Profissão Professor – Um sertanejo à caminho da sala de aula.

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Por: Edilson Henrique Muniz

“Por onde estou e por onde passei, hoje é moleza. Foi dolorido, mas sem dor não tem história”.

Assim se dá um recorte de uma caminhada de alguém que lutou para ser visto como alguém e alcançou o estrelato de ser reconhecido como igual.

“E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar”

Trecho da música “Metal contra as nuvens” do Legião Urbana, considerada uma das músicas favoritas de Joelson Mattos.

A Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) realizou um levantamento e, até 2010, cerca de 3,3 milhões de nordestinos saíram de sua região a caminho de uma vida melhor no Sudeste brasileiro. Um deles é Joelson Mattos. Hoje com 37 anos, ele foi um dos milhões que vieram para São Paulo fugindo, dentre outros motivos, da seca.

Nascido em Itagiba, região sul da Bahia, Joelson viu sua região, antes rica pela produção de cacau, assolada pela seca nordestina. Teve uma infância pobre em dinheiro, mas rica pela felicidade que as coisas simples lhe proporcionavam, como a produção manual da farinha e do café, retirados diretamente da natureza.

Tarefas comuns do dia a dia tornavam-se mais uma dificuldade, ou até mesmo um divertimento. Para tomar banho, se dirigiam até um rio e lá se banhavam. Nos dias em que o frio castigava o quente povo baiano, a lavagem era dentro de casa, mas de forma diferente. “Toda casa de interior tinha uma bacia grande que esquentava a água e as pessoas da casa tomavam banho quando estava frio, um por um. Hoje temos chuveiro e água quente sempre que queremos”.

Após um tempo, seus pais e os cinco irmãos se mudaram para a região urbana da cidade, onde o pai e a mãe trabalharam como garis. “O prefeito contratava as pessoas para serviços básicos para que não morressem de fome”. Joelson ia para a escola em “pau de arara”, caminhões adaptados para o transporte da população, muito comum na região do Nordeste brasileiro.

Ainda sobre sua infância, Joelson lembra com carinho de uma tradição típica de sua região que aproximava os moradores durante a celebração da Semana Santa, uma das mais importantes para a doutrina católica. “O Nordeste é muito religioso. Toda Sexta-Feira Santa, o prefeito da cidade distribuía peixes para a população, mas ninguém almoça em casa. O dono preparava o almoço e ia comer em uma outra casa. Nunca entendi muito bem o porquê disso, mas era legal”.

Os velórios também eram atrações para as crianças da cidade. Joelson conta que eles iam até a capela onde os corpos seriam velados e construíam as velas que seriam acendidas para o defunto. Nenhum deles sabia muito bem o motivo daquilo, mas o faziam porque gostavam e os adultos diziam que era bom. Nos velórios das pessoas ricas, eram realizadas procissões pela região para se despedir do corpo, já no das pessoas pobres, os mais velhos sentavam com as crianças ao redor e contavam os feitos daquele defunto enquanto estava vivo.

Estudou da primeira até a quarta série em escola municipal. A festa mais tradicional, era a junina. Ele conta que os professores deixavam os alunos colherem uma planta chamada popularmente de Barba de Macaco. Ela era usada para decorar toda a escola no início da festa. As comidas preferidas nestas festividades eram a esfiha e o pastel, que era diferente ao conhecido dos sulistas. “Ele é menor e mais recheado, normalmente de jabá”. Três professores dessa época marcaram sua vida: o de Educação Física, uma professora que ele considerava muito racional e humana e uma terceira que morava onde eles chamavam de Rua dos Cachorros. “O nome da rua era outro, mas lá ficava uma casa prostituição e era onde todos os homens cachorros iam”.

