Fiação elétrica começa a desaparecer na cidade de São Paulo

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Empresas de telefonia investem R$300 milhões em projeto de aterramento dos fios

REPORTAGEM: Anna Beatriz Vanzetto e Isabella Sedano

O projeto de aterramento de 65,2 quilômetros de fios e cabos de São Paulo, que também prevê a remoção de mais de 2 mil postes, ficará restrito à região central da cidade. Ou seja, não incluirá bairros periféricos, indo do Brás ao Itaim Bibi. A proposta foi criada a fim de melhorar a estética visual e diminuir a manutenção de postes e fios. Além de proteger o cabeamento do meio externo, como queda de árvores, acidentes de carro e quedas de luz no caso de tempestades.

A Prefeitura de São Paulo firmou um acordo com a Eletropaulo e 25 operadoras de telecomunicação para a implantação do projeto no ano passado. As empresas desembolsaram R$300 milhões para o desenvolvimento da ação, mas a expectativa é de que os valores dobrem até o final de 2019. “As tubulações que são aterradas possuem maior segurança do ponto de vista de estarem isoladas de descargas elétricas, mas seria necessário criar salas de comando no subsolo para gerenciar todas as concessionárias que estão utilizando o espaço.”, afirma Eduardo Vianna, arquiteto e professor de sistemas estruturais da Faculdade Belas Artes.

O projeto de aterramento da fiação começou na metade dos anos 40 e, até hoje, a quantidade de ruas sem cabos aéreos é mínima. Algumas das principais avenidas possuem fiação subterrânea, totalizando apenas 7% das ruas da cidade, segundo a assessoria da Eletropaulo. Isso é irrelevante comparado com muitas cidades europeias, como Amsterdã e Londres, onde a distribuição elétrica é 100% aterrada.

“Não dá para se pensar numa estética urbana com o sistema elétrico aéreo. Você perde a visibilidade e a clareza da cidade, vista principalmente pelo pedestre. É impossível se pensar numa cidade como Paris, com todos os seus monumentos arquitetônicos e edifícios com uma fiação aérea. A realidade visual seria outra”, afirma Eduardo Vianna. “Em São Paulo, temos a Paulista, Faria Lima, Oscar Freire e João Cachoeira, que são pontos de excelência com uma vizinhança bastante abastada. A grande questão para esse projeto se expandir é o custo. A população de áreas precarizadas não tem condições de arcar com isso.”

A Prefeitura priorizou as áreas centrais, onde a infraestrutura básica já existe e por este motivo, não seria necessário investir em outros recursos. De acordo com a assessoria da Eletropaulo, “os serviços começaram pelo centro da capital porque, nessas áreas, os fios de energia já são subterrâneos e as empresas de telefonia e internet utilizam o mesmo espaço debaixo da terra para passar seus respectivos cabeamentos”.

Enquanto a parte rica da cidade aterra seus cabos, a outra, mais pobres, possui energia elétrica de qualidade. Muitos bairros e comunidades afastadas aderem ao “gato”, roubando energia de outros cabeamentos.

O historiador Leonardo Camargo, formado na Universidade de São Paulo, afirma que “as periferias não são tidas como espaços legais judicialmente, uma vez que são locais ocupados por uma população que foi descartada das áreas centrais da cidade, por um processo de urbanização que se concretizou com o capitalismo”. Segundo ele, “a população dessas áreas, além de não ter visibilidade para projetos de modernização da cidade, precisa se unir para conquistar condições básicas de moradia, como o acesso à eletricidade”.

Os moradores de áreas mais carentes acaba, obrigados a entrar na Justiça para conseguir o mínimo de atendimento no local onde vivem. Janaina Marques, moradora do bairro Piqueri, na Zona Norte de São Paulo, relata que já passou meses sem luz por depender dos “gatos” de energia. “Aqui onde eu moro, a maioria das casas só tem luz porque a gente pega dos postes, senão estaríamos sem.”

Todos os fatores de segregação das regiões afastadas fazem parte da falta de propostas do governo para urbanização e estruturação da periferia. Os projetos de modernização atingem apenas uma população que já conta com a infraestrutura básica e não deveria ser prioridade nos custos da cidade.

“No Brasil, a periferia tem que arcar em dobro com a sua reprodução social para se manter viva. Sendo praticamente órfã do Estado e da estrutura que o mesmo deveria oferecer, a população se vê em uma situação onde precisa fazer mutirões para ter acesso ao mínimo necessário. A energia elétrica é só mais uma das inúmeras precariedades dessa parcela da sociedade.”, disse Leonardo Camargo.

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