“Na minha época de adolescente, até OB era tabu”, Samara Monzem. Como as atletas lidam com o ciclo menstrual

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Por Dora Scobar, Gabriela Gaspar e Lara Guzzardi


Fonte: divulgação

A história das mulheres esportistas no Brasil foi e ainda é uma luta lenta e gradual. Enquanto a primeira partida oficial de futebol feminino foi disputada em 1885 na Inglaterra, segundo a FIFA, no Brasil, foi apenas em 1921. Oito anos antes, foi realizado um evento beneficente, que foi considerado o primeiro jogo oficial por muitos anos, até descobrirem que a até então partida feminina tinha jogadores vestidos de mulher infiltrados.

Não obstante, a prática do esporte mais famoso no país já enfrentou proibição legal para as mulheres durante a Era Vargas. O decreto-lei 3199, criado em 1941, proibia a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”, e só foi revogado mais de 30 anos depois, em 1979.

O atraso da inclusão de mulheres no meio esportivo e o machismo enraizado no meio majoritariamente masculino fizeram tardar também o cuidado da saúde das esportistas. Diferentemente dos homens, o cuidado e o preparo físico da mulher se depara com o ciclo menstrual, tendo que administrar menstruação e cólicas com treinos e campeonatos.  

A Dra. Karina Hatano, médica do Exercício e do Esporte, explica como as atletas podem administrar sua menstruação, fazendo uso de anticoncepcionais para interromper o fluxo. “A esportista pode, juntamente com um ginecologista, ajustar quando vai menstruar. A grande maioria das atletas de alto rendimento programam sua menstruação com alguma pílula ou hormônio, utilizando estratégias que não fazem mal à saúde quando bem controladas.” Explica a médica, atentando também para o cuidado da escolha de anticoncepcionais que não sejam classificados doping.

Caso a atleta prefira seguir menstruando, é possível “controlar os sintomas da tensão pré-menstrual (TPM), que é a principal correlação com a performance, para que atleta se sinta bem durante a prática esportiva”, conta Karina. Também há casos em que a esportista para de menstruar por excesso de atividade física e dietas muito restritivas, uma doença chamada amenorreia. “Existem ainda muitos treinadores físicos que infelizmente acreditam que a mulher que não menstrua de tanto treinar está na melhor da performance, e é justamente o contrário”, lamenta a especialista.  

Já na visão de Samara Monzem, técnica e atleta de futsal, é desigual o tratamento que recebem as mulheres atletas, visto que “somos nós unicamente que temos que tomar remédios contraceptivos, já que não existe uma versão masculina.” Samara comenta que  os efeitos colaterais desse tipo de medicação podem ser bem sérios.

Técnica Samara Monzem junto à sua equipe “Futeboys”. Fonte: Divulgação

A menstruação é tratada como tabu desde os antigos escritos bíblicos, a exemplo de Levíticos 15 onde a mulher menstruada é descrita como ‘impura e contagiosa’, até as propagandas atuais de absorvente na televisão, com o sangue menstrual sempre retratado graficamente em azul. As teorias acerca desse enorme tabu são de origens geográficas e temporais diversas e carregadas de controvérsias, sendo estudadas até os dias atuais por antropólogos e historiadores.

Alguns estudiosos argumentam que o tabu começou, em parte, porque os humanos primitivos acreditavam que o sangue menstrual era sujo. A antropóloga Shirley Lindenbaum apresentou uma teoria em 1972 que defendia que o tabu era uma forma natural de controle populacional, já que limitava o contato sexual com mulheres por causa do estigma da “sujeira”, e em 2000, o historiador Robert S. McElvaine veio com o termo síndrome não-menstrual (SNM) para descrever a inveja reprodutiva que levava os homens a tratarem com preconceito a menstruação e perpetuar a dominação social sobre as mulheres como forma de compensar psicologicamente aquilo que os homens não são capazes de fazer biologicamente.

‘’Na minha época de adolescente, até OB era tabu”, diz a atleta. Monzem acredita que, apesar da crescente onda de liberdade para tratar de assuntos pertencentes ao universo  feminino, ainda há “uma negligência muito grande com a saúde da mulher”.

A atleta explica que o método mais confortável para ela controlar seu ciclo, sem interromper a rotina esportiva, é através do uso do coletor menstrual. No entanto, ela só entrou em contato com este método ”depois de mais de 10 anos menstruando”.

A análise de todos os fatores históricos nos leva a conclusão de que, após todo esse preconceito e limitação fundamentado principalmente no machismo estrutural histórico, as mulheres atletas também sofrem na época da menstruação. Além de serem alvo de hostilidade nesse período por causa do estigma na hora da competição ou treino, elas podem também passar por experiências biologicamente negativas. A nadadora Fu Yuanhui declarou após a Olimpíada de 2016 no Rio: “Eu não acho que fui muito bem hoje. Sinto que desapontei meus companheiros de equipe”, disse. Pouco depois ela começou a se contorcer e, questionada pela repórter se estava com dor de estômago, respondeu: “Minha menstruação veio ontem, então eu me senti particularmente cansada, mas isso não é uma desculpa. Eu não nadei bem o suficiente”, comentou.

O “Sagrado Feminino”

As pesquisas e informações sobre ferramentas que possam facilitar a vida das mulheres durante o período menstrual sempre foram insuficientes e pouco divulgadas devido ao tabu acerca do assunto, passando por uma mudança apenas de uns anos para cá. Após séculos de estigma a respeito desse momento fundamental do ciclo reprodutivo feminino, as mulheres passaram a se reconectar cada vez mais com o seu corpo, a natureza à sua volta e sua liberdade durante o século 21. O Sagrado Feminino, como é chamada a filosofia que promove um estilo de vida baseado em ensinamentos sobre aspectos físicos e mentais da figura feminina, foi resgatado e inspirado nas chamadas “bruxas” da Idade Média, a maioria delas queimadas em fogueiras.

“A verdade é que, além de a menstruação servir como uma limpeza do órgão reprodutivo feminino e reforçar as defesas do organismo graças ao estrogênio natural, ela é uma fonte de criatividade, espiritualidade, intuição e autoconhecimento. É a fonte dos nossos poderes – como divindades –, sendo o ápice o de gerar uma vida”, revela Bela Lima, a ex-advogada em seu blog sobre autoconhecimento e espiritualidade, Bela Jornada. Segundo a estudiosa do assunto, essa poderosa capacidade feminina foi reprimida por tanto tempo que as mulheres acabaram se afastando de seu “poder divino”.

Mas nem tudo são trevas. Os hormônios femininos durante o ciclo menstrual também podem ser usados a favor das esportistas, com consultas médicas especializadas e conhecimento das características hormonais. Por exemplo, “as mulheres que preferem jogar menstruadas,  relatam que pode proporcionar uma melhor agressividade nesse período, conseguindo jogar isso no esporte”, diz Dra. Karina Hotano. Todavia, o tabu em torno do tema restringe drasticamente o acesso a esse conhecimento.

Para dar visibilidade ao assunto, em 2015 a atleta Kiran Gandhi correu a maratona de Londres sem absorvente durante sua menstruação. De acordo com ela em seu blog, sua atitude foi uma forma de combater o sexismo em nome daquelas que não têm acesso a absorventes e aquelas que apesar das cólicas e das dores, escondem e fingem que não existe.

Obs: Caso o leitor tenha se atentado para a escassez de entrevistado homens, gostaríamos de avisar que a redação tentou contatar um médico homem. No entanto, este nos pediu, gentilmente,  que tentássemos falar com sua secretária primeiro.

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