Vicenza Protta: uma das primeiras rebeldes feministas

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Por Gianluca Florenzano

“Adeus terra querida!” Gritou Vicenza Protta ao entrar em um navio que mudaria radicalmente sua vida para sempre. Ela, assim como milhares de imigrantes italianos, resolveu fugir do desemprego e do governo autoritário que comandava a Itália e embarcar em uma aventura numa terra promissora. O destino da viagem era um país tropical denominado Brasil. Na bagagem levava apenas algumas roupas e a incerteza sobre seu futuro.

Infância trancafiada

Nascida no dia 23 de setembro de 1924, em uma pequena cidade italiana chamada Morigerati que atualmente possui cerca de 480 habitantes, Vicenza Protta passou boa parte de sua infância trancafiada no convento da cidade. “Passava o dia inteiro dentro daquele convento. Saía apenas acompanhada de uma freira para ajudá-la a fazer compras ou nos finais de semana quando voltava para a casa dos meus pais”, relembra ela que aos 94 anos de idade ainda mistura o português com o dialeto italiano.

De fato, naquela época o ensino era bem rígido. Meninas estudavam separadas dos meninos e os alunos que desobedeciam as regras eram punidos de forma severa. Contudo, quando o ditador Benito Amilcare Andrea Mussolini assumiu o poder a coisa piorou. Antes do começo das aulas, por exemplo, os jovens eram obrigados a perfilarem no pátio para cantarem o hino nacional. A escola passava então a ser católica e militarizada.

“Lembro-me que existiam castigos para quem quebrasse as regras. Havia uma professora que dava ‘reguada’ em quem ia mal nas provas. Os castigos às vezes eram bem pesados”, conta ela. “Por isso que eu era uma boa aluna, sentava lá na frente e prestava atenção em tudo para não tomar uma bofetada da professora”.

Apesar dos castigos físicos, Vicenza adora as aulas. “A minha matéria predileta era letras. Gostava muito de ler. Sempre que dava passava na biblioteca e pegava algum livro para ler no dormitório”, recorda.

Todavia, havia algo que a deixava “inconformada”. “As professoras ensinavam para a gente [meninas]que o nosso dever era cuidar do nosso futuro marido e da casa. Mas, eu me perguntava: e se eu não quiser fazer apenas isso? E se eu quiser trabalhar com outras coisas ou explorar o mundo. Por que eu não posso?”. Nascia assim, um sentimento de rebeldia em Vicenza.

O casamento de doidos

Vicenza queria ser muito mais do uma simples dona de casa. Nas palavras dela, “sempre existiu uma aventureira dentro de mim”. Entretanto, ela tinha medo de expor essa personalidade. “Eu sabia que era mais ambiciosa que as minhas amigas de colégio. Porém, não queria que ninguém soubesse, pois temia que as freiras iriam me punir ou pior, que eu não arrumasse um marido por conta disso”, explica ela.

No entanto, foi essa rebeldia que mudou sua vida para melhor. Certa vez, foi com um grupo de colegas até Roma para comprarem mantimentos para o convento. No meio desse passeio, Vicenza cruzou com um jovem rapaz chamado Benjamin Gallotte, que viria a ser seu futuro marido. Após uma conversa rápida com o jovem, ela o informou que morava na pequena cidade de Morigerati e que estudava no convento da cidade.

“Achei um pouco de atrevimento ele conversar comigo ali no mercado. Na minha época esse tipo de coisa não era comum. Além disso, ele tinha o jeito de ser meio doido da cabeça. Mas, ele tinha alguma coisa que acabei gostando”, conta ela rindo.

E, de fato ela tinha razão. O rapaz era meio doido. Benjamin foi algumas vezes para Morigerati para procurá-la. Depois de alguns encontros – obviamente as escondidas -, ele procurou os pais de Vicenza para pedir a permissão de se casar com ela. No entanto, ela não era como outra moça qualquer.