Sua vinda para São Paulo foi conturbada. Joelson, o mais velho dos irmãos, tinha apenas 12 anos. A seca foi um dos motivos da fuga da família do Nordeste, mas não foi o único e nem o maior:

“Minha mãe é uma pessoa muito honesta, talvez a pessoa mais honesta que eu conheço. Ela tem um sobrinho que gostava muito de usar maconha. Um dia ele deu uma de Robin Hood, e roubou um boi de um fazendeiro ruim que tinha lá. O cara era ruim mesmo, tanto que ele derrubou todas as árvores frutíferas que tinha lá nas terras dele para ninguém entrar, inclusive as melhores jacas eram da terra dele. Eu particularmente roubei algumas mangas daquelas árvores, não me vanglorio disso, mas fez parte. Então, o sobrinho roubou esse boi junto com um cara chamado Nocego. Eles mataram o animal, dividiram em dois e distribuíram com a rua inteira. Todo mundo comeu. Minha mãe, como não sabia de onde vinha, não quis comer e como vinha daquele sobrinho, sabia que não era coisa boa. A outra parte ele escondeu em cima da casa da minha mãe. Quando o fazendeiro deu por falta do bicho, foi atrás e descobriu que tinha sido roubado. A polícia foi atrás e começou a procurar o boi. Uma parte já tinha sido comida, não poderia prender a cidade inteira mas podia prender o culpado, e a minha mãe achou o pedaço do boi que estava em cima da casa dela. E o que aconteceu? Minha mãe denunciou que tinha sido o sobrinho. Ao saber que ela tinha contado, o Nocego jurou ela de morte. Aí ela teve que vir de lá aqui para São Paulo, na região de Embu das Artes. Depois de seis meses, meu pai juntou um dinheiro e mandou buscar os filhos e todos viemos para o sudeste”.

Vindo para São Paulo por volta de 1994, Joelson começou a estudar no período da noite, para trabalhar durante o dia. Seu pai conseguiu um emprego para ele em um bar, onde trabalhava de graça. Depois de um tempo morando em Embu das Artes, um tio de Joelson, que veio junto da família, se envolveu em uma confusão e todos tiveram que se mudar novamente. O destino foi no bairro do Menininha, na região do Jardim Ângela, na zona sul da capital paulista. Nesse lugar, foi onde descobriram o que era passar fome. O pai de Joelson não conseguiu emprego, mas a irmã trabalhava. O que ela ganhava era o suficiente apenas para sobreviver.

Algum tempo na dificuldade, um outro tio os convidou para trabalhar em uma roça no bairro do Lagoa Grande, na região de Embu Guaçu, zona metropolitana de São Paulo. O pai dele não gostou do lugar e, após apenas um mês, mudaram-se novamente, agora para um galpão no bairro Campo Belo. Foi ali onde passaram mais dificuldades. “Lá foi difícil porque a comida, quando não era caqui era pescoço de frango doado. Comia de esmola”. Foram quatro meses até voltarem para a roça. Ainda tentaram uma chácara na Estrada do Jaceguava, mas o patrão não pagava seu pai e acabaram voltando ao Lagoa Grande.

Na roça trabalharam por um tempo. Joelson, como sempre teve uma boa fala, foi convidado pelo patrão para acompanha-lo na barraca da feira aos domingos. De terça a sábado ele permanecia na roça. Ele se separou da família quando uma conhecida de sua mãe, que tinha um haras, a convidou para trabalhar com ela e todos foram, menos Joelson, que permaneceu onde estava. Foi neste haras que ele passou um dos momentos mais difíceis de sua vida:

“Chegou o dia de Natal, eu consegui juntar um dinheiro e comprei um Atari de segunda mão. Aí eu fui lá para o haras jogar com meus irmãos. Era um dia 25 de dezembro, tinha passado a virada lá, voltado para a roça, trabalhado de manhã e voltei para lá. Eu tinha uma irmã, na época ela tinha 14 anos. Meu pai cuidava dos cavalos, ele trouxe e ela pediu para andar um pouquinho. O cavalo era muito manso, a princípio, e ela falou assim: “eu sei andar”. Meu pai perguntou se queria que segurasse, mas ela disse que não precisava. Minha mãe disse para ela não andar, mas ela falou que podia ficar tranquila, porque ela sabia andar. O cavalo andou com ela, ele andou por 30 metros e depois disparou. Em uma curva ela caiu e ficou com o pé preso no cavalo. Saímos correndo atrás e isso demorou uns 600 metros, do cavalo pisando nela, até que quebrou o estribo. O cavalo foi até o meu pai, ele estava acerca de um quilômetro e meio de onde a gente estava. Eu fui o que chegou primeiro, porque minha mãe caía e levantava, caía e levantava no desespero. Quando eu cheguei perto minha irmã estava toda machucada. Minha mãe chegou chorando e colocados minha irmã no colo dela ainda viva. Tentamos pedir socorro, mas ninguém queria porque diziam que não tinha nada para fazer, mas ela ainda estava viva. A princípio o rapa que estava próximo disse que não tinha o que fazer, mas depois percebemos que ele não queria sujar o carro dele. Assim que meu pai chegou, coisa de 15 minutos depois, ela deu três suspiros e morreu nos braços dos dois. Essa imagem foi bem forte. Aí eu tinha 16 anos, eu tive que ir do haras até o Lagoa Grande andando para pedir socorro. É muito longe. O patrão da roça que foi que nos socorreu. Depois eu tive que ir até Embu das Artes avisar meus tios, isso já era mais ou menos uma e meia da manhã. O dono do haras fez meu pai assinar um documento na delegacia dizendo que ele era o culpado e meu pai, sem saber ler, assinou. Eles queriam enterrar minha irmã com um caixão da prefeitura, meus pais não quiseram, tanto que ficaram quase um ano pagando o caixão, porque nem isso ele pagou. Eles voltaram para a roça e foi triste porque neste momento minha mãe entrou em depressão”.

