Nem guerra entre torcidas nem paz entre classes

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Por Alessandra Monterastelli e Luiza Vilela

Apesar da aparente visão de força agora, em época de eleições e bipolaridade de ideais políticos, a luta antifascista é bem antiga. Forma de radicalismo político autoritário e nacionalista, o fascismo surgiu com mais força no início do século XX, na Itália sob ditadura de Benito Mussolini, mas suas raízes ideológicas se originam em 1880, baseadas na revolta contra o materialismo, o racionalismo, o positivismo, a sociedade burguesa e a democracia. Foi só durante a ditadura fascista de Mussolini, com a intenção de um Estado totalitário e militar, momentos depois da unificação da Itália, que o fascismo surgiu com mais força, visando regulamentarizar uma sociedade de maneira autoritária, na visão de um único líder forte, rodeado de apoiadores militares do movimento que garantam a concórdia da população e o poder de um determinado grupo social.

Com o surgimento da Primeira Guerra Mundial em 1914, a esquerda política italiana se viu dividida em como se posicionar na guerra. Os principais partidos da época, O PSI (Partido Socialista Italiano) e o Corradini, divergiram em seus ideais e foi aí que nasceu o fascismo na Itália, aderido por Mussolini, expulso do jornal Avanti!, pertencente ao PSI, por apoiar a Entente.Os ideais do então ditador, que assumiu o controle da Itália e implantou a ditadura fascista italiana, centralizaram a chamada “cidadania militar”, na qual os cidadãos estavam envolvidos a todo momento com o exército, mesmo fora do período de guerra ou de possível perigo. Houve incentivo à militarização da sociedade, escolha e recrutamento de jovens para contribuir ao movimento dos camisas negras, o exército efetivo do governo de Mussolini, a partir de 1918. Nos dois anos seguintes, os “Anos Vermelhos”, a ditadura se fez evidente quando Mussolini e os fascistas aliaram-se a empresas industriais e atacaram trabalhadores e camponeses em nome da preservação da ordem e da paz interna na Itália. Contra qualquer tipo de marxismo e a favor de uma regência da elite, os fascistas caçaram opositores ao governo e militantes da esquerda. O movimento se estendeu ao redor do mundo, na Hungria, Romênia, França, Grécia, Lituânia, Polônia, Iugoslávia, Espanha, Áustria, Holanda, Uruguai, Argentina, Chile,Venezuela e até no Brasil.

O fascismo teve seu ideal disseminado e modificado a outros regimes do globo, como foi o caso da Alemanha nazista de Adolf Hitler, o exemplo mais notório. Com base nos ideais fascistas, Hitler implantou o nazismo na década de 1930, um regime de extrema direita e totalitário, nacionalista, militarista e anti semita, apoiado pela ideia de uma raça superior composta por alemães puros e arianos. Uma outra linha do fascismo também surgiu nos países árabes: o baathismo, ideologia revolucionária que busca a unificação de todas as terras afirmadas árabes em um único Estado, que se disseminou pelo líder Saddam Hussein. Esses ideais caminharam também até a América do Sul, na implementação de ditaduras militares subsidiadas principalmente pelos Estados Unidos. O Brasil enfrentou 21 anos de um regime fascista, corrupto e de forte censura, fato que contaminou (e ainda contamina, pasme) boa parte da população brasileira.

O esporte durante os regimes nazifascistas

Die feierliche Amtseinführung des Reichsstatthalters und Gauleiters Greiser durch Reichsinnenminister Dr. Frick in Posen. Die deutsche Jugend Posens jubelt Reichsminister Dr. Frick begeistert zu.
Fot. Ho. 3.11.39
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Em uma época extremamente caracterizada pelo militarismo como forma autoritarismo, o esporte foi o principal incentivo das nações fascistas para legitimar um espaço de “bons olhos” dos outros países, como forma de disseminar ainda mais seus ideais. Programas de incentivo ao físico e militar, como a juventude hitlerista na Alemanha, que visava treinar crianças e adolescentes alemães de 6 a 18 anos de ambos os sexos para os interesses nazistas. Alienaram-nas com ideais nazifascistas e treinaram os jovens alemães a seguir o padrão da raça ariana, por meio de incentivo aos esportes. Aos 10 anos, todo jovem homem cidadão alemão deveria ser treinado em atividades extracurriculares, que incluíam a prática de esportes e acampamentos, além de uma doutrinação aos ideais propostos por Hitler. Foi essa geração que se desenvolveu como extremamente fascista no Terceiro Reich, militarmente treinada e com desenvolvimento limitado à ideologia de Hitler. Como movimento paralelo, existia a Liga das Jovens Alemãs, onde as moças aprendiam os deveres da maternidade e os afazeres domésticos, e, assim como os garotos, aprendiam os verdadeiros objetivos do nazismo. Esses fatores fortaleceram o interesse por excelência esportiva e criaram uma população extremamente bem treinada e militarizada.

