A fervorosa disputa pelo lado direito do Maracanã

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A fervorosa disputa pelo lado direito do Maracanã

Category : Notícias

Por Henrique Soto e Victor Félix

A final da Taça Guanabara deste ano não foi bem o que os amantes do futebol esperavam. A partida foi entre Vasco e Fluminense, com vitória da equipe cruzmaltina no final das contas. Mas no começo do jogo, até metade do primeiro tempo, não havia ninguém no estádio para assistir à partida. Do lado de fora do Maracanã ocorreu uma briga generalizada envolvendo a torcida do Vasco e a polícia, com direito a bombas e gás lacrimogêneo. Só então os portões foram abertos e a torcida vascaína pôde acompanhar a vitória do seu time. O que era para ser um espetáculo, um grande clássico do futebol brasileiro, acabou sendo lembrado como um dia de terror, violência e muita confusão.

O confronto entre Vasco e Fluminense é um dos maiores clássicos do futebol brasileiro. Ao todo, são 365 jogos, 120 vitórias do Fluminense, 143 do Vasco e 102 empates; o maior artilheiro do confronto é Roberto Dinamite, com 36 gols, segundo dados do Museu do Futebol. Porém, além da rivalidade dentro do campo, existe uma disputa antiga entre Vasco e Fluminense pelo setor sul do estádio do Maracanã. E para entendermos este conflito, é preciso voltar alguns anos na história.

A rivalidade entre Vasco e Fluminense dentro de campo. Fonte: Lance!

Antigamente, por volta de 1950, as torcidas dos clubes cariocas já tinham seus setores pré-estabelecidos no Maracanã: a torcida do Flamengo localizava-se sempre à esquerda das cabines de rádio/televisão, a do Vasco sempre à direita. Fluminense à esquerda, Botafogo e América à direita. Estas disposições mudavam dependendo do jogo: no caso de Flamengo x Fluminense, a torcida do Flu migrava para a direita; quando jogavam Botafogo x Vasco, os alvinegros migravam para o lado esquerdo; o América iria para o lado esquerdo ao enfrentar Botafogo ou Vasco.

Essa demarcação permaneceu por 63 anos. Com a reinauguração do estádio em 2013, após obras para a Copa do Mundo de 2014, o Fluminense fechou um contrato com o Consórcio Maracanã, que administra o estádio, onde foi determinado que sua torcida ficaria no lado direito, no Setor Sul, contrariando a antiga tradição. O motivo da escolha foi que os outros clubes cariocas mandavam a maioria de seus jogos para estádios próprios, deixando o Maracanã como “segunda opção”. O Botafogo é arrendatário do Estádio Olímpico Nilton Santos, o Engenhão, e o Vasco tem o seu próprio estádio, o São Januário. Portanto, o Fluminense viu uma oportunidade de arrecadar mais dinheiro, mandando a maioria de seus jogos para o Maracanã.


O Maraca é nosso desde 50”. Mosaico feito pela torcida do Vasco após a conquista do campeonato carioca de 2015. Fonte: site Memória do Torcedor Vascaíno

A partir de então, o Fluminense enfrentou o Vasco nove vezes com sua torcida posicionada ao lado direito, até chegar na confusão deste ano. Vasco e Fluminense chegam à final da Taça Guanabara, o primeiro turno do Campeonato Carioca. Com más administrações, dívidas e momentos políticos conturbados, as duas diretorias precisavam do título para ter mais estabilidade e menos pressão dos torcedores. Através de sorteio da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ), o Vasco ganhou o mando de campo e o direito de escolher o lado que a torcida cruzmaltina ficaria. Com diversas críticas por decisões precedentes à final, o presidente do Vasco, Alexandre Campello, não queria arrumar mais um problema com torcedores e funcionários do clube, logo não abriria mão da escolha do Setor Sul do Maracanã na partida mais importante. No entanto, Fluminense tem o direito ao setor sul por contrato, como foi citado anteriormente. A diretoria tricolor obviamente não demonstraria fraqueza e cederia o lado, ainda mais tendo direito. A questão é que o Consórcio se mostrou pouco interessado, já que o contrato com o Fluminense não se mostrava tão vantajoso, uma vez que a média de público dos jogos do Flu não era muito alta.

Após o Maracanã acatar o pedido do Vasco pelo lado direito, o Fluminense entrou na justiça e ganhou uma liminar, passando a ter autorização ao lado direito. Só que o Vasco já havia disponibilizado ingressos neste setor do estádio e pediu para a justiça reconsiderar a decisão. A justiça, então, determinou portões fechados para a final da Taça Guanabara. Revoltados, os torcedores do Vasco que já haviam adquirido o ingresso, acabaram indo até o Maracanã. E isso acarretou na enorme confusão citada. O Fluminense havia pedido para que seus torcedores não comparecessem, através das redes sociais.

Tudo o que aconteceu só reflete a crise do futebol carioca e do brasileiro como um todo. Ademir Takara, bibliotecário do Museu do Futebol, reflete sobre os impactos que a sociedade carioca pode trazer ao esporte. “A crise institucional que atingiu o Rio de Janeiro, se faz sentir em todas as esferas, segurança pública, educação, saúde e o futebol não tem como ser uma ilha de excelência num oceano de caos”, disse Takara. “O caso do futebol, historicamente, sempre foi pontuado mais pelos maus exemplos de autoritarismo, administrações caóticas e luta insana pelo poder, dentro de clubes e dentro da federação de futebol, e de outros esportes”, afirma.

No que se refere à final deste ano, Takara acredita que houve uma falta de imposição e autoridade por parte da FERJ, entidade máxima do futebol no Rio de Janeiro, algo que poderia, talvez, ter evitado essa enorme confusão. “É a Federação do RJ quem deveria impedir o conflito, pois ela é a organizadora do campeonato, ela é quem tem a obrigação de ditar as regras. Vendo que os clubes não chegam a um acordo, então ela deve decidir a questão e dividir os espaços dentro do estádio, palco da final. Aos clubes cabe apenas acatar”, reflete.

E isso nos leva a pensar até que ponto a justiça pode e deve interferir no futebol. Em entrevista, o professor do departamento de Antropologia da PUC-SP, José Paulo Florenzano, fala um pouco sobre o assunto. “A rigor, no contexto de uma sociedade democrática, toda pessoa (física ou jurídica) tem o direito de recorrer à justiça e reivindicar o que lhe parece certo. Isto posto, considero que no caso específico da localização das torcidas no Maracanã, a questão deveria ser resolvida pelos agentes do campo esportivo, incluindo as torcidas organizadas”, reflete Florenzano. “Vale lembrar que o Rio de Janeiro expressa no grau mais elevado a crise do futebol brasileiro. As razões não residem apenas no ‘amadorismo’ da classe dirigente dos clubes.  Convém considerar outros fatores, internos e externos ao campo esportivo. De qualquer forma, cabe um papel importante à CBF, esta sim, a principal responsável pela decadência geral que atinge o futebol brasileiro”, termina.

Com isso, é preciso refletir sobre o que representa o futebol. Nunca será só um esporte. Ele une o povo. Proporciona uma grande variedade de sentimentos únicos: a euforia de uma vitória sofrida, a tristeza de uma derrota, um drible magistral, entre muitos outros. Além disso, o futebol é visto como oportunidade de ascensão social; como “salvação” de más influências como o mundo das drogas e do crime. Porém, como tudo tem o seu lado ruim, o futebol também o têm: confusões, brigas e até mortes, ocasionados pela violência no futebol, mostram o lado obscuro do esporte mais famoso do mundo.