Correndo por fora: A incrível trajetória de “Animal”

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Por Eva Vila Pacheco

Agradecimentos mais do que especiais a Chico Felitti.

Sexta-feira, 24 de agosto, 10h56min. Estou sentada em uma mureta, na frente de uma das entradas do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, mais conhecido como Ginásio do Ibirapuera. Faltam quatro minutos para o horário combinado. Olho para os dois lados, alternada e incessantemente, como alguém que está prestes a atravessar uma avenida movimentada.

11h11min. Chico me avisa que eles me esperam no portão dois. Passo pela portaria e contorno o ginásio. Faço um movimento com o braço, para indicar que já os vi, e continuo caminhando em direção àquelas três figuras.

Cumprimento os meninos e logo chega a vez de cumprimentá-la. Será que já cabe um abraço? Na dúvida, opto por abraçá-la. “Ele veio fazer matéria comigo também!” ela diz, enquanto o menino que carregava um equipamento de vídeo se despede.

Passamos por uma porta de vidro e subimos a escada caracol, que dá acesso ao segundo andar do ginásio. Ela vai à frente, Chico atrás, eu por último. Deparamo-nos com uma espécie de recepção, um balcão de madeira atrás do qual se encontram duas funcionárias. Antes que eu me apresente, ela se apressa em dizer “Estão comigo! Vieram me entrevistar!”.

Estamos no corredor circular dos vestiários femininos. Há um varal que cruza a passagem, onde estão estendidas roupas e cobertores. Na janela veneziana, shorts e pares de meias secam ao sol. Chegamos ao seu quarto. Sua porta se diferencia das demais, pois leva coladas dezenas de adesivos, especialmente, de bandas de rock e metal.

Ao adentrar o cômodo, a primeira surpresa: há um desnível no teto. Isso porque o quarto está localizado debaixo das arquibancadas do ginásio. Ela se desculpa pela bagunça e libera uma cadeira para que eu me sente. Enquanto “dá um tapa” nas coisas, conversa com Chico, que está largado no chão. Ele se muda para Nova York no dia seguinte, e veio despedir-se da amiga. Não ficarão muito tempo sem se ver, já que ela se prepara para disputar uma prova na cidade em meados de novembro. Eles se abraçam, Chico se vai e ficamos a sós.

Sentada em um banquinho quase na altura do chão, seus um metro e 50 centímetros compactados e a boca cheia de bolacha de água e sal, ela dispara: “Pode perguntar”.

“Ana, como você prefere que eu te cham-“

“ANIMAL”, ela interrompe.

Minha boca está seca, de nervoso.

Animal, será que você poderia me contar um pouco da sua história?”, arrisco.

***

Ana Luiza dos Anjos Garcez, 55, foi abandonada pela mãe quando tinha pouco mais de um ano. Ela e sua irmã gêmea, Ana Lúcia, foram colocadas em caixas de sapato e deixadas na porta da FEBEM. Foi criada, até os 16 anos, no Juizado de Menores, quando disseram que ela teria de sair para dar lugar a outras crianças “sem família”. Arranjaram para Ana um emprego como doméstica.

“Trabalhei seis meses na casa da patroa. Uma voz me dizia: ‘Rouba, rouba, rouba!’ Catei toda a roupa que ela tinha. Fiz três malas de viagem. Dei todas as roupas, para os maloqueiros e para os bandidos, e fiquei só com um cobertor, porque eu sabia que ia ser foda na rua.”

Animal vivia entre a Sé, o Pátio do Colégio e o Anhangabaú. Cheirou cola, benzina e éter. Fumou maconha e injetou heroína. “Só não fumei pedra porque nessa época ainda não existia”, recorda.

Retrocedo um pouco e pergunto como foi crescer no Juizado. Ela se exalta: “Como foi?! Uma porcaria, um nojo, uma merda, um lixo!” Animal é bocuda. “Eu apanhava muito, levava muito soco, beliscão, porrada”, ela explica.

“A professora me disse que eu ia ser burra e eu fiquei com isso na cabeça.” Animal fez a primeira série durante dez anos. Até os 18, urinava na cama.

Antes de ser Animal, era conhecida como Tia Punk. Pergunto-me se, na época, ela já usava os cabelos coloridos, como usa hoje. “Eu me vestia inteira de punk”, ela diz. Para Animal, é importante ser diferente. “No Juizado, todo mundo se vestia igual. Vestido igual, sapato igual. Quando eu saí, decidi que seria bem louca”, completa.

Animal não é louca. Animal é única.

***

“Carruagens de fogo” é um drama britânico de 1981. Ele narra a preparação da equipe de atletismo da Grã-Bretanha para as Olimpíadas de 1924, sediadas em Paris. A música tema do filme tornou-se o hino dos maratonistas ao redor do mundo.

Certo dia, Animal assistiu ao filme, que passava na TV. “Fiquei com aquela música na cabeça”, ela diz, logo antes de começar a cantarolá-la para mim. Pensou: “Se eu corro da polícia, posso correr de verdade”.

