O pedaço da Pérsia no mundo

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Por Luiza Vilela.

O ano é 1969. Na cidade de Rasht, no norte do Irã, dia 22 de novembro, nasce Marjane Ebihamis, mais conhecida hoje por seu nome artístico: Marjane Satrapi. Escritora, quadrinista, ilustradora, roteirista e cineasta.

Avançando dez anos mais tarde, em Teerã, capital da República Islâmica do Irã (a antiga Pérsia), Marjane vive com os pais. Em 1979, há conflito armado durante a Revolução Iraniana, ao comando de aiatolá Ruhollah Khomeini, para derrubar a monarquia autocrática do Irã, governado pelo Xá Mohammad Reza Pahlevi.

Trecho de Persépolis, por Marjane Satrapi. Conflito durante a Revolução Iraniana.

Em 1979, Marjane tem dez anos. E, com dez anos, vive as mudanças drásticas em seu país, controlado por um regime xiita, que resultam, mais tarde, no apogeu de sua vida literária. Hoje, é uma mulher de 48 anos, cabelos escuros, olhos pretos e uma característica pinta no nariz, posicionada do lado direito do rosto. É reconhecida mundialmente como a primeira mulher iraniana a escrever uma história em quadrinhos, cujo nome é Persépolis (antiga capital do império persa). É também reconhecida como ícone feminista e profundamente admirada na literatura mundial em quadrinhos.

Marjane Satrapi (ou Marji, para os íntimos), bisneta de um imperador de seu país de origem, vivenciou a revolução iraniana e as trágicas consequências de um regime xiita até completar 24 anos e se mudar para Paris, capital francesa, onde ainda reside. Foi a junção de suas experiências que resultou em Persépolis, sua obra mais famosa e uma biografia em quadrinhos, publicada em 1994, na França. A obra, de 346 páginas e editada pela Companhia das Letras, no Brasil, é carregada de simbologismo, quadros impactantes e uma aula de História sobre a realidade iraniana nos anos 1980 e 1990. Numa obra toda em preto e branco e com traços pesados e escuros, Marjane relata a trágica passagem de um país posicionado sobre cadáveres das milhares de pessoas que morreram durante a revolução e o a instalação da república.

Persépolis foi adaptado para o mundo cinematográfico; a animação estreou em 2007, no festival de Cannes, e recebeu premio do júri. Em 2008, foi indicada ao óscar na categoria de melhor filme de animação.

Do período da Revolução Iraniana à instauração do Regime Xiita teocrático de aiatolá Ruhollah Khomeini, Marji passou da infância para a vida adulta. Ainda criança, viu-se obrigada a usar o véu no liceu francês de Teerã, onde estudou até a adolescência. Acompanhou de perto os protestos da Revolução e, por ter pais estudiosos e politizados, teve uma educação muito rica, baseada na tradição da cultura persa, em alguns valores ocidentais e com o pensamento político marxista, voltado à esquerda.

Quadro de Persépolis, por Marjane Satrapi.

A ligação de Marjane com os pais é memorável, e grande influência pessoal dentro de suas obras. Em entrevista, destaca que a mãe foi um grande incentivo, desde jovem, à independência e aos valores feministas: “Quando eu era criança, minha mãe costumava me dizer o tempo todo: “Oh, você nunca pode contar com sua aparência; conte com sua inteligência. Não ligo se você casar ou não. Quero que estude e se torne economicamente independente”. Essa ligação íntima e inspiradora se faz muito presente em sua personalidade, fato que Marjane diz ser parte de sua personalidade desde pequena.

A relação próxima com a família também se desenvolveu com a avó, parte fundamental de sua vida. Em um trecho de Persépolis, Marji narra uma passagem com ela durante a adolescência sobre uma de suas lembranças mais presentes:

Persépolis, por Marjane Satrapi. Pág. 153.

Temendo perecer em meio ao começo da República Islâmica, os filhos de Teerã são enviados ao ocidente. Não foi diferente com Marjane: aos 14 anos, foi enviada à Áustria, onde passou a adolescência distante da família, e farta de muitas novidades, seja nos costumes, comidas, pessoas e residências. A troca de casas ao longo do período no exterior é extremamente marcada pelo preconceito aos árabes e à falta de conhecimento da cultura iraniana.

A facilidade com o francês — devido à formação no liceu, em Teerã —, foi o ponto chave para a convivência e as novas experiências no exterior. Foi desse período fora de seu país de origem de Marji teve acesso à cultura ocidental, além de passar pelas primeiras mudanças da infância para adolescência e para a vida adulta: os primeiros namorados, os novos amigos, a dificuldade com a independência adulta, um conflito interno entre ser estrangeira num país estrangeiro e também no próprio país de origem.

Trecho de Persépolis, pag. 191.

Em entrevista à Vogue, ela afirma que as pessoas ocidentais não tem conhecimento do que se passa no Irã, além do nítido preconceito com os árabes:

“Outra vez, teve essa mulher nos EUA que me ligou e disse, ‘Oh, eu vi sua foto; você nem parece tão mal.’ E eu perguntei, ‘O que você quer dizer com ‘nem’?’ E ela disse. ‘Bom, você sabe…’ Então eu perguntei pra ela: ‘Você acha que todos parecemos com macacos?’ e ela disse ‘Sim, sinceramente’”.

