Um retrato por conta dela

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Foto por Alessandra Monterastelli

Por Alessandra Monterastelli 

Ela anda devagar até a cadeira. Está com uma calça social e uma camisa de tecido fino, o cabelo sempre bem armado e penteado; foi sempre assim, desde que eu era pequena e a via chegar com a mala vermelha na mão, penso. As lembranças dessa época são flashes, muitos sempre de suas chegadas; curiosamente, nenhum de suas partidas. Agora o cabelo grosso e preto, que tantas vezes a observei pentear, está completamente branco. Me vem em mente o episódio que sempre narra quando uso o forno: certa vez, quando era criança, ao abrir o forno de sua mãe, aquele explodiu em sua cara, queimando-lhe todo o cabelo e as sobrancelhas. 

Senta, cruza as pernas, apoia os braços nos braços da cadeira. Fala com prazer em contar; seria simples deixar de fazer perguntas e esperar que ela conduzisse a conversa sozinha. Às vezes troca palavras em português por palavras em italiano; às vezes usa expressões em italiano dentro de uma narração em português. Esse último caso costuma acontecer quando há certa emoção ou humor no que está sendo dito. 

No começo, o sopro no coração que a acompanha desde o nascimento lhe causa um pouco de falta de ar, consequência da caminhada agitada até a cadeira. Não que essa condição a tenha impedido de fumar dos 15 aos 40 anos. Os grandes olhos verdes, tão elogiados durante toda uma vida, estão tímidos. Sentimento que não dura muito. 

“Vó, conta sua história com detalhes, como se eu não soubesse de nada”.

“Fala pra eles que eu não tenho vergonha de nada”.

“Vou te chamar de Catarina”. Ela acha graça.

Seu  pai, José, chegou no Brasil em 1915. Seu irmão, Cesare, era pintor e já havia chegado ao Brasil, e por isso decidiu que venderia material artístico. No começo, vendia algumas tintas e pigmentos no interior de São Paulo, até que conseguiu criar um pequeno estabelecimento no centro da capital. Mais tarde, esta se tornaria a Michelangelo, uma loja grande.

Antes de vir ao Brasil, a família paterna vivia em Irsina, na Basilicata, região de campo e pobre da Itália. A Unificação Italiana, ocorrida entre 1815 e 1870, foi encabeçada principalmente pelo norte industrializado do país, deixando o sul agrário em certa desvantagem. A avó Caterina, que mais tarde seria inspiração para o nome de Catarina, tinha três filhos. Um dia, ela chamou todos em casa e disse: dovete andare tutti in America. Il futuro è li; qui arriva la guerra – “vocês vão todos para a América. Lá está o futuro; aqui está chegando a guerra”. E assim foram todos. José foi o último, e o primeiro foi Cesare, o pintor com a fixação de pintar o Brasil.

“Era uma mulher muito forte”, diz Catarina sobre a avó, de quem herdou o nome, mas nunca conheceu pessoalmente. “E pra aquela época, muita avançada: foi a única que chamou os três filhos em casa e li ha buttatto fuori di casa” – “os jogou pra fora de casa”. Os filhos pediram para que a mãe os acompanhasse, mas ela se recusou. Io rimango qui – “eu vou ficar aqui”. E assim ficou durante as duas guerras; queria morrer na terra onde nasceu.

O mundo globalizado de hoje promete reduzir as distância — ainda que a desigualdade as acentue, mas Catarina lembra que “para eles, naquela época, vir para a América era outro mundo, não era como hoje”. Na Primeira Guerra, antes de vir para o Brasil, José foi fiscal na fronteira com a Áustria. José era Giuseppe, mas teve que mudar o nome durante a Segunda Guerra, devido a proibição de nomes italianos em território brasileiro como represália ao fascismo de Mussolini.

Enquanto a família do pai era uma família campesina simples do sul humilde italiano, a família da mãe era de ex-nobres, que havia muito tempo possuído terras, mas perderam tudo. “Eles andavam com anel do brasão da família”, e ri, gozando. O seu avô, pai da mãe de Catarina, era o único anarquista em uma família pró-monarquia que apoiou o fascismo. O príncipe Vittorio Emmanuele III, filho de Vittorio Emmanuele II — entusiasta da Unificação do país — colocou, em 1922, Benito Mussolini como encarregado de criar um novo governo e apoiou abertamente o regime fascista. “Mas meu avô, o pai da minha mãe, era anarquista”, ressalta.

