Slam da Guilhermina completa seis anos e defende democratização da poesia

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REPORTAGEM: Lucas Estanislau e Wesley Moraes

Com muita resistência e determinação de grupos independentes, manifestações culturais periféricas ganham as ruas da cidade de São Paulo e tornam mais real a democratização da cultura e o protagonismo de artistas alternativos.

Há 6 anos, o Slam da Guilhermina realiza o trabalho de evidenciar a poesia marginal e periférica da Zona Leste da cidade e já se tornou uma referência nos campos dessas manifestações artísticas.

Fundado em 2012 por um grupo de amigos, poetas e entusiastas da poesia, o evento que acontece toda última sexta-feira do mês na praça da Rua Astorga, ao lado da estação Guilhermina-Esperança do metrô, já deu origem a escritores e campeões nacionais de poesia.

Emerson Alcalde, um dos fundadores, conta que a ideia do Slam surgiu em um momento em que esses eventos ainda não estavam tão popularizados em São Paulo. Alcalde era poeta, frequentador dos primeiros slams que aconteciam na cidade, explica que o Slam da Guilhermina tem suas peculiaridades. “Nós somos o primeiro slam a fazer na rua, ao lado do metrô. Já frequentava o Zap Slam, e saraus como a Cooperifa”, conta o organizador.

Nas melhores noites, o Slam da Guilhermina reúne de 100 a 150 pessoas, que se acomodam como podem na pequena praça ao lado da estação. Em sua maioria formado por jovens moradores da periferia, o público muitas vezes é formado por poetas que buscam um lugar na apresentação.

Apesar de simbolizar a livre poesia da periferia, o slam tem suas regras. São 15 inscritos que possuem três minutos cada para declamarem suas poesias. Não são permitidos nenhum tipo de acompanhamento musical e, ao final de cada apresentação, as poesias são julgadas por cinco pessoas da plateia que não conheçam os artistas inscritos. As notas são dadas a partir de 0.0 até 10.

Em seus versos, os poetas trazem suas referências musicais e literárias, “Chico Science, Sabotage, Nina Simone, Robert Nesta Marley, nessa jornada foram cinco dez. Soma aí, Leci Brandão, Sueli Carneiro, Sergio Vaz, Ferréz, eu fui por esse viés”, recita Poeta BK. Nas falas, também são nítidas as críticas a sociedade e pensamentos do cotidiano como nas palavras de Poeta Nevasca “A via é literária, é prática como um soco, tu toma e BUM, cai da escada, Muita responsabilidade nessa parada, ler Djamila Ribeiro, lugar de fala, e na luta lugar de escuta, escuta, escuta, escuta, escuta…”, ou na manifestação do Poeta Rafa Ribeiro: “O aluno da escola pública a universidade ele acessou, o sistema ele contrariou, ele sonhou e conquistou muito mais do que a estatística, é um foda-se pro patrão e um foda-se pra polícia”.

Segundo a professora da Faculdade de Educação da USP Monica Amaral, manifestações culturais como os slams e as batalhas de MC’s tornam a poesia e a cidade mais democráticas. “A poesia urbana está permitindo que a população da periferia crie sua própria cultura e expresse suas opiniões e ideias”, afirma Amaral, que coordena o grupo de pesquisa Multiculturalismo e Educação (CNPq).

Para a professora, essas manifestações têm o poder de resgatar uma “subjetividade sequestrada pelo preconceito e pelo racismo”. “Slams e saraus desse tipo permitem que as pessoas migrantes e imigrantes se reconectem com suas culturas”, afirma Amaral que é autora de livros como “O que o rap diz e a escola contradiz” (Alameda, 2016).

Ao mesmo tempo em que o Slam democratiza o acesso e pluraliza a literatura e a poesia, ele também é uma competição que glorifica um vencedor a cada edição. No final do ano, os vencedores das 12 edições se enfrentam na grande final anual. Dessa batalha sai o grande vencedor do Slam da Guilhermina, que disputará na competição nacional contra “slammers” de todo o Brasil. O grande vencedor da final nacional ganha uma viagem com tudo pago para disputar o campeonato mundial de poesia em Paris, na França.

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