No futuro dos relacionamentos, a monogamia está com os dias contados

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Por: Júlia Cabral e Raisa Santos

Assimilamos novos tratamentos de saúde, novas maneiras de consumir conteúdo e adaptamos um fluxo enorme de tecnologia em nosso cotidiano. Nesse cenário de tantas e tão rápidas transformações, por que não assimilar também novas formas de relacionamento? É o que propõe a psicanalista, escritora e autora de 12 livros, Regina Navarro Lins. No último deles, “Novas Formas de Amar”, ela fala sobre temas como o poliamor e coloca em xeque os padrões românticos atuais.

Na entrevista que concedeu ao Contraponto, Regina, que participa do programa “Amor e Sexo” da Rede Globo, traz um turbilhão de questionamentos sobre os dogmas das relações atuais e convida à reflexão: a exigência de exclusividade pode ser um grande vilão?
Descubra aqui a origem dos conceitos que você tem sobre vida a dois. Eles podem ser muito mais antigos do que você pensa.

Foto: Caiuá Franco

Contraponto – Por que você acredita que falar de outras formas de relacionamento ofende tanto as pessoas?

Regina Navarro Lins – Porque as pessoas sempre foram enquadradas em modelos. Quem saísse deles era discriminado, criticado. Tem muita gente que se agarra aos padrões conhecidos e é por isso que surgem essas reações [contrárias às novas formas de relacionamento]. Mas estamos vivendo um processo de profunda mudança das mentalidades no que diz respeito ao amor e às relações sexuais também. E como estamos no meio do processo, encontramos comportamentos díspares. Pessoas que já se libertaram daqueles padrões de comportamento que foram impostos e outras que ainda estão agarradas aos antigos e são contra tudo que é novo.

Quando alguém fala ‘hoje em dia…”, eu falo, ‘Ih, lá vem coisa!’. Porque as relações nunca foram melhores do que são hoje. É claro que tem que mudar muita coisa. Mas quando alguém fala isso, eu entendo que ou é alguém que desconhece totalmente a história, ou é alguém que está agarrado aos padrões antigos e não admite mudanças.

Por que estão surgindo relacionamentos diferentes, como o poliamor?

Hoje, nós somos regidos pelo amor romântico. Em cada época da história, o amor se apresentou de uma forma. O amor romântico surgiu no século 12, mas não podia entrar no casamento porque ele era considerado algo muito sério para entrar uma emoção dessas. As famílias é que escolhiam os cônjuges para os filhos. E foi assim até o século 19, quando o amor no casamento passou a ser uma possibilidade. Só ganhou força no século 20, por volta de 1940, incentivado pelos filmes de Hollywood.

De lá para cá, todos passaram a querer casar por amor. E esse amor prega, basicamente, a fusão: duas pessoas que se tornam uma só, se completam. Há um desejo de encontrar a pessoa certa, sua alma gêmea. É um amor calcado na idealização. Você conhece uma pessoa, atribui a ela características que ela não possui e na convivência não se consegue manter a idealização. Quando aparecem aspectos no outro que nos desagradam, a pessoa acha que ele é culpado, que enganou.

Estamos num momento de busca pela individualidade. Cada pessoa quer saber seu potencial, suas possibilidades na vida. Essa individualidade bate de frente com a proposta do amor romântico, que dá sinais de começar a sair de cena. E leva junto sua característica básica de exigência de exclusividade, abrindo espaço para novas formas de amar.

Escrevi o livro “Novas Formas de Amar”, por que tenho consultório há 45 anos e, de cinco anos para cá, comecei a receber casais para atender em terapia, além de mensagem do blog – que escrevo – com conflitos que nunca tinham existido: uma das partes do casal propõe abertura da relação e a outra parte se desespera. Percebi que era hora de falarmos disso.

As pessoas precisam entender que estamos no meio de um processo, numa transição. Houve uma época em que era impensável uma separação, como era impensável a moça não casar virgem. E as mentalidades vão mudando. Acredito que daqui a algumas décadas, provavelmente, menos pessoas vão querer se fechar em relações a dois e mais gente vai optar por relações livres, múltiplas.

Diferentemente de você, há muitos terapeutas de casais que não simpatizam com novas formas de relacionamento. Como você vê isso?

A maioria dos terapeutas e psicanalistas é conservadora. Quando as pessoas procuram terapia, colocam no profissional toda uma expectativa de que vai ajudar a reflexão, a viver melhor. E ele coloca muito preconceito e moralismo em sua fala. Isso é muito comum, então é preciso muito cuidado para escolher terapeuta, porque ele tem uma arma que é a interpretação, a tendência ao paciente acreditar no que ele diz. Então se fica completamente tolhido.

