O Sarau da Casa das Rosas ajuda a derrubar o muro entre as Periferias e o Centro

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Como as periferias de São Paulo dominaram a cena da poesia contemporânea no endereço localizado na avenida mais famosa da cidade

REPORTAGEM: Aquiles Rodrigues, Ariela Pellegrine e Jéssica Lopez

“São Paulo tem uma média de 200 saraus por mês. Na Casa, a gente tem uns 30. O movimento de saraus em São Paulo é bem grande”, diz Daniel Moreira, coordenador de programação Cultural da Casa das Rosas. Um dos espaços culturais mais conhecidos de São Paulo, na avenida Paulista, tornou-se também um dos mais importantes centros para a democratização da poesia.

“A palavra ‘sarau’ tem origem francesa. A intenção era reunir poesia, música e artes plásticas. Eram onde as pessoas se encontravam e mostravam seus trabalhos para outras pessoas, artistas amadores”, lembra Daniel. Segundo ele, muitas das vanguardas da arte resgataram o sarau, pois a arte e a poesia tinham de ir para a rua, não ficar nos endereços mais exclusivos.

Em São Paulo, no final de 90, começaram a aparecer os saraus na periferia. Os saraus que acontecem na Casa das Rosas têm sua origem nas periferias de São Paulo.

Não existem lideranças, entretanto, três pessoas têm destaque : Sérgio Vaz, Marco Pezão e Binho. “Falar de sarau sem falar dos três, é o mesmo que falar de futebol sem falar do Pelé”, explica Daniel.

Para participar, não é necessário ser poeta, nem recitar composições. E o que antes era fechado e privado, hoje pode acontecer num museu, como é o caso da Casa das Rosas, em bibliotecas, centros culturais, estações de metrô, praças, bares. Há vários modelos diferentes que reúnem poesia, música, dança e intervenções artísticas.

Foto: Ariela Pellegrine

A Casa das Rosas recebe, pelo menos, um sarau de poesia diferente todo mês. Para o coordenador da programação é de extrema importância que o centro abrigue e estimule esses eventos, afinal faltam espaços para sua realização.

Segundo estudo da jornalista, Lívia Lima Silva, forma pela USP, sua pesquisa de mestrado sobre saraus,  conta que a maior parte desses eventos está em regiões periféricas como São Miguel Paulista, na Zona Leste, Campo Limpo e Grajaú, na Zona Sul, e Pirituba, na Zona Norte. Quase todos ocorrem em lugares informais como bares, praças e centros alternativos de cultura. Para ela, isso evidencia a falta de espaços de lazer nesses locais.

A falta de investimentos na área da cultura e o descaso com os espaços já estabelecidos tornam difícil o fomento das atividades e programações culturais. No entanto, é em meio à essas dificuldades que surgiram os saraus da periferia.

Com uma tradição que já dura 16 anos o Sarau da Cooperifa, a Cooperativa Cultural da Periferia, é um evento que reúne mais de 300 pessoas para ouvir e declarar poemas. Idealizado pelo poeta Sérgio Vaz, ele acontece todas às quartas no Bar do Zé Batidão, em Taboão da Serra. Segundo Vaz, o sarau interfere na paisagem da periferia porque é uma forma de descentralizar a literatura e mostrar que ela pode ser uma coisa simples, como o samba e o rap. “Aqui na Cooperifa a poesia desce do pedestal e beija os pés da comunidade”.

Foto: Ariela Pellegrine

Outro expoente da poesia marginal e dos saraus na periferia é Marco Pezão, que ajudou na criação do sarau da Cooperifa e permaneceu nele por muito tempo até montar o seu próprio projeto, o sarau A Plenos Pulmões.

Suas apresentações acontecem, com frequência, na Casa das Rosas e reúnem pessoas que vêm tanto da periferia quanto de regiões mais centrais.  Pezão incentiva fortemente a participação de todo público. “Nós estamos muito acostumados a ser passivos com a internet, com a televisão. Mas com a leitura, não!” Marco Pezão explica que, com a leitura, nós nos excitamos e nos tornamos dinâmicos.

O principal papel dessas reuniões de poesia é dar voz a essas comunidades. É, por exemplo, através dos saraus que surgiu a oportunidade da abertura de um mercado, antes fechado.

“O mercado editorial sempre esteve fechado para as periferias. Por isso, encontramos a solução em ler poesia para nossos vizinhos, para quem pega ônibus, para nordestinos, negros e homossexuais”, afirma Sérgio Vaz.

“Poesia é sempre para poucos. Hoje, em São Paulo, estamos bem longe de conseguir uma base extensa de leitores. O que nós conseguimos é fomentar os trabalhos que estão sendo feitos. A sorte é que esse movimento está crescendo”, analisa Daniel. Na opinião do coordenador cultural da Casa das Rosa, para os saraus atingirem mais pessoas é preciso que o conhecimento das universidades ultrapasse os muros, chegue até as periferias e entenda a realidade de quem ali vive. “Muitas das pessoas que vivem na periferia não querem saber da academia. O meu desejo é que as universidades mudem. Saiam das torres de marfim numa cidade com milhares de torres.”

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