Entre aplausos e ataques: filme sobre Marighella é destaque em Berlim, mas divide opiniões no Brasil

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Entre aplausos e ataques: filme sobre Marighella é destaque em Berlim, mas divide opiniões no Brasil

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Category : Março 2019

Por Enzo Kfouri e Felipe Cereser

“Espero que Marighella seja maior que o governo de Bolsonaro”. Foi só Wagner Moura, diretor da cinebiografia de Carlos Marighella, dizer essa frase na coletiva de imprensa do Festival de Cinema de Berlim de 2019, a Berlinale, que uma enxurrada de comentários na internet difamando o filme, o diretor da obra e o próprio personagem vieram à tona.

Mesmo antes da estreia mundial, o filme, que conta a história dos anos finais do político e guerrilheiro Carlos Marighella, já vinha gerando polêmica. Contudo, foi depois da homenagem de Moura no tapete vermelho do festival à Marielle Franco, vereadora do PSOL brutalmente assassinada em março de 2018, e da coletiva de imprensa após a exibição da obra para os críticos que a situação tomou proporções maiores.

Termos como “comunista”, “terrorista” e “assassino” foram os mais utilizados para definir o biografado por  perfis no Twitter, que também atacaram assiduamente o diretor e o filme, ainda sem previsão de lançamento no Brasil. No IMDB (Internet Movie Database), maior banco de dados online sobre cinema do mundo e um popular veículo para avaliação de filmes por parte da crítica e do público em geral, a página do filme recebeu mais de duas mil críticas negativas de internautas brasileiros. Em comparação, o filme vencedor da Berlinale 2019, o israelense Synonymes tinha até o momento duas avaliações de usuários no site.


Filme chegou a ter mais de 2 mil comentários negativos na plataforma IMDB antes mesmo de sua estreia nos cinemas brasileiros. Fonte: TRENDSMAP

Os comentários não se limitaram à internet e o assunto foi abordado por congressistas em Brasília. No plenário da Câmara dos Deputados, o parlamentar Alexandre Frota (PSL) esbravejou: “Esse ator canalha, chamado Wagner Moura, recebeu 10 milhões para filmar a vida nojenta, promíscua e marginal do terrorista Marighella. E depois ainda cospe na cara do povo brasileiro”.

No mesmo evento, o também deputado do PSL Carlos Jordy criticou o repúdio a Ustra e a admiração por Marighella: “Ouvir as pessoas falarem que Marighella é um herói, para mim, é inadmissível! Um terrorista, assassino, que, no seu livro Manual do Guerrilheiro Urbano, ensinava como assassinar policiais. As pessoas que criticam quem fala de Ustra aqui são as mesmas que falam desse canalha terrorista”, declarou.

Quem foi Carlos Marighella?

Mediante pesquisa realizada através de redes sociais pela equipe do Contraponto Digital entre os dias 7 e 14 deste mês com 20 brasileiros entre 18 e 62 anos residentes da cidade de São Paulo, foi possível constatar que somente 35% sabe quem foi Carlos Marighella. Os outros 65% afirmaram “não conhecer” ou “já ter ouvido falar”, mas sem dar mais detalhes.


Carlos Marighella era baiano de Salvador e lutou como guerrilheiro urbano contra o regime militar brasileiro. Foto:ACERVO UH/FOLHAPRESS

Marighella é um dos personagens mais controversos e polêmicos da história brasileira. Em meio a aplausos e ataques, pouco se sabe e se pesquisa sobre quem realmente foi o guerrilheiro, sendo possível observar que os comentários geralmente são fundamentados em preconceitos e estereótipos, sem qualquer tipo de embasamento histórico. Assim, poucos sabem que o soteropolitano Carlos Marighella nasceu em 1911. Era filho de um imigrante italiano que fora à Bahia tentar a vida depois de chegar em São Paulo. Lá, o aventureiro conheceu Maria Rita do Nascimento, então colaboradora doméstica e com ascendência de escravos libertos. O casal teve sete filhos.

Incentivado pelo pai, o pequeno Carlos logo se alfabetizou e em 1929 iniciou na vida acadêmica na Escola Politécnica da Bahia. Anos depois, divulgou um poema criticando Juracy Magalhães, então interventor da estado e nomeado por Getúlio Vargas. A ação culminou na primeira prisão de Marighella, fato que só aumentou a gana do futuro guerrilheiro por lutar por aquilo que acreditava. Em 1934, deixou o curso de Engenharia Civil para ir ao Rio de Janeiro onde se tornou militante profissional do Partido Comunista do Brasil (PCB), sendo responsável pelo setor de Comunicação, Imprensa e divulgação do partido.