Estamos num processo para fazer com que as pessoas as novas formas de relacionamento, que ainda é muito recente, certo?

É muito recente. Mas quando um repórter me liga e pergunta se acho que nossa sociedade está preparada para as tendências que aponto, eu convido para vir fazer uma viagem aos anos 1950, 1960. Se alguém chegasse naquela época e dissesse que em algumas décadas as moças não precisariam ser virgens para casar, seria louco. Porque virgindade era algo muito sério. Eu tive amigas que fizeram plástica no hímen para voltar a ser virgem. E tinha muito homem que se descobrisse que a mulher não era, desmanchava o casamento.

A mesma coisa se dissesse que se separaria. Separação era tragédia familiar. Tinha escolas que não aceitavam filhos de pais separados. A mulher era chamada de vagabunda, as crianças discriminadas. Era um horror. Como você podia imaginar que umas décadas depois ninguém liga mais para separação? É a mesma coisa! Hoje tem gente que vai falar que é um absurdo. Mas daqui a 30 anos vai olhar para 2018 e falar “nossa, tinha gente que achava um absurdo, isso hoje é tão normal”.

Você sofre repressão ou preconceito por tratar de maneira natural deste tema de relacionamento que ainda é um tabu?

Nas redes sociais, sou muito atacada pelos moralistas, conservadores. Mas as pessoas mais abertas adoram. Tenho milhares de mensagens dizendo “você mudou minha vida!”, “ler teu livro me transformou”, “eu te agradeço”. Existem comportamentos díspares quando se está no meio de um processo. Mas o maior problema é que as pessoas que atacam na internet não têm argumento. Discordar é ótimo, é normal. Seria tão bom se alguém discordasse com argumentos. As pessoas discordam dizendo “mal amada!”, “ninguém gostou dela na vida!”.

Existe mesmo uma justificativa física para a traição do homem ou os dois têm desejos da mesma maneira?

Primeiro: eu não uso essa palavra. Nem “trair” nem “infidelidade”. O que uso é “relação extraconjugal”. A palavra trair vem carregada de preconceitos, é pejorativa.
Os homens sempre puderam ter várias relações extraconjugais por que eles não engravidam. Essa questão da mulher ser aprisionada e não poder ter relação extraconjugal começou há, mais ou menos, 5 mil anos quando o homem descobriu que participava da procriação. E só com a domesticação dos animais que ele se deu conta disso. Antes achava que o filho era só da mulher, que era colocado no ventre da mãe por um sopro que vinha dos rios e mares. As mulheres tiveram que ser aprisionadas para não correr risco de engravidar de outro homem. E isso só começou a mudar com o anticoncepcional. Foi uma ruptura. Inclusive no sistema patriarcal, que é o sistema de dominação do homem, e que se apoiou no controle de fecundidade da mulher.

Foto: Caiuá Franco

A partir da pílula, com o movimento feminista e luta de igualdade de direitos, hoje as mulheres têm tantas relações extraconjugais quanto os homens. E há estudos de terapeutas, psicanalistas italianos, que mostram que hoje praticamente caiu a culpa que a mulher tinha. Porque a igualdade de direitos é algo muito reivindicado. A tendência é homens e mulheres terem relações extraconjugais com a mesma intensidade, só que começando mais cedo que em outras épocas.

E a exclusividade sexual?

Exclusividade sexual é uma imposição. Como os modelos tradicionais não dão respostas satisfatórias, há um espaço para cada um abrir sua forma de viver. Esta é a primeira vez que as pessoas estão podendo escolher a forma de viver. Porque o maior problema do casamento é o sexo. E as pessoas questionam por que isso acontece.

Tem as razões habituais de familiaridade, intimidade, mas eu acho que o grande vilão é a exigência de exclusividade. Porque o casamento se baseia numa grande dependência emocional do outro. Se eu dependo do meu marido e ele depende de mim, eu não olho para ninguém. Eu tenho medo, pavor de perdê-lo. Essa coisa de exclusividade, de controle, impede a sedução, a conquista.

Você acredita que a busca por outros parceiros é somente no âmbito sexual ou seria também do ponto de vista afetivo?