“Eram fascistas roxos”, diz sobre a família da mãe, com a voz espantada e carregada de interesse. Certa vez, em uma viagem para conhecer o país de seus pais, conheceu o tio Italo, “um completo louco”, que seria o seu guia. “Ele nos levou até o Monte Pinciano, em Roma, perto da Praça do Povo, onde Mussolini costumava fazer seus discursos. Tava cheio de gente. Então começou a gritar na praça principal: ‘Popolo d’Italia!’ (frase com que Mussolini se dirigia ao povo italiano). Eu morri de vergonha, quis sair correndo”.

Tinha também a tia Lucia, irmã de sua mãe. Quando todos os filhos estavam embarcando para a América, ela se negou a ir. Foi escondida até o porto, sem que a família a visse. “Ela me contou que ficou atrás de uma coluna e fez um pianto enorme – ’grande choradeira’, mas não teve coragem de se despedir de toda a família”. Rapidamente ela emenda outro episódio envolvendo a tia, para lembrar que ela tinha muita coragem. De fato, não se pode ter coragem para tudo. Lucia morou mais de um mês em um galinheiro, quando ocorriam os bombardeios; durante algumas horas ela ficava de pé vigiando, enquanto os outros dormiam, e depois revezavam. “Quando sua mãe morreu, as irmãs não avisaram. Ela ficou muito brava: non sono andata in Brasile, ma la mamma la adoravo – ‘não fui para o Brasil, mas eu adorava a mamãe’. Ela só veio quando soube que o pai estava doente; quando o viu, se ajoelhou e desatou a chorar”. 

Pergunto o que ela acha da atual crise dos refugiados e das milhares de pessoas que estão migrando devido a situação de seus países. “Naquela época vieram da Itália quase sem problema nenhum. Chegaram aqui e aqueles que aqui estavam foram dando dicas de como ganhar a vida no Brasil. Hoje em dia quem vem não tem isso”. Quando soube que o atual governo de extrema-direita italiano impediu barcos de imigrantes provindos da África de entrarem no país, andou, como de costume, devagar até a mesa para jantar. Sentou-se e olhou para o prato: “a pouca vergonha de deixar gente morrer afogada ninguém tem”.

Conta que seu pai, José, não falava muito de política e nem de religião, apesar de ir a igreja e levar os filhos. “Ele só respeitava. Depois que meu irmão mais velho, o Miguel, seguiu a carreira política, meu pai nunca mais tocou no assunto. Apenas perguntou se o Miguel tinha certeza se era isso que queria, pois ele não deveria fazer qualquer coisa contra le regole –“as regas” e contra aquilo que havia aprendido dentro de casa”. O lar e a família parecem pontos centrais de sua narração, algo que ela herdou, provavelmente, de sua casa. Na opinião do seu pai, um mau político “avacalharia” com tudo de bom que já havia sido feito, e ele não queria que seu filho fosse responsável por isso. Miguel, na verdade, queria ser “corredor de automóvel”, isto é, piloto de fórmula 1, quando era criança. “Meu pai dizia: che cosa è? Non ho capito bene – “o que? Não entendi”. O assunto passou e o filho acabou se tornando prefeito de São Paulo entre 1973 e 1975.

Falavam só italiano dentro de casa. Lembra-se do pai tocando tarantellas, típicas músicas do sul da Itália, no piano. “Sei arranhar alguma coisa de ouvido por causa do meu pai”. Se irrita quando não lembra do tom das notas. Apesar de serem todos do sul, onde o dialeto da língua é forte, seu pai “odiava” que falassem em dialeto. “Tínhamos que falar o italiano que ele considerava o correto, porque daí todos entenderiam”.

Não tinha muitas conversas íntimas com o pai, homem bastante reservado; apesar da distância, aprendeu a observá-lo e admirá-lo pela maneira que ele se comportava. Não falava muito, mas se fazia presente. Falar do pai é um assunto único, que merece concentração para vasculhar na memória recordações que, ao serem contadas, construam o mosaico de uma personalidade marcante a sua maneira.

