São Paulo oferece cursos para entusiastas das criptomoedas

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Com o crescimento do mercado de moedas digitais aumenta o número de empresas que oferecem especialização na área

REPORTAGEM: Aquiles Rodrigues e Maria Tereza Santos

Atendendo à expansão do mercado de criptomoedas São Paulo, o maior centro financeiro do país, já possui oferta de cursos especializados em moedas digitais.

“Cursos que não enganam as pessoas são poucos, somos uns três ou quatro. Ainda estamos no começo”, afirma Emanuel Takahashi, que ministra workshops e aulas sobre blockchain e criptomoedas. Tendo iniciado seus estudos do assunto aos 16 anos, Takahashi abriu uma escola de informática aos 19 e mais tarde veio a ser instrutor de Hardware e Internet pelo Senac Rio. Atualmente, reside em São Paulo e afirma que a cidade tem um mercado que cresce por parte dos compradores – o que automaticamente populariza o uso das moedas. Para ele, vivemos um momento de transição e é importantíssimo que as pessoas tenham a oportunidade de aprender.

No ano passado, o número de investidores brasileiros em criptomoedas ultrapassou o total de pessoas físicas cadastradas na Bolsa de Valores de São Paulo. As três maiores casas de câmbios de bitcoin (chamadas exchanges), onde ocorrem cerca de 95% das transações da criptomoeda no país, tinham cadastradas 1,4 milhões de pessoas em dezembro. Isso representa mais que o dobro de pessoas registradas na Bovespa, que no fim do ano, possuía 619 mil pessoas físicas.

Dentre essas três maiores exchanges, duas estão sediadas na capital paulista. Como conta Takahashi, há dois anos havia em torno de três ou quatro exchanges em São Paulo. Hoje, já existem mais de 20.

Uma pesquisa recente realizada em parceria com o Serasa Experian identificou que 57% da base de clientes da Mercado Bitcoin – a maior corretora de criptomoedas do Brasil e que possui 1 milhão de clientes – está localizada na região Sudeste do Brasil. “São Paulo é o principal centro econômico e onde os principais negócios são feitos na América Latina. Portanto, é natural que se transforme em um polo de atração de negócios e atividades relacionados ao mercado de criptomoedas na região”, explica Luiz Roberto Calado, economista-chefe da startup.

As criptomoedas surgiram em 2009 com a Bitcoin, a primeira e mais popular moeda virtual. Sua ideia básica é movimentar a economia sem interferência dos bancos. Criadas sem uma unidade centralizadora, as moedas são produzidas através de usuários da rede – os chamados mineradores – que, ao instalarem o software necessário, oferecem seus processadores para a execução de tarefas como a validação e registro de transações. Este serviço prestado pelos usuários é chamado de mineração e é recompensando com a própria moeda através de um sistema de comissão . Atualmente existem mais de 100 moedas digitais circulando no mercado, elas têm um valor real e podem ser compradas com dinheiro.

Um aspecto importante a ser considerado é o de que essas moedas não possuem nacionalidade. Isso significa que, diferente do Real ou do Dólar, elas não possuem o lastro – instrumento que regula o valor das moedas no mercado de acordo com a produção do seu país. Sem ele, o valor de mercado das criptomoedas pode sofrer valorização e desvalorização muito grande em pouco tempo.

“Trata-se de um ‘acordo’ aceito por participantes do mundo digital e que permite transações peer-to-peer [de pessoa para pessoa]em tempo real, pois não envolve intermediários financeiros e nem bancários”, explica o economista e professor da FEA-USP, Guilherme Grandi.

Essa característica chamou a atenção de muitos investidores, experientes ou iniciantes. “O meu primeiro investimento foi um ganho. Foi um valor baixo, afinal era uma moeda de alto risco”, conta Renan Carvalho, técnico em eletrônica e entusiasta do assunto. Ele conta, após experimentar por cerca de sete meses, com o Bitcoin ele obteve resultados consideráveis, mas também baixas de metade do dinheiro aplicado. Ele afirma que é preciso ter experiência e cuidado para lidar com a especulação de uma moeda com alta volatilidade.

De acordo com o “Relatório Mensal do Mercado Brasileiro de Bitcoin” de dezembro de 2017, feito pelo site Bitvalor, o mercado movimentou R$ 8,3 bilhões no ano passado e tem potencial de volume entre R$ 18 e 45 bilhões em 2018. Desse total, cerca de 75% foi gerido pelas duas maiores exchanges brasileiras, que são paulistanas. João Canhada, CEO e fundador da Foxbit, a maior bolsa de bitcoins do Brasil e sediada em São Paulo, acredita que o cenário no país é bastante promissor.