A máquina estatal de tortura não era privilégio apenas do DOPS ou DOI-CODI. Foi no logo no começo do Estado Novo getulista – período de puro estado de sítio e caça aos comunistas – que Marighella acabou detido pela segunda vez e torturado sob as ordens de Filinto Müller, chefe da repressão. Por uma ordem judicial, saiu da prisão ficando um ano na clandestinidade até ser encarcerado e martirizado novamente.

Foram seis anos no xadrez até ser solto e anistiado em 1945, com o fim do Estado Novo. Em 1946, elegeu-se deputado federal pelo PCB baiano, mas, por ordens do presidente Marechal Eurico Gaspar Dutra, o partido voltou à ilegalidade e seu mandato foi cassado. Entre 1953 e 1954, viajou à China para entender e conhecer de perto a Revolução Comunista no país.

No ano de 1964, uma “ameaça comunista” fez com que militares de costas aquecidas pelos americanos tomassem o poder. Iniciou-se então uma caçada a todos aqueles considerados subversivos ao regime, o que culminou no baleamento de Marighella e posterior prisão, tendo sido solto no ano seguinte mediante ordem judicial. Devido a orientações que não eram seguidas, começaram a haver fortes divergências entre Marighella e seu partido, levando a expulsão em 1967. Em 1968, ele funda o grupo armado Aliança Libertadora Nacional (ALN). Em pouco tempo, a organização se transformou na maior resistência armada, participando de assaltos a bancos e do famoso sequestro do embaixador americano Charles Elbrick em conjunto com um outro grupo, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).

Em 1969, Marighella era o “inimigo número um” do governo quando escreveu um de seus principais e mais conhecidos livros: o Mini-manual do Guerrilheiro Urbano. A Obra é extremamente criticada nos dias de hoje, porém, é considerada um marco importante para muitos. “A acusação de “violência” ou “terrorismo” sem demora tem um significado negativo. Ele tem adquirido uma nova roupagem, uma nova cor. Ele não divide, ele não desacredita, pelo contrário, ele representa o centro da atração. Hoje, ser “violento” ou um “terrorista” é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades”, introduzia Marighella ao leitor de sua obra.

Agentes do DOPS descobriram seu envolvimento com freis dominicanos que o ajudavam e apoiavam. Os religiosos foram capturados e obrigados a entregar o guerrilheiro. Uma emboscada foi feita no cruzamento entre a Alameda Casa Branca com a Rua Tatuí, no Jardins, em São Paulo, e Carlos Marighella alvejado por muitos tiros deixando a vida para a eternidade. Goste ou não, aprove ou não, Marighella é uma figura importante como personagem histórico do Brasil e sua trajetória é realmente digna de um filme.

A recepção do Festival e a coletiva de imprensa

Diferentemente da recepção do público brasileiro, em Berlim o filme foi bem recebido e foi um dos destaques do festival, sendo aplaudido por jornalistas após a sua primeira exibição. “Esse é provavelmente um dos primeiros produtos culturais da arte brasileira que obviamente está em contraste com  o grupo que está no poder no Brasil”, disse Wagner Moura na coletiva de imprensa da Berlinale.

“Não estamos sugerindo que as pessoas devem pegar em armas, ou que a luta armada é a melhor maneira de lutar contra um regime ditatorial, mas também não estamos julgando a decisão daqueles que acreditavam que essa era a melhor coisa a ser feita em um momento em que todos os direitos eram negados”, continuou o diretor.

Na mesma coletiva, o ator Humberto Carrão falou sobre a falta de discussão sobre a história brasileira nas escolas e na sociedade em geral: “Tem gente que ama o Marighella no Brasil, tem gente que odeia, mas eu acho que a grande parte dos brasileiros não sabe quem é Marighella. Isso não é por acaso, é um projeto muito antigo e muito bem sucedido no Brasil de não discutir a sua história, a história dos seus, principalmente nas escolas particulares”.

Ainda não há previsão de estreia do filme em território brasileiro e muito se deve à preocupação da distribuidora Paris Filmes por conta do contexto atual, acreditando ainda não ser o melhor momento.



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