Todo o brilho de Sol

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

Por Victória Marques

Solange Siquerolli (arquivo pessoal)

Tem gente que precisa dar um duro danado para ser notado. No palco, como na vida, as gotas de suor derramadas que existem por trás de um sorriso, não podem ser vistas, mas são parte essencial da trajetória do artista e responsáveis por sua chegada aquele local. O brilho, tal como na física, não é estável e varia de corpo para corpo. Sol – tal como o astro – não é um corpo iluminado, mas fonte de luz.

Solange Siquerolli recebeu uma voz pequena de soprano liggero* e um amor imenso pela música. Em um país que não costuma valorizar popularmente esse tipo de timbre, teve o privilégio de poder consagrar esse sentimento no canto erudito. Estudo árduo, de difícil acesso e de restrito reconhecimento no Brasil. Cantores líricos não fazem sucesso da noite para o dia, porque é necessário o trabalho vocal de uma vida para atingir a perfeição.

Vê-la calculando a hora que deve passar o bilhete único na catraca do ônibus para dar tempo de reutiliza-lo sem pagar uma nova passagem parece cômico. Hábito de alguém que sabe transitar São Paulo de transporte público muito bem. Contrastante com os personagens elegantíssimos que interpretou durante anos nos palcos. A nobreza de alguns vem de berço, a de outros, vem da alma.

Aliás, as dualidades fazem parte da personalidade de Sol. Há cerca de dois meses, o público do teatro Paulo Eiró teve o prazer de recebe-la, no auge dos seus 57 bem vividos anos, para interpretar O Brindisi (La Traviata). Mais uma vez deu vida à personalidade marcante de Violetta, papel pelo qual ganhou o primeiro lugar e o prêmio de Melhor Intérprete de Verdi** no concurso Maria Calas quando mais jovem. Particularmente esplendorosa ao ainda atingir a nota final (um Ré6***) sem jamais ter feito uma reposição hormonal. Privilégio para poucas cantoras.

Fora o talento, estava uma lady no palco. Vestido longo, penteado, maquiagem dignos de uma produção teatral. Que produção? Ela foi quem se montou. Aprendeu tudo na noite anterior, no Youtube. Retocou a raiz do cabelo, que costuma estar sempre por fazer, com rímel marrom. Outra dica valiosa dos tutoriais.

Apresentação no Teatro Paulo Eiró (Ofisa)

Sua forma de agradecer pelos presentes divinos também é por meio da música. 15 anos na organização da Série Sacra Música e oito na regência do Nosso Coral, na capela da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Também é professora no Coro da Diocese de Santo Amaro. Panorama bem diferente da sua carreira operística. O sagrado e o profano se unem em sua vida artística.

Hoje, tão á vontade no que faz, é quase impossível imagina-la  em outro lugar, mas, há 30 anos, isso não era certeza. Teve profissões que variaram de secretária até programadora de sistemas; se formou em ciências contábeis, que nunca exerceu. Não foi fácil ir atrás do que realmente queria, muita coisa teve que dar errado até a vida se direcionar para o lugar certo.

O bom humor e espontaneidade talvez sejam resultados disso. Alguém que agradece no dia-a-dia pela sorte e pela luz que nem todos têm. “Sabe aqueles momentos que a gente fecha o olho e pensa ‘se eu morresse agora, tudo bem, iria em paz, porque vivi exatamente o que queria viver’? Então, eu já tive, foi um sentimento incrível.”

Em cena como Susanna – Le Nozze Di Figaro, 1997 (arquivo pessoal)

*Classificação vocal feminina para vozes agudas, mais leves e ágeis.

** Giuseppe Verdi (1813-1901), compositor de La Traviata.

*** Nota Ré, localizada na sexta oitava do piano.

Share.

About Author

Leave A Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.