Trecho Persépolis, pág. 199

Quando se vive em meio a uma ditadura tão extrema quanto Marjane viveu no Irã, é comum ter mais apreço pela liberdade. Marji  destaca parte da sua relação com o ocidente como fatores fundamentais para experimentação, acesso, à possibilidades e sobre as diferentes perspectivas de liberdade. Ela prioriza que é necessário ser livre, independente da falta de direitos e das dificuldades:

“Eu vivi em uma ditadura. Sabe, tudo era banido! Eu era menos livre na minha cabeça? Não. Me tornei uma pessoa estúpida? Não. Porque não importa o quanto eles olhassem para mim, eles não podiam entrar na minha cabeça. Isso pertence a mim. E está sob o meu controle, se eu decidir assim. Eu posso decidir se treino isso — é como um músculo. Se você não o usa, ele encolhe, e se você usá-lo, ele cresce. Só depende de nós.”

Após uma rica, mas traumática experiência de quatro anos no exterior — que termina quando Marjane passa mais de dois meses dormindo nas ruas da Áustria em pleno inverno — , ela decide voltar a sua terra natal, mesmo que isso significasse a perda de seus direitos.

Quadro de Persépolis, pag. 247

Apesar da repressão imposta pelos religiosos ser mal vista em Teerã por parte da população, Marjane se viu muito mais impactada com as mudanças que aconteceram enquanto estivera fora. Uma passagem marcante de sua vida, muito bem retratada no livro, é a da volta à cidade Natal, quando Marjane sai para rever as ruas de Teerã, quatro anos após sua partida. A guerra com o Iraque e o regime teocrático tinham mudado os nomes das ruas, e outdoors com rostos de homens mortos preenchiam os muros e a paisagem da capital iraniana, de um país agora baseado em mártires. Mesmo assim, participava de “eventos proibidos” em seu país. O uso obrigatório do véu, andar na rua com um rapaz que não fosse irmão ou pai já eram motivos suficientes para parar na cadeia e passar por acareação, podendo resultar até mesmo em castigos físicos, então era preciso tomar cuidado.

Trecho Persépolis, por Marjane Satrapi.

Um pouco depois de sua volta, Marjane decide estudar artes cênicas, e passa por conflitos com imposições do governo na universidade. E a partir daí que se revela uma mulher ainda mais a frente de seu tempo, quando instaura mudanças nos uniformes da faculdade e luta, mesmo com a imensa repressão ditatorial, pelos direitos das mulheres. Ela critica o machismo dentro da religião no Irã, do uso das roupas e do abuso de autoridade dos mantenedores da ordem islâmica.

Em Persépolis, Marjane termina sua história com 24 anos, e divorciada do primeiro casamento, quando volta para o exterior para residir na França. Outras obras importantes deram destaque a sua carreira, mas nenhuma que seja tão profunda e leal quanto Persépolis.

Em entrevista recente à Vogue, Marjane ressalta a dificuldade das mulheres dentro do Irã:

“De acordo com a lei, nós tínhamos muito mais liberdade porque as mulheres podiam, por exemplo, pedir divórcio. Mas quando uma mulher não tem educação e não é economicamente independente, você pode ter todos os direitos ao divórcio e isso não faz uma grande diferença. No fim do dia, sabe, se você tem 3 filhos, sem educação, sem emprego – o que você faz? Você não se divorcia; você precisa ficar com o mesmo idiota a sua vida toda!”.

Ainda engajada nos movimentos feministas, Marji relata que a cultura machista não vem apenas da religião: “O inimigo da democracia não é uma pessoa. O inimigo da democracia é a cultura patriarcal. Como com a família, onde o pai decide e tem a última palavra, então um líder masculino é o pai da nação.” Quando questionada sobre a cultura machista ocidental, Marjane destaca o longo caminho que ainda precisa ser percorrido:

“Eu acho que a situação para as mulheres ocidentais, é claro, é mil vezes melhor, por isso vim morar no Ocidente. Aqui eu posso tomar decisões por mim mesma. Mas ao mesmo tempo, estamos longe de sermos iguais. As mulheres ainda são usadas.  Como você usa alguma coisa; somos objetos. E eu não sei porque, em todos os filmes e outras mídias, mostramos bundas, peitos e tudo mais. Porque não podemos ver um par de bolas?”.

Trecho Persépolis, por Marjane Satrapi.

Marjane também destaca como foi o processo de escrever Persépolis. Além de uma autobiografia, é importante ressaltar a obra como uma abordagem sobre a história da revolução iraniana e o duro regime teocrático que se instalou depois dela.

“Eu não tinha outra maneira de escrever minha história. Eu não podia dizer do nada, “Oh, essa é uma análise do que aconteceu nos anos 70, 80 e 90,” porque eu não sou uma historiadora ou uma política. Sou uma pessoa que nasceu em um certo lugar, em um certo tempo, e posso não ter certeza de muitas coisas, mas tenho certeza do que eu vivi. Eu sei disso. Então eu tive que criar tudo de um ponto de vista pessoal, de outra forma seria chato, uma pessoa anônima. Pessoas que te dizem “você sabe.” Eu não sei; Só sei o que eu vivi. Então tentei entender e descrever minha experiência, o que foi importante porque as pessoas sabem bem pouco”.

Marjane Satrapi é atemporal. É um exemplo de mulher que está a frente de seu tempo. De todos os tempos. Marjane Satrapi é cultura, é vivência, é tudo o que representa a literatura moderna, que mistura a linguagem verbal e não verbal aos maiores sentimentos do leitor: a empatia, a reflexão interna e, no caso da autora que aqui escreve, à eterna admiração.

Marjane Satrapi

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