“Quando finalmente meus pais me deixaram sozinha por alguns minutos com ele, eu me virei e disse: eu não vou ser apenas uma dona de casa, quero fazer algo da minha vida, cansei de ficar trancafiada”, narra ela. “Parece bobagem vocês [jovens]  ouvirem isso hoje em dia, mas naquela época falar aquilo era uma loucura”, conta ela. “Benjamin deu apenas um sorriso e disse: Você é doida! É disso que eu gosto”.

Vincenza Protta à esquerda ao lado de suas filhas Iris e Tereza.

A aventura começa

Vincenza e Benjamin rapidamente tiveram dois filhos, Modesto e Iris. Contudo, com a crise econômica assolando a Itália, ficava cada vez mais escasso o dinheiro para sustentar a família. Então, Benjamin resolveu tentar a sorte grande. Junto com os seus amigos, entrou num navio direto para o Brasil deixando para trás sua esposa e seus dois filhos.

Entretanto, Vicenza não era uma pessoa fácil de lidar. Ela conseguiu se segurar por alguns meses. Mas, com a economia piorando e seu espirito aventureiro lhe chamando ela não se conteve. Escreveu uma carta ao marido dizendo que iria ao Brasil junto com seus filhos. E, assim fez. Na calada da noite, eles embarcaram num navio rumo ao país até então desconhecido.

“Foi à coisa mais assustadora e emocionante que fiz em toda a minha vida!”, exalta. “O navio era horrível. Não tinha condições nenhuma de higiene. Havia gente dentro de mais. Dividia minha cama com a Iris e com o Modesto. A gente se revezava para dormir. Nunca mais faria isso. Ainda bem que hoje em dia tem avião. Bem mais confortável e mais rápido né”, brinca ela.

Todavia, assim que chegou ao Brasil, Vicenza passou por maus bocados. Além das dificuldades de adaptação havia o preconceito com os italianos. “Chamavam-nos de porcos. Nunca recebi um xingamento direto para falar a verdade. Porém, me lembro que às vezes quando andava na rua recebia uns olhares meio ‘tortos’, sabe. Algumas pessoas me olhavam de cima para baixo. Mas, sabe o que eu fazia? Olhava para eles da mesma maneira que olhavam para mim. Não tinha medo”, relata.

Ela também não tinha tempo para perder com o preconceito. Vicenza, além de cuidar da casa e dos filhos também ajudava seu marido no trabalho. “No começo, Benjamin arrumou um emprego em uma plantação de café ali em Poá [interior paulista]. Eu o ajudava na lavoura, assim ganhávamos eu e ele um salário. Com isso, conseguimos juntar dinheiro e compramos uma casa aqui em São Paulo. O Benjamin conseguiu até comprar o ‘maldito carro’ que ele tanto queria. O problema é que aquela coisa só quebrava. Dinheiro jogado fora”, esbraveja e depois da uma risada.

Casa da Vicenza Protta em Perdizes – SP.

Lições de vida

Vicenza ainda vive na mesma casa que comprou com Benjamin. Não se mudou de lá uma vez. E, de fato essa casa tem muita história para contar. Além de Modesto e Iris, ela teve mais seis filhos e todos foram criados nessa casa.

“Essa casa é muito especial para mim”, diz ela. “Aqui vivi minha vida inteira com Benjamin [hoje falecido]  e criei todos os meus filhos. Fora meus netos que foram criados aqui também. Essa casa é muito especial. Ela tem um preço inestimável”, conta ela emocionada.

Dessa maneira, Vicenza Protta vive atualmente no auge de seus 94 anos de idade e não perdeu seu espírito rebelde. Confessa que seu sonho era ser professora e se pudesse abriria uma escola. Contudo, apesar de misturar o português com o italiano, de uma coisa seus filhos e netos, especialmente as meninas compreendem bem: “a mulher tem tudo para ser mais do que uma mera dona de casa. Ela deve ser bem mais do que isso”.

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