Flávio Araújo, o menino da voz

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Por: Ana Beatriz Pattoli 

O ano é 1940. O lugar é a quente cidade de Presidente Prudente, no interior do estado de São Paulo. Um menino de cinco anos caminha pela cidade, senta-se em um banco da praça principal, liga o rádio e imagina quando irá realizar seu sonho, encantar a todos com sua voz, ser cantor.

O ano é 2018. Na pacata Poços de Calda, no sul de Minas Gerais, um senhor, hoje com 84 anos, caminha, senta-se com um pouco de dificuldade, e, novamente, liga o rádio.

Entre o chiado de quem busca a estação correta, Flávio Araújo começa a relembrar todos os sonhos que realizou através dos microfones, todas as pessoas que emocionou com o dom de sua voz.

O senhor de idade não fora cantor, como sonhava quando criança, mas sua voz trouxe para os brasileiros todas as Copas do Mundo desde que começou a profissão, os gols históricos, e é claro, o mais importante deles, o milésimo do rei. Flávio Araújo é o menino cantor que se tornou locutor de rádio, como gosta de se definir, e narrou a vida.

Mineiro, leonino e ruim de bola, como confessa dando risada, mesmo que seja pela bola nos pés (dos outros) que escreveu sua própria história, a de um apaixonado por futebol.

Essas características poderiam definir a personalidade e a vida do radialista. Porém, a história vai mais além e com capítulos em que a voz do menino se torna a protagonista.

“Meu sonho era ser cantor. Eu gostava imensamente de serestas e fui convidado para participar de um programa que os jornalistas, radialistas da minha cidade faziam no final do ano”, relembra Flávio, compartilhando como trocou a música por gritos de gols e lances de partidas esportivas. “Fui convidado para cantar uma canção, e um dos apresentadores era o locutor esportivo da emissora. Ele me convidou para ajudá-lo, eu passei a ajudá-lo nos programas”.

Em 1950, inicia a carreira em uma rádio regional da cidade natal. Primeiramente como locutor comercial, Flávio se torna um dos maiores narradores de futebol, contrariando, de certa forma, os seus próprios desejos de criança.

Questionado sobre a paixão pelo esporte, ele confessa uma particularidade. A paixão em assistir as partidas de nada tinha a ver com o talento, ou falta deste, nos pés.

“Nunca fui bom de bola”, nesse instante, ele deixa se levar pela risada, talvez, proporcionada pelas surpresas da vida e recorda a infância: “Jogava futebol, gosto muito, sou um apreciador do futebol em si, amo o futebol, mas nunca fui um bom jogador de futebol”.

Mesmo com a confissão, Flávio não deixa o seu ‘eu menino’ passar despercebido e ser taxado como ‘ruim de bola’: “Eu fui goleiro na juventude. Participava de uma partida preliminar, o Palmeiras foi fazer um amistoso em Presidente Prudente, contra a Prudentina, em 1949, e eu era goleiro da equipe que jogava a partida preliminar”.

De volta no tempo, ele orgulha-se da partida e ainda mais do reconhecimento que recebeu após o juiz apitar o fim do confronto: “Tive uma atuação muito boa, houve inclusive a presença dos jogadores, que estavam situados na linha ao lado do campo, esperando a oportunidade do jogo principal, e o Oberdan, grande goleiro do Palmeiras entrou em campo e foi me cumprimentar, então eu fui fotografado com ele e aquilo se tornou, digamos, algo que se divulgou extraordinariamente na cidade”, brinca valorizando o episódio.

Flávio Araújo entra para história do rádio brasileiro

reprodução: imagem da internet 

Após os grandes feitos na rádio do interior, Araújo migrou-se para a rádio Bandeirantes, em 1957, onde permaneceu ao longo de 25 anos.

“Em Presidente Prudente morava um irmão do Edson Leite*, e como a Bandeirantes procurava um locutor esportivo jovem, houve a indicação desse irmão, para que ele me convidasse. Quando o São Paulo foi campeão paulista em 1957, decidindo a final diante do Corinthians, e o São Paulo ganhou de três a um, a rádio Bandeirantes foi irradiar a partida e o Edson Leite me convidou para ajudá-lo. Esse foi o teste que eu fiz para ir para a Band”.

