A comida como um recomeço para refugiados que chegam no Brasil

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Por Amanda Pucci Dias e Maria Clara Serpa

A culinária é uma das mais antigas formas de intercâmbio entre povos, ajudando a promover um envolvimento com a comunidade e a criar um discurso identitário, o que faz da comida uma expressão de cultura, memória e identidade.

O mercado globalizado coloca em circulação alimentos de todas as áreas do mundo permitindo que o acesso a outras culturas crie um espaço compartilhado em que todas as pessoas podem ser incluídas nas trocas e interações. A prática de rituais alimentares é um importante conector de pessoas e comunidades, e São Paulo é uma das cidades mais multiculturais do mundo.

Foi aqui, que alguns refugiados encontraram uma nova forma de recomeçar a vida, trazendo na bagagem pratos típicos que caem no gosto dos brasileiros. Para os que chegam no Brasil sem conhecer a realidade local e sem falar a língua, se sustentar vira um grande desafio. Ao deixarem suas casas, deixam para trás também boa parte dos parentes, diplomas e empregos, sendo quase impossível recomeçar a vida dentro de suas profissões. Muitos são engenheiros, farmacêuticos e advogados.

Seja por burocracia, seja por dificuldades com o idioma, seja pelo tempo que essa inserção demanda – e boa parte deles simplesmente não têm como esperar – o recomeço, para muitos deles, acaba na cozinha.

Com o apoio de ONGs, que ajudam a montar marca, cardápio e na gestão das redes sociais, os sírios têm entrado na gastronomia com uma página no Facebook, oferecendo comida por encomenda. Foi assim que o refugiado Talal Al-tinawi, de 44 anos, começou. Ele chegou ao Brasil em Dezembro de 2013, com a esposa e dois filhos – depois, tiveram mais uma menina em solo brasileiro.

Talal e sua família Fonte: Facebook

Talal é engenheiro mecânico e tinha um escritório de engenharia em Damasco, além de três lojas de roupa infantil. Tinham carro e um apartamento, e viajavam com frequência de férias pela Europa. Foi obrigado a deixar seu país por causa da Guerra, e depois de passar pelo Líbano e  Beirute, escolheu o Brasil como destino. “Conversei com uma pessoa da embaixada para saber qual era a melhor cidade para mim. Ele me falou: ‘Vá para São Paulo porque a economia é forte. Fique no Brás, porque tem muitos árabes e uma mesquita’.”

Chegando ao Brasil, ele começou a vender roupa para crianças no bairro do Brás, que tem acolhido uma boa parte dos imigrantes árabes por dar lugar à Mesquita do Pari desde 1995, administrada pela Liga da Juventude Islâmica. Com a ajuda da Mesquita que conseguiu um lugar para ficar por três meses, antes de alugar uma casa.

Foi durante o aniversário do filho mais velho que surgiu a ideia de trabalhar com a culinária, depois da comida de Talal ser elogiada pelos convidados. Ajudado por um amigo a criar uma página no Facebook para vender salgados, Talal participou cozinhando para festas grandes como as do Museu da Imigração, em São Paulo, e preparando refeições para 400 pessoas todos os dias durante o mês do Ramadã.

Comidas preparadas por Talal Fonte: Facebook

A popularidade de Talal no meio gastronômico fez com que ele conseguisse abrir um restaurante com dinheiro arrecadado em uma plataforma de financiamento colaborativo. A divulgação foi através da página no Facebook, revistas, jornais e televisão. Talal aproveitava as entrevistas que dava para falar de sua situação e projeto de abrir um restaurante.

Em dois meses, arrecadou 72.000 reais para abrir o Talal Culinária Síria, no bairro Jardim das Acácias, na zona sul de São Paulo. O local do restaurante, inaugurado em abril de 2016, não foi escolhido por acaso: após dar uma palestra para crianças em uma escola da região, recebeu bolsas de estudos para seus dois filhos.

Hoje, Talal não possui mais o restaurante, mas continua trabalhando com a venda de salgados e jantares, que oferece em sua casa para quem queira provar da culinária Síria e conhecer mais sobre a história de seu país, além de serem frequentemente convidados para ministrar palestras e workshops.

Talal em uma de suas palestras. Fonte: Facebook

Assim como Talal, Salsabil Matouk viu no Brasil e na culinária uma maneira de tentar recomeçar a vida. Ela nasceu em uma cidade na costa da Síria, mas viveu boa parte da vida com a família na Arábia Saudita. Quando cresceu, foi à Jordânia para cursar Farmácia e, assim, conheceu Salim, seu marido há mais de 9 anos. Juntos, voltaram a Síria e construíram uma família em uma pequena cidade a 10 km da capital, Damasco.

Apesar do início da guerra em 2011, a vida era confortável. Salsabil tinha uma farmácia própria e Salim era gerente de uma representante farmacêutica. Quando Jury, sua filha mais velha, tinha mais ou menos 3 anos, a situação da guerra começou a piorar muito. Diariamente eram explosões, bombas e corpos mortos nas ruas da cidade. Grávida do segundo filho, por algum tempo Salsabil tentou refúgio em países vizinhos em que tinha família, como Jordânia e Arábia Saudita, mas não encontrou nada definitivo. Assim, por sugestão de um amigo que percebeu a dificuldade do casal para conseguir vistos para países europeus, decidiram juntar suas economias e vir para o Brasil.

