Comer de forma saudável é mais barato do que comer ultraprocessados

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Como o consumo consciente pode evitar o desperdício e garantir a oferta de alimentos baratos para toda a população

REPORTAGEM: Ariela Pellegrine e Jéssica Lopez

“É um mito dizer que alimentação saudável é mais cara. Se compararmos o preço de um refresco em pó e de um suco natural, o refresco é mais caro”. A declaração de Priscila Machado, doutoranda em Nutrição em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, mostra um mito comum entre os brasileiros.

De acordo com ela, sai mais barato comer saudável, especialmente se você planejar as compras e cozinhar em casa. “Estamos falando aqui de comer alimentos in natura como arroz, feijão, macarrão, carnes, peixes, ovos, salada, frutas etc.” Alimentos orgânicos também podem ser mais baratos que os convencionais, a depender do canal de comercialização.

Uma pesquisa do “Journal of Consumer Research” confirma que esse mito é irreal. Foram apresentados dois pratos, um com comida mais saudável e o outro nem tanto. Mesmo a primeira opção sendo mais barata, muitos optaram pela opção mais cara e industrializada.

E os alimentos saudáveis poderiam ser ainda mais baratos. No Brasil, alguns produtos industrializados têm menor taxação de impostos do que alimentos saudáveis, como congelados (como hambúrgueres, taxados em 7%) e embutidos (como presunto e salame).

De acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) e da Campanha para Redução de Impostos de Alimentos Saudáveis feita pelo Greenpeace, alimentos como a cebola tem cerca de 16% de imposto e o arroz, um dos alimentos essenciais na dieta do brasileiro, chega a 17%.

Priscila critica o consumo de alimentos processados, aqueles que contém formulação industrial, na maioria das vezes feitos por cinco ou mais ingredientes de baixo custo. “O consumo de alimentos ultraprocessados é maior nas áreas urbanas do país. Isto está relacionado ao estilo de vida das grandes cidades, já que esses alimentos são convenientes por serem prontos para o consumo, possuírem embalagens que facilitam seu consumo em qualquer lugar e também são onipresentes, ou seja, mesmo em lugares onde tradicionalmente não se vende esse tipo de comida você consegue como nas farmácias, bancas de revista.”

Mas essas vantagens dos ultraprocessados são aparentes, reforçadas pelo marketing agressivo feitos destes produtos. Uma dieta ideal é aquela baseada em alimentos naturais ou menos processados e suas preparações culinárias combinadas de diferentes formas para se ter uma alimentação diversificada, nutritiva e prazerosa, explica a pesquisadora.

Má distribuição de comida

Se por um lado falta comida, por outro lado sobra e acaba sendo jogada fora em uma cidade de 12 milhões de habitantes como São Paulo. Milhões de toneladas de comida são desperdiçadas diariamente em todo o mundo. Segundo a FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, alimento é descartado já na colheita e no armazenamento, mas também consumo e no preparo de receitas. Frutas e vegetais são exemplos de alimentos que estragam antes mesmo de serem consumidos – o tempo que ficam no mercado ou na feira já é o suficiente para serem descartados. No Brasil, a maior parcela do desperdício ocorre nessa categoria, com mais de 50%.

Uma forma de combater a fome e conscientizar a população sobre as toneladas de comida que são jogadas fora todos os dias é através dos Bancos de Alimentos. São organizações sem fins lucrativos que contam com a ajuda de voluntários. Recolhem doações e alimentos que estão aptos para o consumo e distribuem para quem precisa. Em São Paulo, existem bancos que recolhem os alimentos e enviam para instituições que preparam comidas para distribuir. Cada banco favorece mais de 22 mil pessoas, em média.

A professora de ensino fundamental da escola EMEF Vila Jacuí Sueli Gomes, cozinheira voluntária do Expresso da Solidariedade, dirigido pela Igreja Renascer, diz que toda semana a instituição recebe doações de alimentos descartados em perfeito estado para o consumo. “São verduras, frutas e legumes que eu comeria. Não daria para ninguém algo que fosse estragado. A gente recebe bons alimentos e faz uma comida bem gostosa e fresquinha para distribuir para os moradores em situação de rua e nas comunidades no entorno do [bairro]Itaim Paulista.”

Entretanto, muitos dos alimentos que são doados, são industrializados, ou seja, não são totalmente saudáveis ou adequados para comer regularmente. De acordo com Priscila Machado, a alimentação adequada para o perfil do brasileiro e especialmente para o paulistano deve ser baseada em insumos saudáveis. “A dieta ideal para o brasileiro é aquela baseada em alimentos in natura e minimamente processados (como arroz, feijão, carnes, ovos, leite, frutas, verduras e legumes) e as preparações culinárias feitas com esses alimentos, priorizando o consumo de origem vegetal, orgânicos e de base agroecológica.”

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