A mulher por trás da atleta

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Por Rachel Castilho

“Os caminhos percorridos por Joanna Maranhão da infância à aposentadoria”

“O esporte é uma parte tão forte e tão grande da minha vida que eu não me sinto nem capaz de dissociar Joanna atleta de Joanna pessoa, eu acho que é uma coisa só.” Joanna Maranhão é sinônimo de superação. A atleta, nascida em Recife-PE em 1987, já passou por muitos momentos difíceis em sua vida, como abusos sofridos na infância, depressão e tentativa de suicídio. Cada um desses instantes a fez mais forte, mais resistente, mas ela não se resume a nenhum deles. Ela é muito mais do que isso.

Considera que foi atleta desde sempre, não teve um momento exato em que se transformou nisso. Por trás da atleta, ainda existe alguém de coração enorme, que utilizou todas as coisas ruins que lhe aconteceram na infância para impedir que outras crianças sofressem o mesmo que ela, criando a ONG Infância Livre para isso. Por trás do grande coração, existe uma grande mulher, que luta todos os dias pelos direitos de todos os que são reprimidos pela sociedade. Joanna é muito mais do que o abuso sexual que sofreu na infância. É muito mais do que a atleta feminina da natação brasileira que tem o maior resultado numa olimpíada. É muito mais do que a depressão. É muito mais do que qualquer um de nós pode imaginar.

Começou a nadar aos três anos de idade, ainda muito nova, o que fez com que seu ciclo de amizades ficasse praticamente envolvido nessa atividade, tinha muito mais amiguinhos na natação do que na escola. Por ter dois irmãos mais velhos, desde pequena o que mais queria fazer era se aproximar deles. “[Eles] eram as minhas referências, tudo que eu queria fazer de brincadeiras era mais brincar com eles, futebol de botão, jogar videogame, [coisas]assim”.

Enquanto era criança, quem a levava para os treinos e para a escola era o seu pai, porque estava desempregado. Assim, na cabeça de Joanna, sua família era incrível e diferente, por fazer tudo ao contrário das outras. “Eu me lembro até de ter feito uma carta na época da escola falando como que o meu pai fazia o papel de mãe, que na minha cabeça o papel de mãe era esse, eu tinha isso muito estereotipado, de que a mãe que leva para o treino, a mãe que leva para a escola, a mãe que busca. E no meu caso era o meu pai.” Com a separação de seus pais, quando ela tinha 15 anos, a rotina da família mudou. “A minha mãe que assumiu praticamente tudo, ela continuou trabalhando muito, mas aí além disso ela acordava 4h30 para me levar para o treino”.

Foto/Reprodução Geledes

Seu gosto pelo esporte foi desenvolvido com o tempo. Como treinava desde muito nova, era algo natural para ela estar na piscina e, assim, ela notou que tinha uma certa inclinação para entender e colocar em prática tudo o que lhe era passado nos treinos. “Fui percebendo que levava jeito para aquilo, sem ainda saber que isso significava talento, mas que de alguma maneira eu assimilava o que era dito com mais facilidade do que os meus coleguinhas de turma”. Ter um retorno dentro das piscinas, melhorando seu tempo e ganhando medalhas, também era algo que fazia com que ela quisesse cada vez mais estar apta a colocar tudo o que aprendia em prática.

Desde pequena já levava a natação muito a sério, nunca foi brincadeira de criança. “Sempre levei as coisas com muita seriedade, sempre cumpri exatamente o que o técnico falava e levava a competição a sério ainda que fosse uma não muito importante ou um festival: sentia ansiedade e gerava expectativa em relação àquilo”. Apesar de se considerar “atleta desde sempre”, o momento em que percebeu que as coisas estavam ficando importantes foi quando retornou do primeiro brasileiro em Salvador que participou, competição em que foi campeã de três provas e tendo conseguido dois recordes na categoria. “Foi o primeiro campeonato nacional que eu participei e acho que ali foi quando eu tive a verdadeira noção de onde isso poderia me levar”.

Por sempre ter tratado a natação dessa maneira, poderia ser de se esperar que em algum momento de sua carreira ela tivesse dado muito mais prioridade ao esporte do que para a escola. Entretanto, algo assim não aconteceu e ela sempre soube que precisaria se esforçar muito mais do que as outras crianças para conseguir chegar onde queria. “Eu procurava prestar muita atenção na aula e usar o tempinho livre que eu tinha quando eu voltava do treino da noite, mais ou menos das 19h até as 21h”. Sua rotina de treinos começou a aumentar quando fez 13 anos e era bem cansativa. Treinava de madrugada, saía de lá e ia para a escola, descansava um pouco e ia treinar de novo. Mesmo com tudo corrido, sempre se saiu bem na escola. “Nunca cheguei a ter problemas muito sérios com a escola, nunca fui para recuperação e também nunca precisou que minha mãe nem ninguém falasse isso pra mim”. Apesar da dedicação no âmbito escolar durante a maior parte do tempo, em 2004, ano de sua primeira Olimpíada, conta que quase não frequentou a escola no primeiro semestre porque “realmente queria fazer de tudo para ter um bom resultado nos jogos olímpicos”.