Salsabil Matouk Fonte: Facebook

Chegaram em São Paulo no final de 2015 e, segundo Salsabil, encontraram uma cidade multicultural e muito acolhedora com os refugiados. Com a ajuda da ACNUR, ambos conseguiram revalidar seus diplomas, mas encontrar trabalho não foi uma tarefa fácil, tanto pela dificuldade no idioma, quanto pelo fato dela estar grávida de 8 meses. Tempo depois Salim conseguiu emprego em uma transportadora, onde trabalha até hoje. Salsabil, buscando alguma maneira de ajudar na renda da família, percebeu que os brasileiros gostam muito da culinária árabe e, com algumas receitas de família, resolveu vender seus pratos em uma feira de uma igreja.

O sucesso foi tanto que decidiu investir nesse mercado. Teve ajuda, além da ACNUR, do Instituto Base Gênesis que, através de cursos de capacitação profissional, idiomas, artesanato e culinária, visa ajudar no desenvolvimento pessoal e aumento de renda para refugiados e, principalmente, do Consulado da Mulher. Lá, Salsabil participou do projeto Raízes da Cozinha, onde aprendeu a calcular e fazer orçamentos para seu trabalho, técnicas de cozinha e limpeza e, no final do curso, ganhou uma geladeira e um freezer para poder começar seu negócio.

Evento que Salsabil participou Fonte: Facebook

Hoje, o casal com 3 filhos consegue se manter na cidade de São Paulo unindo as duas fontes de renda – a transportadora e a culinária. Salsabil é dona do Cozinha de Salsabil, empresa que faz comida para eventos, encomendas e feiras de culinária. Ela também começou a investir nos aplicativos de entrega de comida e conta que eles ajudam bastante no número de encomendas, no entanto, as entregas geralmente são à noite e, nesse horário, ela tem que cuidar das crianças. Quando perguntada sobre a possibilidade de abrir um restaurante, ela afirma que trabalhar de casa é bom para ela porque possibilita que ela tenha mais tempo para passar com a família e os filhos.

Salsabil foi escolhida pela artista Raquel Brust para participar do Projeto Giganto,  que utiliza espaços da cidade como suporte para exposições fotográficas hiperdimensionadas. A foto da refugida hoje estampa a parede de um prédio no Minhocão, em São Paulo.

Foto de Salsabil no Minhocão Fonte: Facebook

Apesar de muito se ouvir dos refugiados sírios, principalmente em São Paulo, há pessoas de muitas outras nações que vêm ao Brasil para tentar um recomeço. Esse é o caso de Pitchou Luhata Luambo, congolês que chegou a São Paulo no início de 2010 depois de ser perseguido por tentar proteger sua comunidade dos conflitos armados que ocorrem no país há anos.

Desde a década de 70, a República do Congo, apesar de ser rica em recursos minerais, sofre com forte instabilidade política, golpes de Estado, assassinatos de presidentes e conflitos armados. Pitchou, que era advogado e professor de francês, sempre foi engajado nas lutas pelos direitos humanos e foi justamente sua militância que o fez vir parar no Brasil, após tentar refúgio em Uganda. Quando chegou em São Paulo, Pitchou não conseguiu revalidar seu diploma. Por isso, passou alguns anos trabalhando como professor de inglês e francês e começou a organizar eventos culturais sobre seu país e sobre a África. Ele conta que percebeu que o Brasil conhecia pouco sobre sua cultura e que sofreu muita discriminação por ser negro. “Percebemos que, aqui no Brasil, havia muito preconceito em relação à minha cultura, por isso criei uma campanha de sensibilização em defesa dos refugiados.”, afirma.

Pitchou Luhata Luambo Fonte: Facebook

Em 2016, Pitchou iniciou um novo projeto. Após ouvir muitos elogios de amigas brasileiras quando cozinhava comidas típicas de seu país, ele resolveu abrir o Congolinária – Descobrindo os sabores do Congo, inicialmente um food truck um centro gastronômico. Ele conta que o Congolinária surgiu para ser muito mais do que um restaurante, é uma forma de mostrar aos brasileiros uma cultura e história que eles não conhecem, falar de cultura africana, direito dos animais e dos refugiados.

Nhoque de banana da terra do Congolinária Fonte: Facebook

Apesar das filas, o Congolinária teve que fechar porque o espaço gastronômico onde estava também fechou. Pitchou, então, iniciou uma campanha no Catarse para arrecadar dinheiro e conseguir um local fixo para o restaurante. Em 2017, em parceria com a loja “Fatiado Discos”, na Sumaré, o Congolinária conseguiu seu espaço no andar de cima do estabelecimento. Neste meio tempo, o refugiado também entrou em contato com as causas dos animais e com o veganismo e o restaurante hoje é 100% vegano. Ele afirma que os pratos não são modificados, só são servidos pratos congoleses que originalmente não têm nenhum ingrediente de origem animal.

Junto com sua filha Marie, Pitchou cozinha pratos como a sabusa – salgado congolês -, o fufu – espécie de polenta com farinha de mandioca -, nhoque de banana da terra com shimeji e a amomba – doce de biomassa de banana da terra e amendoim. O Congolinária continua com sua proposta original e sempre abre seu espaço semanalmente para debates com refugiados e eventos que promovem a cultura africana.

Pitchou e sua filha Marie Fonte: Facebook

Histórias de empreendedorismo como essas mostram que os estrangeiros e refugiados têm muito a agregar à nossa cultura e ao nosso país. É preciso investir nas políticas de integração de refugiados e também em informação como forma de diminuir a discriminação e o preconceito.

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