na deep web, o sujeito é portador de voz e desejos, além de poder ser acolhido por seus iguais. Neste contexto, para os doentes mentais, o que reina é o desejo de agressividade e vingança, numa tentativa  de destruir na sociedade (civilização) o mal estar causado por ela mesma. A onda de ódio e violência é cíclica, causada por uma excitação constante do poder e uma constatação na mesma medida de impotência. O resultado é frustração, exclusão e mais violência”, reflete Gisa.

Doenças mentais, depressão e bullying são assuntos que devem sempre estar em pauta, serem discutidos a todo o momento na grande mídia. É preciso incentivar o tratamento das pessoas que sofrem com isso todos os dias, insistindo que procurem ajuda de familiares e profissionais. Sobre isso, Gisa reitera que estes assuntos devem ser discutidos sempre, e não só depois que tragédias e massacres acontecem, como o caso de Suzano. “Tomara que possamos trazer a doença mental das ‘sombras’ para a ‘luz’ e que seja assunto sempre, não apenas após tragédias dessa magnitude”, termina Gisa.

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