Depois desta época triste, os pais compraram um terreno no bairro do Cipó, em Embu Guaçu, e construíram uma casa simples para morar. Joelson permaneceu na roça trabalhando, mas depois de um tempo saiu também, pois queria estudar e seu patrão o impedia. Ele foi morar com seus pais no Cipó e começou a trabalhar em um supermercado como empurrador de carrinhos.

Nesta época, entrou em um grupo de jovens em uma igreja católica da região. Ali conheceu um de seus mentores intelectuais, o Padre Lucindo. Eram milhares de perguntas realizadas até que o padre informou que não tinha mais suas respostas e o aconselhou a ir para uma faculdade. Como cresceu em uma família humilde, onde todos ao seu redor estavam preocupados apenas com emprego para ajudar a família, nunca havia tido contato com cursos à nível superior.

Mesmo sem conhecer, Joelson foi atrás da faculdade. Fez vestibular e passou em Teologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Passei é muita fome nesta época, morar em Embu Guaçu e estudar na PUC é difícil. Nem comia coxinha porque digeria rápido, preferia milho porque demorava mais”.

Concluiu a faculdade e foi atrás de saber o que faria um teólogo, já que ele não tinha vocação nem para padre e muito menos para pastor. Nisso, conheceu a Comunidade Missionária Villaregia, na cidade onde mora, e foi convidado para uma missão no Peru. “Olhei para a história da minha família e decidi ficar aqui”.

Desempregado, Joelson foi procurar trabalho. Tentou dar aulas eventuais, mas a diretora de uma escola, mesmo com diploma na mão, não acreditava que ele era realmente formado. Com todas as dificuldades, ele conseguiu um emprego com uma amiga de escola como carregador de farinha em um supermercado, mas nunca deixou de estudar.

Joelson trabalhou por seis meses para juntar dinheiro e se matriculou em um curso de história em uma faculdade no bairro do Santa Cru, chamada FAI. Uma semana antes das aulas começarem, foi informado que a turma não abriria por falta de alunos matriculados. A faculdade ofereceu um desconto no curso de Filosofia e Joelson aceitou.

Na faculdade foi chamado por seu professor Nilton Pereira para ajudá-lo no mestrado. Realizou pesquisas por dois anos na área de Existencialismo, mas como não queria seguir neste tema, deixou o trabalho. “Aprendi muito nesse projeto. Pesquisar direito, escrever bons textos. Até estudei grego, que era meu sonho”.

Em 2009, prestou prova para ingressar na rede estadual de ensino e passou em sétimo lugar, podendo, assim, escolher o lugar onde trabalharia. Já em 2012, fez entrevista para dar aulas em uma escola particular chamada Colégio João Friaza, lugar onde permanece lecionando até hoje. Além das aulas, Joelson desenvolve um projeto com um empresário para tornar mais didáticas e compreensíveis alguns conceitos de leis.

“Tenho plano de ser pai, voltar para o mestrado. Mas se morresse hoje poderia dizer que morreria bem. As pessoas podem falar “mas só professor”, mas não sabem o orgulho que é ver alguém chegando e te chamando de professor. Meus pais podem falar que tem um filho professor. Para quem nunca teve nada, é enorme. Não tem preço”.

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