Animal incumbiu a cada um de seus meninos a missão de roubar uma peça de roupa para que ela pudesse começar. Shorts, camiseta, tênis e meias. “Os moleques disseram ‘Tia Punk, você não vai conseguir’. Eu vou conseguir, pra calar a boca de vocês!”.

Animal beija a tocha olímpica, que ajudou a conduzir nas Olimpíadas do Rio, em 2016 | Eva Pacheco

***

Era véspera de Natal. Uma equipe do Fantástico gravava uma reportagem sobre aqueles que passavam o feriado nas ruas. Entrevistaram Animal, que declarou, orgulhosamente, ter usado dinheiro roubado para fazer a ceia para o seu pessoal. Arroz, feijão, frango e refrigerante. Para as câmeras, ela diz: “É muito legal morar na rua. Ninguém manda em mim”.

Mal sabia ela que, tão logo, a disciplina passaria a fazer parte de sua vida.

***

Em junho de 1998, o jornalista Fausto Camunha assumia a Secretaria Municipal de Esportes, integrando a gestão do então prefeito Celso Pitta. O secretário havia assistido à reportagem em que Animal aparecia, e resolveu entrar em contato.

Camunha ofereceu a Animal uma chance de sair das ruas. Levou-a para morar no COTP, o Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa da prefeitura. Animal conta que foi Magic Paula, a lenda do basquete brasileiro, que a expulsou de lá, enquanto estava na administração do local. “Eu vou sair daqui, mas eu vou te pegar”, ameaçou. Animal não tinha medo de ir para a cadeia.

***

A primeira prova que Animal completou foi a Maratona de São Paulo. Ela levou seis horas para percorrer os 42 quilômetros do trajeto. Eu, que não estou familiarizada com o esporte, pergunto:

“E quanto tempo levou o vencedor?”

“Em torno de duas horas e dez”, ela responde.

Animal teve um “acidente de percurso”, por assim dizer. Em dado momento, parou embaixo de um viaduto, cansada, e pegou um saquinho de cola. Um colega, a quem ela se refere como Draculino – tal qual o lutador de Jiu-Jitsu? – duvidou de que ela pudesse terminar a prova. Foi aí que Animal se pôs determinada a alcançar a linha de chegada. “Minha vida é quebrar barreiras. Quebrar, quebrar, quebrar”, ela enfatiza.

***

A tantas, Animal se dirige a mim: “Posso te fazer uma pergunta?”

Eu: “Claro!”

Ela: “Você não vai levar a mal?”

Eu: “Imagina.”

Ela: “Você é simpatizante?”

Eu: “Por quê?”

Ela: “Eu sabia! Quando você chegou, eu já gostei! Até falei pro Chico!

Nós duas rimos. Fico aliviada ao saber que Animal me reconhece como “uma das suas”.

Aproveitando o gancho, elogio a sua participação nos Gay Games de Paris, ao que ela responde: “Bicha, eu ARRASEI!”.

No último dia da competição que celebra a diversidade sexual e de gênero, “Ana Animal”, como é conhecida no meio, trouxe ao Brasil o primeiro ouro dos jogos. Ela venceu a prova que é a sua especialidade: a meia-maratona. Sem falar nas corridas de rua, de cinco e dez quilômetros, em que também obteve o primeiro lugar.

Animal ama o mundo gay.

Na rua, cuidou de um homossexual soropositivo, até que ele morresse, aos 36 anos.

Animal ama a Karol Conka. Em março deste ano, realizou o sonho de conhecê-la. Durante um show, na Avenida Paulista, a cantora viu Animal na platéia e gritou: “LINDA!”. As duas usam o mesmo corte e a mesma cor de cabelo.

***

Faz 17 anos que Animal mora no ginásio; que acorda às quatro da manhã e treina seis vezes por semana, revezando-se entre a pista de atletismo e o parque do Ibirapuera. Ela é supervisionada pelo técnico Wanderlei Oliveira que, há quase duas décadas, recebeu do governador Mario Covas a ordem superior de treiná-la.

Animal é uma das melhores atletas de sua faixa etária, que engloba mulheres de 50 a 55 anos. No dia oito de outubro, Animal completa 56 anos, e terá que mudar de categoria. Ela teme que o desafio passe a ser cada vez menor.

Mas os desafios de Animal estão longe de terminar. Ainda este ano, ela pretende disputar a sua primeira corrida de obstáculos e, em novembro, a Maratona de Nova York (Animal vai à cidade todos os anos e, em março, venceu a meia-maratona municipal).

Pergunto o que o esporte representa para ela: “O esporte é tudo” Eu não esperava outra resposta. “Eu xingo, eu falo palavrão e eu não levo desaforo pra casa. Esse é o meu jeito e ninguém vai me mudar. Mas o esporte me ensinou a ter educação”, ela completa, de forma paradoxal apenas em sua superfície.

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