As olimpíadas foram o principal meio e área de atuação dos esportistas de países nazifascistas para demonstrar poder. Em 1936, o incentivo aos atletas germânicos foi tão grande que estes conseguiram colocar a Alemanha no topo do ranking com 33 medalhas de ouro, seguido apenas dos Estados Unidos. Apesar da excelência alemã, o destaque veio para o americano Jesse Owens, vencedor de quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 m rasos, no salto em distância e no revezamento 4x100m. Como exigia a ética do evento, Hitler se viu obrigado a cumprimentar o atleta, apesar de sua convicção extremamente racista.

Jesse Owens em olimpíadas de 1936.

Já no futebol, o fascismo penetrou em sua torcida assim que nasceu. Como conta o Contra-Ataque em artigo, na Itália de Benito Mussolini o futebol foi uma das ferramentas usadas para promover a imagem de seu governo ditatorial. Mussoulini, percebeu que a paixão do povo pelo futebol era irreversível, favoreceu-se do fato: no final da década de 20 o governo começou a usar a Prima Divisione, o principal torneio nacional da época, como meio para difundir suas ideologias.

O artigo lembra também que “o período de ascensão do fascismo na política e no futebol foi contemporâneo ao período de maior imigração italiana do Brasil, assim sendo, não demorou muito para que os ideais fascistas fossem inseridos em nossa cultura e em nosso esporte mais popular”. Como exemplos, citam o Juventus da Mooca, time operário fundado em 1924, que foi erguido por Rodolfo Crespi, o maior empregador do bairro na época e grande amigo de Mussolini. O próprio Palmeiras sofreu influência fascista, e mudou seu nome para, entre outras razões, “apagar uma parte do passado do qual não se orgulhava”.

Jogadores italianos fazendo saudação fascista, 1934

Contudo, esses times tem fortes torcidas antifascistas nos dias atuais, justamente para lutar contra suas influências históricas. O próprio Juventus hoje é um time de resistência, por ser menor que os times de grande prestígio e por estar mais próximo de sua torcida.

Os jogadores Felipe Melo, do Palmeiras e Jadson, do Corinthians declararam apoio ao político Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Bolsonaro é conhecido por fazer apologia ao estupro e a tortura, pelo apoio à ditadura e pelo seu discurso de ódio em relação aos LGBTs, mulheres e negros. Nessa situação podemos entender a importância de uma torcida antifascista: os torcedores não permitirem ódio dentro dos estádios, e desaprovarem os grandes jogadores que apoiam esse tipo de discurso truculento.

Estádio, lugar de manifestação política?

Algumas semanas atrás, o apresentador global Thiago Leifert escreveu um artigo para a revista GQ em que afirmou: “evento esportivo não é lugar de manifestação política”. Mas sabemos que as torcidas antifascistas tem crescido cada vez mais entre os clubes de futebol brasileiros. Atualmente, torcedores de pelo menos 27 clubes já se reúnem em coletivos ativos que defendem pautas antifascistas: ABC-RN, América-RN, Atlético Mineiro, Bangu, Botafogo-RJ, Botafogo-SP, Corinthians, CRB, Cruzeiro, Ferroviário-CE, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Guarani-SP, Internacional, Joinville, Londrina, Náutico, Paysandu, Remo, Santa Cruz, Santos, São José-SP, São Paulo, Vasco e Vitória.

Arte do Palmeiras Antifascista.