Tia Angela, irmã da mãe, não requer concentração para surgir na conversa; é citada o tempo todo, mesmo quando não é o assunto principal. Foi a mais próxima de Catarina daquela geração. “Ela era muito fina”, conta, por causa de todas as normas aprendidas dentro da família “ex-nobre”; “mas ela tirava sarro de tudo isso, de escondido”. Brutta fine, Caterina, brutta fine – “final ruim”. Era a única que falava sobre sexo, por exemplo, em uma época que o assunto era tabu. “Quando voltei de uma viagem que fiz com meu primeiro namorado após a morte do meu marido, ela sentou na beirada da minha cama, toda animada, e disse: dai, Caterina, dimmi come è andata. Raccontami tutto! – “vai, Catarina, me conta como foi. Diz tudo!”. É lembrada especialmente pelos seus ensinamentos disfarçados de deboche. La vita, la devi prendere come viene- “a vida deve ser agarrada como é”. “Nunca vi tantos jovens chorando como vi no enterro da Tia Angela”. Quandotia Angela já estava doente e sabia que não lhe restava muito tempo, estava “tranquilíssima”. Chamou Claudia, filha mais nova de Caterina, e pediu que pegasse o dinheiro que estava em sua carteira e doasse tudo para o pão de Santo Antonio. “Ela morreu na minha mão”. Conta de sua tia que não teve filhos com um carinho que parece ser a moeda de troca por todo os cuidados e a companhia dentro de uma casa silenciosa em termos de intimidade; lembrá-la e citá-la parece ser a melhor forma de agradecer. Seu quarto, hoje, é repleto de fotografias; daqueles que vieram antes, e daqueles que vieram depois dela. Guarda os cachimbos do pai e do marido; desse último, guarda também a agenda e carteira, exatamente como as deixou há cinquenta anos atrás. Foi com ela que aprendi a fazer álbuns de fotografia, e ter uma caixa de lembranças com objetos que, se vistos por terceiros, não fazem tanto sentido.

Foi Tia Angela e a Nonna (mãe de Catarina), fã de feijoada, pastel de feira e parques de diversões montados em temporada no litoral, que ajudaram a cuidar de suas filhas depois que seu marido faleceu. Nonna era um pouco mais séria do que Angela; quando estava de mau-humor, vivia falando pela casa que estava tutto storto – “tudo torto”. Enquanto Catarina trabalhava, as crianças ficavam em casa com a avó e a tia-avó. Agora que ela está mais velha, parece ser uma mistura de todos aqueles que lembra.

Conheceu Agostinho em um baile. Ele pediu permissão a José para que pudesse dançar com sua filha. Depois do evento, não se viram durante muito tempo.

Algum tempo depois, surgiram boatos de que um aluno conseguira tirar dez com a professora de matemática mais rígida do colégio. Curiosa, Catarina foi ver quem era.

“Nos reconhecemos, dai foi”. Tinham dezesseis anos.

Catarina quis ser atriz, antes de fazer pedagogia. “Me chamaram algumas vezes pra fazer testes, e eu fiz”. Mas o irmão a repreendeu. “Ele dizia assim pra mim: ‘você, no meio das putas?!’. Ele dizia isso, mas provavelmente ele se relacionava com elas”, contesta, sem deixar de soltar uma risada curta. No final, fez alguns testes, mas preferiu seguir a área de pedagogia. Acabou por fazer também um curso de enfermagem, administrado por freiras. Atuavam em comunidades na periferia de São Paulo, cuidando de crianças enquanto as mães iam trabalhar como domésticas em casas no centro. Talvez uma dessas casas tenha sido a sua. “Foi bom, mas não adiantou muito. Isso deveria ser feito em grande escala”, está cética. “Eu tinha dinheiro, em vez de ficar em casa vendo televisão dovevo fare qualcosa – eu deveria fazer alguma coisa”, comenta como que rempreendendo a si mesma, em tom sóbrio.

