Política insuficiente de acolhimento leva pessoas em situação de rua a sofrerem em dias frios

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As noites com baixas temperaturas de Julho são verdadeiras provas de resistência para aqueles que estão nas ruas

Por Caroline Hikari e Wesley Ribeiro

Durante o mês de Julho a cidade de São Paulo registrou o recorde de baixa temperatura. Durante a madrugada do dia 19 de julho os termometros marcaram 7,6ºC. São mais de 20 mil pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo, sendo que a maioria fica na região central da cidade, de acordo com os dados da Prefeitura de São Paulo. Em contrapartida, são apenas 116 vagas nos Centros Temporários de Acolhimento (CTA) dessa região. Desde o outono, ao menos quatro pessoas em situação de rua morreram de hipotermia durante a madrugada.

Para encontrar um Centro Temporário de Acolhimento com vaga durante essa época do ano, é necessário ter um encaminhamento distribuído por equipes da Secretaria de Assistência Social – que circulam onde há um maior número de concentração de moradores de rua. Apesar das queixas, o prefeito Bruno Covas (PSDB) manteve a burocracia que impede cidadãos de conseguir passar uma noite longe do frio.

De acordo com a Assessoria de Imprensa da Prefeitura de São Paulo, o encaminhamento exigido serve para manter a organização de fluxo dos CTAs. Já foram feitos mais de 40 mil acolhimentos desde o começo do ano até agora e, durante a noite, 15 vans rondam a cidade oferecendo vagas nos Centros e cobertores para aqueles que não aceitam ir até eles. Durante o dia, esse número de vans aumenta, chegando a 90.

Alexadro, nascido na Bahia, de 43 anos e que está nas ruas de São Paulo há cerca de quatro anos, conta que os CTAs da capital oferecem boas condições, pois lá é possível tomar banho e dormir protegido do frio. “É ruim pra conseguir entrar pra dormir, mas depois é bom demais. Nós sabemos que vamos acordar melhor no outro dia”, explica.

Maicon, jovem paulistano, não lembra ao certo quanto tempo faz que está nas ruas, mas se lembra do momento em que entrou nessa vida: “eu tinha 10 anos e sai. Não me queriam mais. Agora fiz amigos, tive dois cachorrinhos que fugiram, mas fico sozinho”. Ir para os CTAs nunca foi opção pra ele, por que não teria encontrado  alguém da prefeitura oferecendo vagas. Para fugir do frio, recebe doações de roupas, cobertores e sempre encontra o grupo Anjos da Noite, que distribuem sopas durante as noites no centro.

“Nunca vi a Prefeitura passar falando de albergue, nunca avisaram, nunca ajudaram, nunca nada. Única coisa que sei é do Bom Prato [programa de alimentação subsidiada do governo estadual], todo dia vou lá. Eu engraxo os sapatos e vou”, explica.

A relutância dos moradores para passar a noite nos Centros de Acolhimento muitas vezes acontecem devido às regras dos lugares. As famílias que estão nas ruas quase não conseguem encontrar mais de uma vaga no mesmo Centro, as pessoas que possuem animais de estimação não querem abandoná-los nas ruas e muitos se queixam da falta de espaço e da limitação de objetos que podem entrar nos CTAs.

Para tentar amenizar essa situação, a congregação das Irmãs Pastorinhas de Jesus Bom Pastor organizam kits de distribuição com cobertores, roupas de frio e produtos de higiene para aqueles que não conseguem ou não querem ir aos albergues. As entregas acontecem quinzenalmente nas regiões Sul (bairros do Jabaquara, São Judas e Saúde) e Centro da cidade. De acordo com a Irmã Ana, responsável por organizar as entregas, todas as distribuições são feitas com lanches que têm chá, café e sopas.

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