“Acredito que a explicação esteja na sociedade que vivemos, o futebol é apenas um parâmetro privilegiado por ser o esporte mais popular do mundo provavelmente. Logo, é importante que a resistência se faça presente nesse ambiente”, conta Thiago Cassis, jornalista e Coordenador do Coletivo Futebol, Mídia e Democracia do Barão de Itararé. Ele conta que torcidas antifascistas, movimentos por pautas mais específicas (como por exemplo contra o monopólio da mídia, a luta pelo espaço das mulheres no futebol, contra o racismo), são pautas que “aparecem no futebol porque representam questões e embates vigentes na nossa sociedade”.

A importância dessas torcidas progressistas e antifascistas no cenário do futebol atual consiste no fato de que, ao se posicionarem, passam a disputar espaço nas arquibancadas com os grupos conservadores que destilam preconceitos. Elas fazem um forte contraponto aos jogadores e torcedores que apoiam o Bolsonaro e a torcida racista e homofóbica que destila ódio durante as partidas, com ofensas como “macaco” ou usar “viado” no termo pejorativo para humilhar quem é homossexual. As torcidas antifascistas marcam território e passam a mensagem que certos comportamentos não serão aceitos ou tolerados no ambiente futebolístico e na sociedade. Ou seja, promove o mesmo impacto que a ação antifascista tem nas ruas: a de bloquear a passagem do fascismo e do neonazismo.

Poderíamos dizer que  a ascensão dessas torcidas acontece como consequência do acirramento das disputas e discussões políticas que tomam conta da rotina do brasileiro, mas também do mundo, à medida que o conservadorismo avança pelo globo.

Thiago lembra que não é possível generalizar os movimentos de extrema-direita no mundo, porque “cada caso é muito peculiar”. “Não dá pra comparar o conservadorismo em curso no Brasil, com o crescimento do Trump ou com a vitória do Brexit”. “De qualquer forma, acredito que a resistência no futebol, apesar de ser focada em questões inerentes ao próprio futebol e seu universo, cumprem um papel muito importante na desconstrução do conservadorismo vigente”, reitera.

Em 2017, ecoaram diversos protestos contra o racismo por parte de jogadores norte-americanos, que criticaram abertamente o presidente Donald Trump. As manifestações aconteceram em um intervalo de tempo pequeno com a marcha neonazista de Charlottesville, na Virginia. A importância desses ídolos terem se posicionado contra o racismo em termos de influência aos jovens torcedores, que como eles também vem dos subúrbios norte-americanos e sofrem com a violência policial racista cotidianamente, foi um grande feito. Os jogadores mostraram que não se calariam diante de um país que mostrava cada vez com mais força suas heranças escravistas e segregacionistas, incluindo no discurso de seu presidente milionário.

“Na história do esporte sempre foi muito importante a manifestação de atletas. No Brasil tivemos por exemplo a Democracia Corintiana em um momento de enfraquecimento da ditadura”, lembra Cassis; para ele, a posição que os atletas norte-americanos ocupam graças à publicidade e ao mercado, faz com que esse tipo de manifestação possa servir como “uma forma muito privilegiada de conscientização da população local”.

O Contra-Ataque lembra, em seu artigo, que “o ditado de que política e futebol não se misturam não condiz com o que nos revela a história”. Como argumento, lembra que, no começo, as agremiações se davam não só por motivos geográficos, mas também políticos e partidários. Citam o caso do time italiano Lazio, que surgiu em 1900 com forte ligação com o fascismo e com o governo de Benito Mussolini; ou o Real Madrid, clube espanhol que teve seu discurso de superioridade racial e supremacia endossado pelos dirigentes do clube e pelo ditador Franco, quando no poder, entre 1939–1975. Eles reiteram, inclusive, que grande parte da ascensão do time deve-se ao poder de negociação que ganharam devido à simpatia do franquismo.

Atualmente, especialmente com o avanço do conservadorismo e da extrema-direita na Europa- partidos como a Liga, na Itália, que ganhou maioria parlamentar com sua coligação de direita, ou o Alternativa para a Alemanha, que conquistou 12% dos votos em setembro de 2017- a problemática dos discursos fascistas nos estádios permanece. O Contra-Ataque cita o Zenit, da Rússia, que foi palco de algumas demonstrações de ódio, como o caso do atacante brasileiro Hulk que foi recebido pela torcida com sons que imitavam o de macacos.

Mas, diante desse cenário, o antifascismo não se cala: times europeus passam a organizar sua torcida para combater o fascismo. É o caso do Brigate Autonome Livornesi, do Livorno, na Itália; do Bukaneros, do Rayo Vallecano, Espanha; além dos torcedores do conhecido St. Pauli, na Alemanha.

