A trajetória de Myeong Geun: da guerra em busca da paz

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

Por: Rocio Paik

Por um lado, encontrava-se um território influenciado pela ideias comunistas que provinham da China e da União Soviética. Por outro, uma área ocupada pelo capitalismo e por militares norte-americanos. Aos 19, fugindo de um regime ditatorial e procurando por um caminho mais próximo à tão sonhada liberdade, Myeong Geun atravessa a barreira ideológica do Norte ao Sul. Desta forma, ele muda a sua identidade e seu rumo de vida.

Enquanto o antigo líder norte-coreano, Kim Il Sung – avô do atual ditador Kim Jong Un -, era auxiliado pelo governo chinês e soviético para defender os coreanos da invasão japonesa, as terras sulistas da Manchúria – antiga Coreia – eram apoiadas pelos Estados Unidos. Naquele contexto imperialista, cada lado do país sofria um forte atrito ideológico. Nesse sentido, delimitou-se o Paralelo 38: momento em que oficialmente a Coreia se dividiu em dois polos opostos.

Myeong Geun na Coreia do Sul (Imagem: Divulgação)

Nascido em 1928, na Coreia do Norte, Pyong Yang, Kim Myeong Geun vivia uma vida pacífica com sua grande família composta por nove pessoas – seus pais e seus seis irmãos. Porém, toda essa realidade passou a mudar quando cumpriu seus 3 anos de idade, quando Japão invadiria a Coreia.

“Passei a minha juventude ao lado dos japoneses e acabei aprendendo a língua japonesa de forma natural. E naquele mesmo tempo, mal sabia que Kim Il Sung já estava construindo laços de amizade com os países socialistas.”

Aos 18 anos, foi noticiado de que os Estados Unidos lançaram as bombas de Hiroshima e Nagasaki no território japonês, levando os japoneses à rendição e ao cedimento das terras da Manchúria para os habitantes do local.

Porém, surgia um conflito ideológico bastante forte entre as duas regiões da nação, agora, nomeada por Coreia. Durante a invasão japonesa, o Norte vinha desenvolveu uma relação íntima com a China e a União Soviética, enquanto o Sul se aproximou aos Estados Unidos.

Influências ideológicas durante a Guerra da Coreia (Imagem: Reprodução – Megaarquivo)

Quando o Paralelo 38 foi delimitado, Myeong percebeu que as pessoas não podiam mais sair do território Norte. Ninguém mais tinha liberdade de expressão, muito menos de locomoção. O líder Kim Il Sung realizava um mandato autocrático, sufocando toda a comunidade de seu país. Foi nesse instante que Myeong decidiu, secretamente, sair do território e fugir. Fazendo uma promessa de reencontro com sua família antes da partida, em um lugar onde todos pudessem ser livres, ele é o primeiro que se arrisca a se dirigir para a Coreia do Sul.

“Foram dias intensos. Eu queria ser livre. Lá no Norte, ninguém podia fazer nada. Se você tinha muita sorte, você conseguia pagar uma taxa aos vigias soviéticos para que te deixassem atravessar o Paralelo. Era um esquema de corrupção. Eu paguei essa taxa, tive que andar escondido e subir ao trem escondido. Se no meio do caminho eu fosse pego, seria morto na hora.”

Myeong Geun (Imagem: Divulgação)

Quando finalmente chega na Coreia do Sul, Myeong cria sua nova identidade. Sendo perseguido por norte-coreanos e considerado um fugitivo perigoso no novo território, ele acaba mudando a sua nacionalidade. Torna-se sul-coreano.

Ao longo do tempo, alguns de seus amigos e familiares conseguem atravessar o Paralelo e se reencontram com Myeong. Porém, uma de suas irmãs é barrada na passagem.

Aos 23, Myeong é obrigado a se alistar no exército sul-coreano da ilha de Jejudo e, pouco tempo depois, participa da Guerra da Coreia, que dura três anos. Nessa guerra em que as duas Coreias ignoram a existência do Paralelo e brigam para conquistar o território do outro, Myeong perde todos os seus amigos.

