A infinita crise da educação no governo Bolsonaro

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por Gabriel Elias e Guilherme Tedesco

Todo governo recém-eleito deve decidir prioridades e planos para o mandato. Tratando-se de um governo federal, são várias as responsabilidades em setores como saúde, segurança, e educação. Desde a época de campanha, Jair Bolsonaro não demonstrava a preocupação devida com o ramo educacional, optando sempre pelo discurso de lutar pelo “fim da ideologia esquerdista” nas instituições de ensino. Após pouco mais de três meses de mandato, o despreparo e a falta de sensibilidade dos envolvidos no Ministério da Educação ficam evidentes.

Enquanto o governo Bolsonaro vivia seus primeiros momentos, a demissão do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, já parecia iminente. Um desligamento de um cargo desse tamanho soaria incomum na maioria das vezes, mas, nesse caso, inúmeras atitudes – e a falta delas – estavam levando a esse caminho.

A polêmica já começa no momento da nomeação do ex-ministro. O colombiano foi indicado pelo guru intelectual do governo Bolsonaro, o “filósofo” Olavo de Carvalho, ainda em 2018, por ser mais um dos pensadores que são anticomunistas. Assim como o Presidente, os dois são aderentes à linha pensamento antimarxista, que vem ganhando muita força no Brasil.

Ricardo Vélez Rodríguez, ex-Ministro da Educação. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Recentemente, Vélez fez uma declaração que gerou muita revolta e críticas a ele e sua visão histórica. O ex-ministro expressou sua intenção em alterar os materiais didáticos de História para realinhar os acontecimentos sociais, de golpe civil-militar em 1964 para revolução democrática. Além dessa, outras visões do ministro foram questionadas, desde a Escola sem Partido até a manifestação contra a “globalização politicamente correta”.

O desgaste de Vélez ficou evidente após ele visitar a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados no último dia 28, para esclarecer vários assuntos polêmicos envolvendo o MEC. Na ocasião, a deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP) questionou-o inúmeras vezes sobre projetos básicos para a educação, e não obteve nenhuma resposta desejada. As colocações da deputada viralizaram, prejudicando ainda mais a imagem do Ministro.


Por mais que Vélez estivesse exercendo o seu trabalho de Ministro da Educação, a pasta já sofria com demissões nos dias anteriores. No último dia 4, o assessor especial do colombiano, Bruno Garschagen, foi dispensado do cargo, assim como a chefe de gabinete do MEC, Josie de Jesus. Estes eram considerados os principais auxiliares e defensores de Vélez.

Num encontro com jornalistas, o presidente Jair Bolsonaro declarou que a definição do futuro de Ricardo Vélez Rodríguez aconteceria na última segunda-feira, dia 8. “Segunda-feira é do dia do ‘fico’ ou do ‘não fico’”, disse Bolsonaro. E não ficou.

No dia 8 pela manhã, foi anunciada a demissão do então Ministro da Educação, Ricardo Vélez. No mesmo momento foi anunciado o novo titular do cargo, o professor universitário Abraham Weintraub, mais um aderente da linha antimarxista.

Em uma entrevista recente para o Estado de S. Paulo, Abraham Weintraub gerou polêmica. Ao afirmar que a estratégia de impedir a volta do PT ao poder passa pela Educação, ele disse que “uma pessoa que sabe ler e escrever e tem acesso à internet não vota no PT”. Além disso, o novo ministro falou que a ditadura militar foi um movimento contrarrevolucionário: “Evidentemente que houve ruptura em 1964. Mas essa ruptura foi dentro de regras”.

Abraham Weintraub, atual Ministro da Educação. (Foto: Divulgação)

O despreparo do governo Bolsonaro, porém, vai muito além do cargo de ministro. O próprio Presidente já fez declarações preocupantes sobre o futuro do ministério. Uma delas foi em relação à “Lava-Jato da Educação”, que tem como finalidade, de acordo com ele mesmo, “investigar as prioridades a serem ensinadas e os recursos aplicados”, e tem atuação dos Ministérios da Educação e da Justiça, além da Polícia Federal, da Advocacia e Controladoria Geral da União.

Jair Bolsonaro, presidente da República. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Além disso, Jair Bolsonaro afirmou que o custo com educação está muito elevado em relação ao PIB comparando com a média dos países desenvolvidos. Entretanto, o Brasil está em 79º lugar no ranking de IDH de 2018. Isso indica que o país está na faixa dos países com médio desenvolvimento humano, e requer melhores investimentos no setor.

Depois de toda essa crise na instituição máxima de educação do país, o que se espera por parte do Governo Federal é uma atenção maior para o MEC, e que os erros tornem-se lições. O mandato está apenas no começo, e existe um grande tempo para corrigir imperfeições.

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