“O Brasil está sendo conservador em relação a uma regulamentação sem tomar a dianteira e acompanhando de perto o que está ocorrendo mundo afora. Nesse sentido, é um país amigável para o bitcoin e outras criptomoedas, pois temos uma maior liberdade de criar como empreendedores sem as restrições duras que poderiam vir de alguma regulamentação mais pesada”, afirma.

O CEO não é o único que vê potencial para esse tipo de investimento no Brasil. Em novembro de 2017, nasceu a primeira criptomoeda brasileira: o Nióbio Cash. O criador Marconi Soldate crê que, apesar do assunto ainda não ser tão difundido na população em geral, a disseminação da ideia não será tão difícil. “A medida que a tecnologia evoluir e se tornar mais amigável, irá atrair um número maior de pessoas. Creio que é questão de tempo, tanto para aprenderem a usar a tecnologia, quanto para entenderem que se trata de uma revolução”, declara.

O aspecto mais importante das criptomoedas é o blockchain, que foi criado junto com a Bitcoin e tem chamado muito a atenção de empresas da área financeira e entusiastas da tecnologia. O sistema funciona como uma espécie de “livro contábil” que registra as transações e fica disponível em todos os computadores ligados pela rede. Esse livro é dividido em blocos criptografados que armazenam os dados. Cada conjunto de transações feitas pelos mineradores é adicionado a um bloco que então é fechado e conectado com todos os blocos anteriores, por isso o nome “blockchain” (Corrente de blocos). Com esse sistema fica impossível alterar qualquer informação sem ter que refazer todo o trabalho dos registros anteriores, ou apagar alguma coisa sem ter que acessar todos os computadores da rede. Isso garante a segurança das moedas, permitindo que elas sejam entregues e que os registros permanecem sólidos. É como se o blockchain fizesse todo o trabalho de um banco central.

“Não é um ‘bicho-de-sete-cabeças, é só uma questão de você conhecer. Infelizmente algumas pessoas são enganadas. Por isso é tão importante essa disseminação do conhecimento”, afirma Takahashi. O workshop que ele desenvolveu é ministrado no espaço alternativo Casa Elefante, localizado no bairro da Consolação. Lá ele ensina de maneira que qualquer pessoa, independente da idade, entenda sobre o assunto. Quanto a seus cursos mais avançados, Takahashi oferece até mesmo conhecimentos de economia e da aplicação da moeda.

No mundo todo cresce a procura por especialização em criptomoedas e em tecnologia blockchain. No exterior, lugares renomados como a Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, já oferecem esse tipo de formação.

Aqui no Brasil, temos cursos para quem quer aprender mais e também ligados à graduação, pesquisas científicas e mestrado, todos em São Paulo. O Blockchain Insper é um projeto de pesquisa estudantil criado em setembro de 2017 por alunos do Insper, em São Paulo, que propõe desenvolver as habilidades necessárias para atender o mercado de moedas virtuais.

Também no ano passado, as criptomoedas foram incluídas como um tema adicional na disciplina de Derivativos, uma eletiva da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Na área de Mestrado, a FGV (Fundação Getúlio Vargas) criou um curso de Economia focado em Criptofinanças onde os alunos poderão criar a própria moeda digital, visando a capacitação de profissionais para atuar no mercado de startups. Além disso, a instituição também passou a oferecer uma disciplina optativa sobre o assunto aos alunos de Economia.

Dentre as instituições que oferecem cursos profissionalizantes, mas que não são superiores, estão a Blockchain Academy, a Faculdade de Informática e Administração Paulista (FIAP) e a BlockLabs, sendo que esta última também tem a opção EAD.

Quando se trata do futuro do dinheiro, João Canhada acredita que a moeda virtual tem a possibilidade de mudar o conceito como conhecemos hoje. “O dinheiro físico já vem sendo substituído pelos cartões de créditos, smartphones e internet. As criptomoedas solucionam alguns gargalos do sistema financeiro convencional. A tecnologia dos cartões de crédito, muito usada no dia de hoje, foi criada nos anos 60 e adaptada para a era digital. Por isso, definitivamente temos algo novo em mãos com as criptos”, conclui.

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