Portarias Virtuais substituem o serviço dos porteiros na capital paulista

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REPORTAGEM:  Isabela Noleto e Isabella Lopes

A implantação da tecnologia na substituição dos porteiros, através da chamada Portaria Virtual é uma das principais causas da substituição e desemprego da categoria. A nova tecnologia se trata de um escritório que monitora de longe o acesso aos prédios de diversos endereços ao mesmo tempo.

O Sindicato dos Trabalhadores em Edifícios e Condomínios de São Paulo registra 120 mil porteiros com carteira assinada na capital paulista.

Entre os 40 mil associados do sindicato, a categoria representa 20%, ou seja, 8 mil porteiros fazem parte da associação. Em 2018, o reajuste salarial da classe foi de 3%, com o piso de R$ 1.326,50.

A corporação não soube precisar quantos porteiros foram demitidos de seus serviços pela substituição da máquina, mas garante que este número cresce a cada ano. Existem no Estado de São Paulo mais de 800 prédios com o sistema de Portaria Virtual, sendo ao menos 25 empresas prestadoras do serviço na capital paulista.

A categoria enfrenta dois problemas na atualidade. Primeiramente, a terceirização da mão-de-obra, onde há a contratação com um salário inferior, de menor qualificação e maior exploração, com altas cargas horárias de trabalho e poucas garantias. A segunda complicação é a chamada Portaria Virtual. Elisângela Machado, assessora de imprensa do sindicato, destaca: “Estão fazendo o trabalhador da nossa categoria perder emprego para esses sistemas, mas muitos acham que é uma coisa meio que de moda, que, às vezes, passa e depois o prédio volta a contratar. É um problema que a gente luta, faz campanha”.

Vídeo da campanha alertando sobre a Portaria Virtual: https://www.youtube.com/watch?v=X5-BiW5Px2s

Euracy Campo, jornalista da Minha Portaria, empresa do serviço virtual, explicou que quando se opta pelo sistema, um estudo é feito sobre o condomínio, analisando as necessidades de adaptação. “Todos os processos de acesso do condomínio ficam em uma central e ficam registrados”, continua.

Alessandra Sabbag, assistente de Jornalismo da empresa, ressalta também que o modelo gera uma economia de 50% ao condomínio, pois há 22 vezes menos intervenção humana no processo de controle de acesso. “Minimiza consideravelmente o risco de segurança por erros e falhas humanas, que é o principal fator para roubos e furtos,” afirma.

O Sindicato dos Porteiros se apresenta contra a Reforma Trabalhista, pois a proposta atual dificulta o acesso à aposentadoria. “A ideia desse governo é enfraquecer o trabalhador, para tirar a voz dele”, disse a assessora.

Para o aperfeiçoamento da profissão, cursos em técnicas de portaria são disponibilizados à esta classe de trabalhadores, com a média de preço de R$ 200,00. Os setores de vagas e as administradoras solicitam que o interessado tenha um certificado.

Sala de curso profissionalizante de Portaria no Sindifícios | Crédito: Isabela Noleto

Os assessores do sindicato são divididos para realizarem visitas aos condomínios e edifícios da capital, como explica um dos assessores, Cristiano Cosina: “Assim, os porteiros reclamam, tiram dúvidas, pedem informações e denunciam. As denúncias podem ser anônimas através do telefone 0800.”

Dentre as principais reclamações estão: cadeiras erradas (sendo elas de plástico, onde os trabalhadores denunciam problemas ergométricos), falta de água potável (alguns são obrigados a tomar a água utilizada para regar o jardim), a falta de banheiros próximos e um local para se alimentarem (alguns lugares não têm onde esquentar a comida ou onde sentar, muitos comem onde os materiais de limpeza são guardados ou escondidos embaixo de escadas e salões de festas). A assessora Elisângela comenta: “Não é isso. Você não está colocando um resto de comida para um cachorro. Então, são coisas que acontecem e o assessor fiscaliza, com a aplicação de multas.”

Jefferson Santos, de 35 anos, foi demitido há um ano e meio de um condomínio onde trabalhava, na Zona Sul da capital, pois seria contratado os serviços da Portaria Virtual. Ele desabafa dizendo que felizmente conseguiu um emprego na área rapidamente, pela certificação do curso que realizou. “É triste você ser substituído assim, a minha sorte foi ter qualificação na área e batalhar muito para conseguir um novo emprego”, ele ressalta, explicando que está empregado em um prédio residencial na Zona Norte.

Para Ivanildo Galvão Pereira, de 55 anos, que trabalha há cinco anos na área, destaca um problema recorrente: “Às vezes a gente começa a trabalhar em uma empresa de porteiro, faz serviço de vigilante e ganha como porteiro, muitas empresas estão explorando”.

Vigilante por 25 anos, sempre atuando em portarias, Paulo Severiano Leite trabalha hoje em dia em um condomínio residencial. “Muitas vezes as pessoas falam é fácil trabalhar em uma portaria, qualquer um pode trabalha, mas você não trabalha só com a portaria, você trabalha praticamente monitorando tudo. Você faz a sua segurança e a do condomínio, tudo depende de você”, argumenta Paulo sobre sua função. “Deveríamos ter mais reconhecimento do nosso trabalho, somos um faz tudo”, continua.

Foto: Acervo pessoal do Paulo Severiano Leite em seu ambiente de trabalho

Para Ivanildo e Paulo, substituir a categoria dos porteiros por equipamentos eletrônicos podem até garantir lucros para as empresas, mas o fato de suprimir o fator humano e não ter o contato direto com as pessoas dá margens a diversas falhas, por isso discordam dessa possibilidade.

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