“Não sei se podemos dizer que esse tipo de organização é crescente, porque o futebol em sua essência parte de comunidades, de diferentes classes e etnias, que se organizavam para praticar o esporte, e a própria elitização e midiatização da modalidade causaram um enorme distanciamento em relação a gênese dessa cultura”, explica Thiago, referindo-se aos altos preços dos ingressos para assistir jogos nos estádios e ao monopólio da emissora Globo, por exemplo, quanto ao horário de transmissões das partidas, fatores que distanciam o povo do futebol.

Contudo, pode-se dizer que “a resistência organizada nos moldes que conhecemos atualmente é crescente, justamente porque o esporte em si está cada vez mais distante de quem o construiu”. Thiago reforça a importância popular no futebol: “embora em seu princípio, em nosso país, o futebol tenha sido praticado pelas elites, ele foi construído e legitimado pelo povo, por trabalhadores”, explica.

O St. Pauli não é um time de muitas conquistas em termos de placar e campeonatos, mas ainda assim é famoso mundialmente e tem fãs por toda parte. Isso tem uma explicação: o time tem uma longa trajetória no campo antifascista. O time tem o nome de um bairro boêmio de Hamburgo, de onde se origina. Nos anos 80, as arquibancadas de futebol da Europa, inclusive na Alemanha, estavam vivendo o auge da onda conservadora e dos neonazistas e, nesse momento, o St. Pauli se tornou um expoente da contracultura, um refúgio de ideias contrárias a essa linha de pensamento de extrema-direita e fascista. O símbolo do clube parece muito uma bandeira pirata, referência a localização em uma cidade portaria. O clube antifascista mais famoso do mundo utilizou na sua última temporada uma bandeira do orgulho gay em sua camisa oficial, e um dos seus últimos presidentes, Cornelius Littman, é assumidamente homossexual. Além disso, no atual momento de crescente xenofobia na Europa devido a entrada de refugiados, o St. Pauli prega a luta contra o racismo e defende os direitos dos imigrantes.

“Lutar contra o fascismo é um dever social, e não um crime antisocial”: arte da torcida do St. Pauli

Bandeira do St. Pauli

No Brasil, além das associações mais conhecidas, como o Palmeiras Antifascista e o Grêmio Antifascista, existe também a Ultras Resistência Coral. A O time nasceu no Ceará, reunindo torcedores do Ferroviário, terceiro maior campeão do estado, com nove títulos cearenses. Em 2005, foi a primeira torcida politizada do Brasil. Em 2017 a revista Vice entrevistou Leonardo Carneiro, representante do coletivo, que na época contou um pouco melhor essa história. “Tudo começou a partir da idealização de dois torcedores do clube, um anarquista e o outro comunista, que já militavam por essas causas. Vendo a forma como as torcidas tradicionais se comportavam no estádio, pregando ódio aos adversários, com manifestações preconceituosas, eles se reuniram para criar um movimento diferente, com outros moldes, que não enxergasse as outras torcidas como inimigas e que não tivesse cantos machistas, racistas e homofóbicos”, disse. A grande inspiração foram as torcidas europeias, como o St. Pauli.

Cartaz em apoio à Palestina pela torcida do Ultras Resistencia Coral

“Nem guerra entre torcidas nem paz entre classes”: faixa do Ultras Resitencia Coral

Mas não são apenas as torcidas politizadas que fazem frente ao fascismo. Têm crescido cada vez mais, por exemplo, a organização de times de futebol formados apenas por pessoas trans. Se pensarmos que a mídia hegemônica só considera o futebol de times maiores e formados por homens (até o futebol protagonizado por mulheres cis está em grande desvantagem se comparado ao masculino), a importância desse tipo de formação torna-se evidente: ainda que não levante a bandeira do antifascismo diretamente, é antifascista, uma vez que sua própria composição combate o velho “establishment” do futebol, a sua elitização e o seu preconceito. “Qualquer luta contra a opressão e a discriminação tem papel extremamente relevante, mas as lutas se interseccionam, se encontram no final das contas, e aí voltamos a velha questão da luta de classes”, completa Thiago.

Meninos bons de bola, primeiro time do Brasil composto apenas por homens transgêneros.

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