Uma vida de tenista e suas perspectivas sobre o esporte no Brasil

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Por: Ana Luiza Menechino

Demorei algum tempo para pensar em quem seria a pessoa que eu gostaria de escrever um perfil e pudesse ir além de uma breve análise que acontece após realizar uma entrevista com alguém que o contato não é tão grande. Diversas pessoas importantes na minha vida vieram na minha mente, entre elas, o personagem dessa história: Nicolas Cavallini Menechino Carlos dos Santos.

Nicolas sempre foi uma pessoa muito admirada por mim, e que conquista diversos fãs por onde passa. O tenista profissional de Adamantina, interior de São Paulo, tem 30 anos e já vivenciou diversos momentos na carreira.

O começo da história e da paixão pelo tênis aconteceu na pequena cidade de Adamantina, com pouco mais de 30 mil habitantes. Desde criança, Nicolas gostava do esporte e tinha ambições de se tornar um jogador profissional, sonho que foi ganhando a realidade e a vida do pequeno atleta. No início, as aulas eram apenas por diversão e pela alegria que sentia quando estava em quadra. Ao longo dos anos de crescimento, começaram as disputas em torneios brasileiros e estaduais, ainda sem saber ao certo se aquilo realmente seria o que Nicolas faria para o resto da vida.

Aos 13 anos, ele foi convidado por um amigo da família para fazer teste em São Paulo e treinar na escola de tênis do Jaime Oncins, um tenista brasileiro que obteve muito sucesso e ganhou diversos torneios na história do tênis brasileiro. “O homem que me convidou sempre ia para Adamantina por causa da família da esposa e ele gostava de ir ao ATC, clube que eu treinava. Jogamos juntos algumas vezes e ele sabia dos meus resultados nos torneios, até que, aos 13 anos, ele me convidou para fazer um teste e morar em São Paulo. Chegando lá, eles gostaram do meu rendimento e eu gostei do lugar, por isso, aceitei a bolsa e a partir dai mudei para São Paulo e comecei a trabalhar para realmente me tornar um jogador profissional”, conta Nicolas.

A mudança de cidade

A transição de Adamantina, uma cidade de 30 mil habitantes e grande parte da família presente, para São Paulo, a maior cidade do país e sem os parentes ao redor, foi uma etapa difícil para o atleta. A fase de adaptação demora um tempo para acontecer e é necessário bastante trabalho psicológico para enfrentar essa mudança.

 

“A adaptação foi um pouco difícil no começo. Quando eu fui pra São Paulo, morava com dois homens de 20 anos e eu tinha 13, ainda era uma criança e eles brincavam muito comigo por causa da idade. Eu tinha medo de morar em uma cidade tão grande e longe dos meus pais. Sempre tive o sonho de ser tenista profissional, mas não sabia ao certo como fazer para me tornar um. Quando cheguei em São Paulo, eu comecei a ter noção do que eu precisava fazer para seguir no caminho porque eu morava com jogadores profissionais e convivia com atletas o dia inteiro, todos os dias. O lado bom é que, desde criança, eu tive noção da intensidade de treino e como era a rotina dos jogadores, o que me deu muita força para continuar a caminhada e seguir buscando meu sonho.Vê-los treinando e conviver com eles foi uma grande motivação para a criança que eu era chegar onde estou hoje.”.

Aos 16 anos, após diversos campeonatos nacionais e treinos, Nicolas disputou seu primeiro torneio internacional, em Santiago, no Chile, e foi campeão. Uma conquista que deu incentivo para o menino continuar jogando e buscar ampliar os horizontes para disputar coisas maiores. Com 17 anos, o atleta começou a disputar os torneios juvenis criados pela ITF (Federação Internacional de Tênis), feitos para jogadores até 18 anos. Os primeiros campeonatos aconteceram no México e Costa Rica, depois Europa e Estados Unidos. Nicolas viajou durante seus 17 e 18 anos por diversos países ao redor do mundo e disputou muitos torneios. Vitórias e derrotas que levaram Nicolas aos melhores momentos de sua carreira.

Em 2006, com seus 18 anos, o jovem atleta conquistou o torneio Eddie Herr, um dos maiores campeonatos para tenistas juvenis do mundo, disputado na Flórida, Estados Unidos. No fim daquele mesmo ano, Nicolas ficou com o vice-campeonato no torneio Orange Bowl, também um dos maiores do mundo. Com essas conquistas, o atleta terminou o ano em segundo lugar no ranking da ITF juvenil, considerado o segundo melhor jogador de tênis do mundo na categoria juvenil. Com esse resultado, Nicolas foi o melhor atleta brasileiro no ranking juvenil da modalidade na história, um feito histórico para o menino que saiu de Adamantina aos 13 anos para jogar em São Paulo e conquistou o topo do esporte aos 18.