Muitas crianças têm o sonho de se tornarem atletas e precisam abandoná-lo por falta de apoio da família. Joanna nunca teve esse problema, sempre encontrou amparo incondicional de seus parentes. Um exemplo desse auxílio foi em uma competição, a Peixinho Dourado, da qual participou na mesma época em que sua mãe estava grávida. “Minha mãe não pôde ir, porque estava com 8 meses já, mas foi o meu pai, a minha madrinha e a minha avó. E a mainha ligava o tempo inteiro para saber como tinha sido a competição e enfim. Minha família sempre esteve muito, muito presente”.

Joanna considera que seu melhor resultado como competidora foi o quinto lugar que conseguiu nas Olimpíadas de Atenas, no seu ano de estreia mesmo, e que “até hoje é o melhor resultado de uma mulher brasileira em jogos olímpicos”. Mesmo assim, ela vê com muito carinho todos os outros também, mesmo os que as pessoas vêem como fracasso, porque foram uma forma de aprendizado. E teve um outro específico que ocupa um espaço especial em seu coração. “O 400 medley do Pan de Toronto, que foi quando eu melhorei o meu tempo depois de 11 anos, porque nos jogos de Atenas eu fiz uma marca e só fui conseguir melhorar essa marca 11 anos depois”.

Foto/Reprodução O Sul

Prefere ter sido quinto lugar nos Jogos Olímpicos de Atenas do que qualquer outro resultado melhor em mundiais. “ A gente que é atleta de modalidade olímpica a gente vive e respira e sonha com isso.” Representar o Brasil para ela já havia sido uma honra na primeira vez, ter conseguido essa proeza outras três vezes então, para ela foi algo realmente incrível. “Eu tive a chance de em quatro momentos distintos da minha vida, da minha carreira, em momentos totalmente diferentes em termos de maturidade estar vivendo isso”. Em questão de preferências, não consegue decidir qual a mais marcante, porque todas elas foram muito especiais. “Em termos de resultado expressivo, a primeira, mas a quarta eu nadei em casa. A segunda foi sinônimo de superação, a terceira eu não consegui nadar a minha principal prova, mas 48h depois eu consegui conquistar uma semifinal”.

O momento que considera o divisor de águas de sua vida e carreira foi quando parou de negar sua história, quem era verdadeiramente, e enfrentou tudo isso em uma terapia. “Foi muito impactante na minha vida, e, consequentemente, nos resultados enquanto atleta, mas ao mesmo tempo foi muito libertador.” Por esse motivo, o Pan-americano de 2011, quando conseguiu bater seu recorde de Atenas, é tão importante para ela. “Consegui fazer isso ciente da minha história e do que eu tinha passado e do que eu tinha enfrentado para estar ali”.

Por todos esses motivos, o momento mais feliz de sua carreira foi exatamente esse, o 400 medley do Pan de Toronto, quando saiu da piscina em êxtase. Já o mais triste aconteceu em 2006, logo que começou a levar a terapia a sério, porque tinha que treinar logo depois de ter verbalizado tudo pelo que tinha passado. “Foi um período muito obscuro, que eu não conseguia fugir de ser atleta, e eu me apresentava com resultados muito ruins, então era julgada como fracasso e não podia falar [sobre isso]porque ainda não estava preparada”.

Em 2014, Joanna decidiu dar uma parada na carreira. Nesse meio-tempo, ela e algumas outras pessoas decidiram criar a ONG Infância Livre e ampliar o funcionamento dela. Hoje, quatro anos depois disso, a ONG atua basicamente de três maneiras: na principal delas, Joanna faz palestras em locais em que se encontrem crianças, pessoas que trabalham com crianças ou gente que se interesse por essa temática, contando sua história de vida, como diferenciar toques carinhosos e abusivos e em quem procurar ajuda; a segunda é vista como um suporte àquelas crianças (ou seus responsáveis) que buscam ajuda, encaminhando-as para tratamento psicológico ou jurídico; já a terceira funciona como uma oferta de aulas de natação para crianças da rede pública da cidade de Belo Horizonte-MG. “Esse projeto de natação começou no ano passado e está andando muito bem. Começou com uma galera de lá querendo democratizar a natação e não sabendo muito bem como e agora já tá caminhando de uma maneira muito organizada”.