Antes, havia mais a questão sexual, porque as pessoas eram mais comprometidas com os modelos. Então, era um homem mentir, fingir para mulher e transar com outras mulheres. Hoje, não acho que a exclusividade sexual seja fundamental. Uma vez escrevi um livro junto com meu marido, que é escritor de ficção, que juntava a ficção com comentários meus. Escrevendo sobre fidelidade, fui buscar o que colegas meus falavam sobre isso. Fiquei horrorizada. Porque usam a palavra trair e afirmam que se ‘traiu’ é porque o casamento acabou, não existia mais amor. Então no livro contei isso e contestei, que até pode haver um caso ou outro onde o casamento acabou por esses motivos, mas a imensa maioria de relação extraconjugal acontecem por uma razão: variar é bom.

E quem não sabe disso? Vamos fingir que não sabemos que variar é bom? Wilhelm Reich, foi um psicanalista, companheiro de Freud, que trabalhou muito a sexualidade. Diz que ninguém pensa em criticar a pessoa por que não quer usar a mesma roupa todos os dias ou comer a mesma comida todos os dias. Por que se critica alguém que não quer transar com a mesma pessoa a vida inteira?

Como estamos podendo escolher a forma de viver, quem quiser ficar casado 40 anos e só transar com aquela pessoa, tudo certo. E o outro que quiser ter três parceiros fixos, está tudo certo também. Isso que é importante! Não ter modelos. Não é substituir um modelo por outro. É escolher cada momento a sua maneira de viver.

Você fala sobre uma mudança no padrão de relacionamentos na segunda metade deste século, daqui 30 anos, com um cenário mais aberto de relacionamento em que será normal uma pessoa ter relacionamentos estáveis com várias pessoas.

Eu acho que menos pessoas, daqui mais ou menos 20 ou 30 anos, vão querer se fechar numa relação a dois e mais gente vai optar por ter relações variáveis, múltiplas. E vai ser visto como normal. Não vai ser desamor.

Foto: Caiuá Franco

Para você, quais foram os maiores avanços nos relacionamentos nos últimos 30 anos?

O maior avanço é as pessoas cada vez mais poderem escolher sua forma de viver. Isso está em caminho ainda, não está concluído. É uma tendência, cada vez mais. Eu acho que isso é o mais importante de tudo. Porque se enquadrar em modelos é limitador, aniquila as singularidades. Outra coisa é o avanço do feminismo, que ultimamente tem tido muita força. Estamos evoluindo nas relações. Já se vê poliamor, relações livres, amor a três. Eu vejo como uma maneira de cada um escolher como quer viver.

Em um vídeo no seu canal do YouTube, você fala sobre o ciúme e o padrão de relacionamento atual serem uma construção social e que é necessário refletir sobre esses conceitos. De que maneiras você acredita que essa reflexão pode ser feita? Por onde ela deve começar?

É fundamental que a gente reflita sobre as crenças e valores aprendidos, para nos livrarmos dos moralismos e preconceitos. Desde que se nasce é colocado uma porção de coisas em nossas cabeças. Tem um condicionamento cultural muito forte. E ele é tão forte, que se chega a fase adulta, sem saber o que deseja realmente ou o que aprendeu a desejar. Fazemos escolhas, acreditando que somos livres, mas estamos apenas reproduzindo o que está no inconsciente.

Esse questionamento de padrões pode também fazer com que as pessoas repensem sua própria sexualidade?

Eu acredito até que a bissexualidade seja uma tendência. Cada vez mais pessoas estão rompendo com um condicionamento cultural forte de um só poder gostar de homem e o outro só de mulher. A tendência é as pessoas ficarem mais livres para escolher. Até porque a fronteira entre o masculino e o feminino está se rompendo. E isso é importante. É uma pré condição para uma sociedade de parceria entre homens e mulheres.

Em um cenário de relacionamentos mais abertos, como você acredita que serão compostas as famílias? Como será, por exemplo, a criação dos filhos?

Na verdade, o que a criança precisa é ser amada, respeitada, valorizada. Independente se tem três pais, duas mães, se estão juntos ou separados. Nenhuma criança nasce, pensando que os pais precisam viver juntos, se tem dois pais ou duas mães. Quem põe isso na cabeça da criança é quem convive com ela. No meu livro “Novas Formas de Amar”, tem uma parte que falo sobre poliamor e relações livres que peguei vários depoimentos de pessoas que viveram em famílias poliamoristas e como conviveram com isso. Mas é muito difícil a gente discutir a não-monogamia. Porque as pessoas não aceitam. Tem um estudo que coloquei nesse livro que mostra que, até cientistas, psicólogos que trabalham nessa área de pesquisa já partem de um princípio de que a monogamia é melhor que a não-monogamia. Eles contaminam a pesquisa.

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