Me revolto ao saber da repreensão do irmão, que escolheu sua carreira mas não queria deixar a irmã tomar seus caminhos. Quando questionei se ela não se incomodou ou sentiu raiva, ela riu. “Uma vez o Miguel precisava jantar com o Jânio Quadros, que só pensava em beber, un ubriaco proprio – um bêbado mesmo”; o irmão já estava tomando a frente do encontro, quando Jânio teria dito: “chame sua irmã”. Catarina tem uma expressão segura no rosto; na verdade, não se importa muito com o reconhecimento de Jânio Quadros, nem com as opiniões de seu falecido irmão.

Estava inserida em um contexto, mas parece que não deixava de observá-lo antes de adentrar nele; talvez nunca tenha aderido 100%. Participava com um misto de encanto e vaidade, mas também deboche e ironia. 

Agostinho era muito ciumento: “eu tinha que dar atenção exclusivamente pra ele”. “Ele era presidente do Centro Acadêmico, achava que tinha que ser o astro”, diz, em tom irônico; sem deixar de sentir carinho.

“Ele ficava bravo porque eu pegava a chave do carro dele de escondido, e saia pela cidade. Às vezes brigávamos dentro do carro, eu abria a porta e saia andando. Ele era muito certinho”. Miguel interveio, dizendo para a irmã evitar “bater de frente” com o marido, mas contestar as coisas de forma sutil. Ela tentou seguir o conselho. “Eu adorava ele, no fundo queria casar com ele”.

Quando ocorreu a Batalha da Maria Antônia, em que estudantes de direita do Mackenzie entraram em conflito com estudantes de esquerda e anti-ditadura da USP e da PUC, ela estava do lado da PUC; seu irmão e seu marido, do lado do Mackenzie. “Soltavam tiros! Eu defendia a posição da PUC, mas morria de medo de perder meu noivo”.

Ela estava presente quando a PUC foi invadida pelos militares, que tinham ordens para repreender e prender os estudantes. Em determinado momento, ela e suas colegas deveriam escolher: fugir ou apanhar.  Ela começa a gesticular com mais velocidade enquanto fala- não que tenha parado de mexer as mãos em algum momento da narrativa. “Eu disse pra minha amiga para pularmos a janela e fugirmos. Ela disse que não queria pela causa, então disse que a causa iria matar meus pais do coração!”. Ajudou a colega a pular a janela, com certa dificuldade; “ela era muito gorda”, conta, rindo da situação que “apesar de tensa, não deixava de ser cômica”. Tem facilidade para o deboche, especialmente quando se trata de situações pessoais. Lembro de quando repetia, em situações difíceis, que as vezes é necessário ver a vida como uma piada; e de sua facilidade para reconhecer o nosso ridículo. 

Durante muitos anos, escondeu livros proibidos pelo regime em sua casa. “Eu era de esquerda porque eu era contra tudo o que estava acontecendo. Pessoas sumiam, ninguém sabia onde iam parar”, diz enquanto movimenta a mão esquerda no ar.

“Imagina eu, apoiar o Geisel, um general alemão? Eu não”, e deixa a mão esquerda cair no braço da cadeira.

Emenda contando que, nesses dias, estava em um lugar e, por coincidência, o candidato do Partido Novo, João Amoedo, estava presente. Todos começaram a falar para que fossem conversar com o candidato, explicando-lhe quem era e o que propunha. Catarina respondeu prontamente de sobressalto, cena que agora conta com um misto de deboche e graça. “Eu quero sair daqui correndo! Não quero nem cumprimentar esse Amoedo. Alguém me tira daqui”.

Em 1967, já com duas filhas, uma de dois anos e a outra de 2 meses, Agostinho faleceu. Foi vítima de uma doença que portava desde criança, e que agora havia atingido o coração. Quando aconteceu, a filha mais velha estava dormindo de mãos dadas com ele; Catarina foi quem as soltou, para que os paramédicos pudessem colocá-lo na ambulância. “Deus me livre, foi o período mais difícil da minha vida”. Ela tinha vinte e cinco anos. La devi prendere come viene.