A lei Joanna Maranhão, criada e batizada em sua homenagem em 2012, foi feita para que crianças que sofreram abuso sexual ainda na infância tenham um período maior para denunciar o agressor. Antes dela, o tempo para se fazer essa denúncia começava a contar imediatamente após o acontecimento da agressão. Com a lei, a criança terá até os 18 anos para entender tudo o que aconteceu com ela e só depois da maioridade é que o prazo começará a contar. Joanna considera que essa lei quebra o silêncio que existia em torno desse tema antes disso. “Trata-se de um crime subnotificado, silenciado, em que a gente prefere não falar sobre ou se distanciar porque parece pesado demais e essa nossa cultura em torno dessa temática é uma coisa que só ajuda o abusador.” Assim, os ganhos com a lei são muito significativos. “A vítima vai ter o dobro do tempo da prescrição para compreender o que ela viveu, a gravidade disso, criar coragem, se fortalecer dentro do possível pra fazer uma denúncia”.

Para Joanna, a lei é um avanço, mas ainda é pequeno. “A gente não pode se dar por satisfeita com isso, depois dela veio a Lei da Escuta Protegida, hoje tem outras leis já pensando em questão de patrocínio com contrapartida de educação sexual, são muitos caminhos que pode tomar tanto em termos de punição quanto em termos de dar suporte à vítima na denúncia”. Além disso, para a atleta isso é um caso de saúde pública e é necessário que o Estado forneça um acompanhamento psicológico para as vítimas.

Foto/Reprodução Diário Centro do Mundo

Em julho de 2018, Joanna anunciou que estava se aposentando das piscinas. Ainda muito nova, afinal tem apenas 31 anos, a atleta conta que a decisão que tomou nada tem a ver com um estar de “saco cheio” de fazer tudo aquilo, tudo aconteceu porque o desejo de viver novos projetos foi superior ao de estar competindo em alto nível. “Me veio a vontade de viver outros projetos. Me encabeçar mais no trabalho da ONG, ter mais flexibilidade na minha agenda para poder fazer palestra e eu também passei por uma experiência muito forte do sagrado feminino, que eu fiquei grávida e perdi com 7 semanas.” Para Joanna, essa experiência com a gravidez a mudou totalmente. “Acho que a mulher se torna mãe na hora que ela vê aquele exame positivo, ela já projeta, já vê o seu filho, o corpo passa a ser morada mesmo para um ser que você ama e que você ainda nem viu, que não tá nem formado. E de repente, por uma questão natural, eu não ter conseguido dar continuidade a essa gestação, eu comecei a ver como isso faz meu coração bater mais forte do que a vontade de estar em Tóquio”.

Após essa situação, surgiu nela esse sonho de ser mãe, que ela explica como nada mais do que essa conexão forte que ela tem com a infância. “Foi esse amor pela infância, de todas as maneira que ela se coloca pra mim, que me fez ver que estar nadando, que estar colocando um traje e competindo pela seleção já não era tão mais importante do que isso”.

Hoje Joanna tem outros planos para sua vida, além de toda a preparação espiritual que tem feito para se tornar mãe (biológica ou não). Recentemente começou a trabalhar na prefeitura de Recife como gerente de projetos especiais e está muito animada com a possibilidade de trabalhar com o esporte em níveis mais sociais. “Tentar humanizar isso cada vez mais e procurar de todas as maneiras trazer uma praticidade para a gestão pública, porque o que importa são que essas crianças tenham oportunidade de praticar esportes, independente se vão ser atletas ou não.”

Sobre o incentivo ao esporte no Brasil, considera que há dois caminhos a se seguir: o incentivo à prática esportiva como atividade física e também como alto rendimento. Para ela, a primeira e a segunda infância precisam que a opção primária funcione com destreza e que se existam federações e confederações de bom nível para que a secundária também corra de acordo com o ideal. “Acho que é possível que se tenham políticas públicas para esses dois lados”.

Algo que todos sabem sobre Joanna é que ela não se abstém de se posicionar sobre nada. Vivendo em momentos conturbados politicamente no país, muitos se escondem atrás de suas imagens como ídolos, mas ela é diferente. “Eu não me posiciono politicamente porque eu acho que eu devo, porque existe uma obrigatoriedade. Eu faço porque eu quero, porque eu acho que é o meu direito democrático, e eu não gosto quando restringem o atleta de alto rendimento a uma máquina de gerar resultado, que não pode ter opinião.” Além disso, a ex-nadadora conta que sempre teve influências políticas dentro de casa, e que isso a moldou na sua forma de perceber como o mundo funciona. “Eu fui vendo muito essa questão dos privilégios que eu tive inclusive como atleta de natação, desde muito cedo [fazendo aulas]na melhor escolinha da cidade. Então começou a crescer essa vontade de tentar fazer algo por aqueles que não tiveram as mesmas chances que eu”.

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