“Durante a guerra, o soldado sul-coreano não tinha nenhum segundo para descansar. Tudo o que eu pensava naquele tempo era se eu estaria vivo ou morto no próximo dia. Muita gente morria. Todos passavam frio, não dormiam e nem comiam direito. A gente se alimentava de sopa de feijão de broto com um pouco de arroz. Passávamos muita fome o tempo todo. Já os soldados americanos que estavam com a gente comiam muito bem: sempre tinham carne de boi, frango, leite e ovos. Isso porque os Estados Unidos enviavam alimentos só para seus soldados. A Coreia do Sul era pobre, por isso não tinha o que oferecer para seus soldados. Tinha até colega que fervia calçados e botas dos soldados americanos, porque dalí surgia um líquido. Eles tomavam esse líquido”, Myeong continua ,“os americanos não viam os coreanos como pessoas. Eles discriminavam a gente e nos tratavam como cães. De vez em quando, jogavam biscoitos no chão para que comêssemos. Mesmo assim, tínhamos que segurar os laços de amizade com eles em prol da sobrevivência. Sem os americanos, nós seríamos devorados pelo Norte. A Coreia do Norte era tão forte que, nos três primeiros dias da guerra, já tinham conquistado e enfeitado as ruas de Seul com bandeiras vermelhas.”

Fases da Guerra da Coreia entre 1950 a 1953 (Imagem: Reprodução – Cola da Web)

Três anos depois de uma guerra desgastante, é assinado um armistício entre as duas Coreias. Assim, novamente ressurge o Paralelo 38. Apesar de ter sido uma guerra “em vã” em que muitos de seus amigos desapareceram, ou morreram, naquele instante Myeong sente alívio e alegria em poder voltar para casa e ver sua família.

Com a guerra física em pausa, Myeong se reencontra com seus familiares e começa a trabalhar com costura em uma fábrica de roupas. Ao longo dos anos, seus pais falecem, seus irmãos se casam e cada um decide morar separadamente. Myeong também encontra sua primeira esposa e, com ela, tem duas filhas. Pouco tempo depois, sua mulher morre de leucemia.

No trabalho, Myeong é considerado o melhor costureiro por seu chefe. Grato pelo grande trabalhador que é, seu patrão apresenta Kim Yong Cha ao viúvo. Na faixa de seus quarenta anos, os dois se casam, têm uma filha e decidem sair para morar no Paraguai – um dos únicos países da época onde aceitava imigrantes. No começo, Yong fica receosa com a ideia arriscada de mudança sugerida por seu marido, mas depois de muito pensar, acaba aceitando a proposta. Myeong queria começar uma nova vida fora da empobrecida e devastada Coreia do Sul, e apostar em um futuro melhor para suas três filhas.

Chegando ao Paraguai, Myeong trabalha no campo cuidando de galinhas durante três anos.

“Paraguai tinha muita comida. Muita carne e mandioca. Diferentemente da Coreia do Sul, esse país tinha muita comida mesmo.”

Após poucos anos no campo, preferiu voltar a trabalhar na área em que era especializado, com costura. Começava também um novo negócio formando uma pequena mercearia paraguaia de produtos básicos do cotidiano. Durante esse tempo, suas três filhas se casaram. A primeira filha, Kim Jong Mi, casou-se e foi morar em Brasil; a segunda, Kim Eun Hee, foi estudar arte no Chile e, logo, casou-se fora; a terceira filha, Kim Jong Ju, casou-se em Paraguai, teve três filhos e levou a família toda para o Chile, por sugestão de sua irmã Eun.

A vida no novo país não durou muito. Myeong viveu por cinco anos no Chile porque a empresa de seu genro havia falido. Por esse motivo, a família toda teve que, novamente, migrar a um lugar que trouxesse melhores condições de vida. Desta vez, foi parar no Brasil por sugestão de sua filha Jong Mi.

“Foi uma migração bastante sofrida. Estávamos sem condições financeiras quando chegamos ao Brasil. Eu também queria trabalhar, mas ninguém contrataria um idoso como eu. Me sentia como se fosse um peso para a família toda. Aliás, viver por muito tempo é um pecado. Sempre senti que um velho como eu apenas trazia preocupações desnecessárias a todos.”

Apesar de todas as dificuldades e migrações em sua vida, Brasil foi o país onde conseguiu encontrar esperanças. Aos poucos, seu genro encontrava mais oportunidades de trabalho e, graças a isso, sua família tinha a possibilidade de se sustentar.

Atualmente, Myeong cumpre 12 anos desde que reside em Brasil. Ele tem 90 anos de idade, e continua vivendo junto com sua grande família composta por sua esposa Yong Cha, sua filha Jong Ju, seu genro Eun Chul e seus três netos Du San, Du Sol e Eun Sol.

“Passei por tantos momentos difíceis na vida que é difícil de dizer qual foi o mais marcante. Mas com certeza, a minha maior felicidade é ver que minha família vive bem. Eu estou grato de que hoje a gente tenha o suficiente para comer e sobreviver.”

Share.

About Author

Leave A Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.