“Me leia enquanto estou quente”

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

“A beleza não está nem na luz da manhã, nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, na incerteza das coisas…”

por Natália Novais

Nascida em São Paulo, em 19 de abril de 1923, na histórica Rua Barão de Tatuí, Lygia de Azevedo Fagundes, quarta filha de Durval e Maria do Rosário, tornou-se uma das maiores escritoras do país, ficando assim conhecida como a “primeira dama da literatura brasileira”.

Lygia Fagundes Telles, como passaria a ser chamada mais tarde, passou parte da infância se mudando de cidade, morou em Apiaí, Itatinga, Assis, Sertãozinho e Rio de Janeiro. Aos 13 anos, após a separação de seus pais, Lygia retorna à São Paulo com sua mãe, onde, segunda a escritora, passam a “viver uma vida de classe média empobrecida”.

Juventude e o começo

“A pouca idade não justifica um mau livro”

Aos 15 anos, financiada pelo pai, Lygia publicou seu primeiro livro, Porão e Sobrado. Em 1939, cursou o pré-jurídico e a Escola Superior de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP).

Começou a participar ativamente de debates literários, nos quais conheceu Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Salles Gomes, entre outros nomes da cena literária. Fez parte da Academia de Letras da faculdade e escreveu para os jornais Arcádia e A Balança. Em 1941, começou a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Ela decidiu ser advogada por causa do pai, que também se formou na São Francisco. Em 1949, a escritora publicou, seu terceiro livro de contos, O Cacto Vermelho, o qual muito prestigiado pelos críticos na época, recebeu o Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras.

Em entrevista ao programa Revista Vitrine, da TV Cultura, Lygia se declara fã de Monteiro Lobato, conta o episódio onde enquanto estudante na faculdade de direito, ao saber da prisão do escritor, foi até a cadeia visitá-lo. “Eu adorava Monteiro Lobato, lia todas as histórias dele (…) Quando soube que ele estava preso na Rua Liberdade, eu disse: – Então eu vou lá…”

Sempre crítica em relação à sua escrita, na mesma entrevista, Lygia revela que já “se livrou” de alguns contos e até mesmo livros que julgou não terem ficado bons. Dentre eles, o livro Juvenilidades que escreveu ainda na época da faculdade. “Eu juntei o dinheirinho da minha mesada e paguei a uma editora para publicá-lo, mas quando eu vi o resultado do que saiu, me livrei de todos os exemplares, quando somos jovens, temos orgulho de qualquer coisa que publicamos, mas na minha opinião, a pouca idade não justifica um mau livro”.

Casamento e carreira

“Tentei ser modesta, mas não deu! é sensual a relação que tenho com a minha máquina de escrever.”

Em 1947, casou com Gofredo da Silva Telles Júnior, seu professor de direito internacional privado, de quem adquiriu o sobrenome. Na época, seu marido era deputado federal, e então o casal muda-se para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal.

Lygia exerceu a profissão na Secretaria de Agricultura durante algum tempo, mas a abandonou pelo amor à literatura, tornando-se cronista do jornal carioca A Manhã.

Em 1952, começou a escrever seu primeiro romance, Ciranda de Pedra que a deixou conhecida nacionalmente. Na fazenda Santo Antônio, em Araras, de propriedade da avó de seu marido, para onde viajava constantemente, escreveu várias partes desse romance. Essa fazenda ficou famosa na década de 20, pois lá reuniam-se os escritores e artistas que participaram do movimento modernista.

Já no início da década de 1960, Lygia se separa do marido e mais tarde passa a morar com o crítico de cinema, Paulo emílio Sales Gomes. O casal desenvolveriam juntos a escrita de Capitu, projeto baseado na obra Dom Casmurro de Machado de Assis.  

Após ganhar vários prêmios e reconhecimento internacional, a escritora é eleita em 1982 na Academia Brasileira de Letras e passa a ocupar a 16ª cadeira.

Uma mulher a frente de seu tempo

“Sempre fomos o que os homens disseram o que nós éramos, agora somos nós que vamos dizer o que somos”  (A disciplina do amor)

A mãe da escritora, pianista enquanto jovem, largou os estudos do instrumento para se dedicar a família. “Eu me lembro, era menina quando ia com a cesta para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em Sertãozinho, onde meu pai era promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse pianista? E se ela continuasse estudando e compondo naquele antigo piano preto com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria uma extravagância, uma ousadia e em vez de abrir o álbum de Chopin ela abria o caderno de receitas”

A escritora, em diversas entrevistas, usou o termo mulher-goiaba para se referir à mulheres que se dedicavam ao lar, aos filhos e ao marido. Afirmou, em entrevista, que sofreu deboche por ser mulher, por entrar na faculdade de direito e querer seguir a profissão de escritora, considerada masculina na época.

Para ela, esse começo foi difícil, pois estavam na moda as poetisas, mas escrever um livro era outra coisa. “Sim, foi um duro desafio porque o preconceito era antigo e profundo (…) Os que vão na primeira fila são os que levam no peito as primeiras rajadas, então a solução era assumir a luta, sair da condição de mulher-goiabada, a mulher caseira, antiga ‘rainha do lar’ que sabe fazer a melhor goiabada no tacho de cobre”.

Mais tarde, passou por novas críticas sociais, pois separou-se do marido e passou a viver com o cineasta Paulo Emílio, na época a lei brasileira não admitia o divórcio, então ela “se juntou” com o novo companheiro e com ele viveu até 1977, ano em que veio a falecer. 

A obra de Lygia é essencialmente feminina, em diversos contos ela aborda o ponto de vista da mulher, cria tensões psicológicas em suas personagens, dá lhes “sangue nas veias”.  

Mulher é tema recorrente na obra de Lygia, seja na mulher “desquitada” que é mal julgada pela sociedade e cai em profunda depressão diante das consequências de suas escolhas (Ciranda de Pedra, 1954), seja pela amizade de três amigas, que vão se revelando diante do autor a cada diálogo descrito pela autora (As meninas, 1973) ou até mesmo pela adaptação de uma das obras mais famosas da literatura brasileira, cuja figura central passa a ser o ponto de vista nunca contado da mulher oblíqua e dissimulada (Capitu, 1968).

Lygia hoje e sempre

“Não Acho maravilhoso envelhecer. A gente envelhece na marra, porque não há mesmo outro jeito, já fui a tantas estações de água, já bebi de tantas fontes – Mas onde está a fonte da Juventude? Onde?”

Lygia completou 95 anos em abril de 2018, autora de inúmeros contos e cinco romances, publicou pela última vez em 2000, com uma coletânea de seus trabalhos reunidos em Invenção e Memória. Vive atualmente em uma casa tranquila no bairro da Consolação em São Paulo.

 

Para conhecer mais sobre a autora:

http://www.elfikurten.com.br/2016/06/lygia-fagundes-telles-entrevistada-por.html

https://revistatrip.uol.com.br/trip/de-ouvidos-abertos-e-orelhas-de-livro

https://jornalggn.com.br/blog/gilberto-cruvinel/entrevista-com-lygia-fagundes-telles-por-alex-solnik

Share.

About Author

Leave A Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.