Encheu a casa de fotos do marido, para que as filhas soubessem quem era o pai e sentissem sua presença apesar de sua ausência. Vestiu preto, cor do luto, pelos próximos meses; entrou de roupas no chuveiro algumas vezes. Pouco depois a sogra veio lhe dizer que ela deveria tomar o lugar do marido como sócia na fábrica de estopa, tecido usado para fabricar sacos de pano. No mesmo ano, a sogra também morreu. O irmão do marido, agora seu sócio, perdeu toda a família no mesmo ano. “Ele olhava pela janela e se tinha um carrinho com melancias na rua, de um vendedor de frutas, ele via cabeças de bebês”. Mais tarde, ele se recuperou. “Sabe, a vida tem que ser vivida”, comenta Catarina.

Para tomar o posto como sócia na empresa da família do marido, entrou em uma faculdade pequena de administração. Era a única mulher da sala; “todos os meninos ficavam de camisa aberta; o professor quando me viu disse que eu sairia de lá pior do que entrei, e me disse para ir para outro curso, um de treinamento”. Saiu pouco depois; o novo curso deu certo, e de novo era a única mulher.

Chegou na fábrica no primeiro dia de luvas, moda entre as mulheres de classe média alta na época. “Até hoje quando penso nisso me sinto ridícula. Tirei as luvas”. Deveria falar com sessenta trabalhadores. “Pedi pra eles me ajudarem; que me ensinassem sobre as máquinas, sobre como funcionava a fábrica”. Como primeira mulher a trabalhar na fábrica, começou a organizar eventos para os filhos e filhas dos trabalhadores; pensava nas crianças que ela também tinha em casa. “Fizemos um pequeno campo de futebol, e tinham eventos para dar aos filhos dos trabalhadores bolas de seus times favoritos. Eu pedia para que minhas filhas, na época muito crianças, entregassem. Elas tinham que entender a realidade do mundo em que viviam, e conviver com todos que nele habitam. Não podiam querer saber só do ciclo social delas, è no è”, diz, como que me questionando.

Ia para a fábrica pela manhã e à tarde entrava no escritório da loja de material artístico, agora de sua família. Quando chegou, não tinha banheiro para mulheres. Tio Nicolino, irmão do pai, queria que marcasse o médico para as filhas de sábado, para que não perdesse horário de serviço durante a semana. “Com o tempo, ele foi amolecendo. Mas minhas filhas morriam de raiva dele”.

Mudo de assunto, mas ela ignora e volta ao que estávamos falando: “homem e mulher trabalhando junto não dá”, fico tensa, esperando o término da frase. “As mulheres são bem mais inteligentes”.

Conta que o ar condicionado do escritório, que ficava do lado de fora, sumia em determinada época. Certo dia, um policial trouxe um homem até o local, segurando-o com violência pela camisa: “peguei ele roubando o ar. Rouba e revende”. “Eu disse ao policial, ‘e o que eu tenho a ver com isso? Se está com ele, agora é dele. Por que vai prende-lo?'”. 

Mais tarde a fábrica do marido fechou. Muitos anos depois, quando José morreu, os irmãos deixaram a administração da Michelangelo apenas em suas mãos. Dedicou a vida à loja do pai. Nos últimos anos do negócio de família, Catarina já estava com sessenta e poucos anos. “Vinham muitos artistas na loja, tomar o café que oferecíamos, e para conversar”. Ela se tornou uma figura de destaque entre os frequentadores devido ao seu carisma, suas falas polêmicas e sua disponibilidade. Conta de quando recebeu uma ligação da filha sobre um artista que havia feito um grafite incrível no centro; “sai correndo do escritório e fui ver. Fui atrás dele, e ele fez sua primeira exposição na loja”. Ela estava falando de Eduardo Kobra, hoje reconhecido artista de rua em galerias do mundo todo.

Devido ao aumento dos preços dos aluguéis, a loja fechou em 2013. Mais um ciclo se fechou; outros tempos guardam essa memória, nascida de outra geração. Agora, Catarina lamenta que sente muita falta de trabalhar; vado penzando – vou pensando, “naquilo que eu podia estar fazendo”… Tutto per conto mio – tudo por minha conta.

Sem hesitar, sabe o que puxou de seus pais, mas especificamente de José: “me dou bem com todo mundo”. “Nunca ouvi meu pai falar mal de alguém”. Reflete se não é uma vantagem ou uma fuga sua. Não chega a uma conclusão. Termina rindo. 

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