Ao comentar a trajetória na capital, Flávio faz questão de ressaltar o lugar em que firmou sua carreira e alcançou o reconhecimento que carrega até hoje por onde passa. “Vi Éder Jofre começar e terminar. Vi Pelé e terminar. Então eu vivi, realmente, a fase de ouro do esporte brasileiro”, declara empolgado por estar recordando seus passos na comunicação.

Edson Leite*, o Edson Pereira Leite, narrador esportivo do Scratch do Rádio da Bandeirantes de São Paulo, durante os anos 50 e 60, faleceu em São Paulo, no dia 22 de julho de 1983, vítima de infarto.

“Vi Éder Jofre começar e terminar. Vi Pelé e terminar. Então eu vivi, realmente, a fase de ouro do esporte brasileiro”

Foi nos microfones da rádio, na capital paulista, que Flávio narrou partidas em grandes campeonatos. Como, as Copas do Mundo de 1966, 1970, 1978, 1982. Os Campeonatos Brasileiros de 1971 à 1986 e as Copas Libertadores da América de 1960 até 1986, ano de sua aposentadoria.

Entre as lembranças da ‘época de ouro do esporte’, como ele mesmo define. Flávio gosta de destacar um gol histórico mundialmente. Pois é, entre suas grandes realizações profissionais está esta: foi com a voz de Flávio Araújo, nos microfones da rádio Bandeirantes, que Pelé se consagrou o rei do futebol, no dia 19 de novembro de 1969: O milésimo gol de Pelé.

“O milésimo gol do Pelé. Não poderia ser outro. Muito embora tenha narrado muitos e muitos gols do Pelé… Diz o Milton Neves que eu fui o que mais narrou gols do Pelé, o milésimo gol foi altamente significativo. Até porque foi verdadeiro. Muitos perseguem o milésimo gol e tentam fabricar o milésimo gol para marcar, mas o verdadeiro milésimo gol foi o do Pelé. Seria ele sem dúvida alguma aquele que eu destacaria”.

Nesse instante, se refere a alguns de seus amigos de profissão. Nomes que encontrou ao irradiar [termo que repete ao longo da entrevista, demonstrando um apreço pela palavra, que significa nada mais que narrar uma partida no rádio], mas não considera nenhum como um ícone para si mesmo. “Existiam muitos locutores esportivos de grande qualidade. Eu gostava muito tanto do Pedro Luís, como do Edson Leite, que eram os grandes narradores da ‘Bandeirantes’ na época que eu fui para lá. Mas, não poderia citar um ídolo, até porque como eu disse no princípio, meu sonho era ser cantor, não era ser locutor esportivo”.

O grito do Gol para Flávio Araújo

Com ternura no olhar, um sorriso de canto, lembranças em volta. E uma forma ‘gostosa’ de enxergar a vida e a profissão. O narrador define o que ocorre internamente naquele milésimo de segundo, quando a bola entra na rede e o estádio vibra.

O que é o gol para um locutor?

“É o dó de peito dos grandes cantores de ópera, é o momento máximo de uma transmissão, vamos dizer, é o momento do beijo do mocinho e da mocinha na novela, é o gol. O futebol sem gol não tem graça. Você irradia uma partida, por melhor que ela seja, se ela termina zero a zero você sai frustrado, você acha que seu trabalho não teve completo se não houve a narração de um gol”.

Questionado se saia chateada ao encerrar uma partida sem o tão esperado ‘score’, ele não reluta ao responder por todos de sua profissão: “qualquer locutor esportivo não gosta de irradiar jogo de zero a zero”.

No momento em que ele se mostra mais íntimo à conversa, a missão de descrever o ‘Gol’ em uma palavra é tão difícil como marcar um em si. A voz muda e lá vai Flávio Araújo contar sobre seu amor: “Futebol sem gol é igual macarrão sem queijo, futebol sem gol é igual amor sem beijo, é exatamente isso, é o momento da emoção, é o momento pelo qual o futebol existe”.

Uma palavra? Seria injusto para quem fala tantas e tão rapidamente usar somente uma para descrever o momento máximo de emoção no futebol.

Quis o irônico destino que o menino que sonhava em ser cantor, usasse de sua voz para emocionar tantas pessoas irradiando. Hoje Flávio poupa a voz e se limita a pedir um bom ‘pingado’ na padaria da esquina, pouco mais de 100 metros de sua casa, onde guarda suas memórias.

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