Com tamanho sucesso no juvenil, entre diversos torneios e viagens, Nicolas passou grande tempo sem visitar a família e enfrentou por diversas vezes a saudade durante sua juventude. Nessa parte da história, lembro de passar diversos natais e viradas de ano perguntando aos meus pais porquê o Nicolas não estava lá e quando o veria de novo, e eles sempre respondiam que não sabiam e que ele não podia estar lá pois tinha torneios para disputar. Os campeonatos de tênis, diferentemente do futebol, começam em janeiro, muitos alguns dias após a virada do ano, por isso, grande parte dos atletas não passa essas datas comemorativas com a família, ou vai embora no dia seguinte para começar a preparação e viajar.

“As expectativas que eu tinha com os torneios da época eram muito boas. Fui ganhando confiança com os campeonatos, comecei meus 18 anos sendo vice-campeão de um torneio no México e me tornei 25 no mundo na categoria”, relembra Nicolas ao contar das épocas de juvenil. Entretanto, uma das maiores lembranças do atleta daqueles anos foi poder disputar os maiores torneios profissionais do mundo na categoria juvenil. US Open, Roland Garros e Wimbledon. Três campeonatos que são considerados os “brilhos dos olhos” de qualquer jogador de tênis e que fizeram parte da carreira de Nicolas. “Foi uma experiência incrível. Tive o prazer de treinar e conhecer os melhores jogadores profissionais do mundo, uma coisa que eu sempre via pela televisão e estar nas quadras assistindo foi algo excepcional. Com isso, eu vi que, cada vez mais, meu sonho estava se tornando real.”.

Transição para o profissional

Após diversas conquistas internacionais e sonhos alcançados, Nicolas chegou ao que considera a parte mais complicada da carreira de um atleta, a transição do juvenil para o profissional. “Considero essa parte como a mais difícil para um grande jogador juvenil. Isso porque se você for bem nessa fase, você é muito acostumado a ganhar, não pagar hotel, ter alimentação gratuita, mas quando um atleta sobe para o profissional é totalmente ao contrário. Você perde mais, não possui regalias, o nível e a intensidade dos jogos são bem mais altos, e torna tudo ainda mais difícil. A parte mental creio que seja a maior diferença entre as duas categorias, pois a experiência é um grande ponto nesse momento.”.

Apesar de tudo, o jogador explica que a passagem foi algo que ele conseguiu superar em pouco tempo e começou a se adaptar com as novas características do tênis. Após a profissionalização no esporte, Nicolas conquistou três torneios e atingiu sua melhor marca no ranking ITF de simples em 2013, ficando em 457 do mundo. Já no ranking de duplas, Nicolas teve a melhor posição em 2011, sendo 349 do mundo.

“Acho que se eu pudesse escolher os melhores momentos da minha carreira creio que seriam esses três futures que eu ganhei como jogador profissional e quando eu terminei como segundo melhor do mundo na categoria juvenil, foram momentos realmente muito importantes para mim.”.

Em relação aos momentos de dificuldade da sua carreira, o atleta coloca sua lesão em 2009 como a mais complicada. “Fiquei um ano parado, sem jogar torneios e treinar, um acontecimento que é muito difícil para qualquer atleta. O momento da lesão é o mais triste da carreira de um jogador pois o que a grande maioria dos esportistas gostam é de estar em atividade e fazendo o que amam. No meu caso, eu gosto de estar em quadra, mesmo se for para perder. É complicado ficar afastado do que eu amo, sem poder treinar e evoluir.”, explica.

O tênis no Brasil

Atualmente, Nicolas mora e treina em São Carlos e disputa diversos torneios brasileiros e internacionais, principalmente na América do Sul. Com 30 anos, o atleta vê o tênis brasileiro em um momento muito complicado e sem apoio. “A Confederação, o Governo e demais órgãos brasileiros estão apoiando os atletas cada vez menos e para ter um jogador de sucesso, é necessário ter investimento. Os patrocinadores e a população, em um geral, no Brasil são muito imediatistas. Um menino que começa a treinar com 13 anos e com 16/18 ganha diversos campeonatos, mas não tem o mesmo desempenho no profissional é visto como decepção, o que desanima muito o atleta.”, aponta o tenista.

Questionado sobre como fazer o esporte crescer no Brasil, Nicolas diz que é preciso investir na base, incentivando nas escolas para crianças de 5 e 6 anos já praticarem o tênis. “Essa modalidade é, na teoria, um esporte para a elite que pouca gente conhece, principalmente quando se fala das classes sociais com menores condições financeiras. Por isso, acredito que se você difundir o conhecimento e a importância do tênis para os alunos é possível gerar grandes frutos. O Brasil é um país com muitos talentos e a partir do momento que a pessoa estabelece contato com o esporte, é possível identificar crianças que levam jeito para poder desenvolver mais em academias e centros de treinamento”.

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