Teatro popular é canal de expressão para as minorias

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Em São Paulo, o segmento ganha força e visibilidade ao abordar temas distantes dos grandes teatros

Por: Letícia Sepúlveda e Isabela Rovaroto 

“População LGBT, homofobia, racismo, violência contra a mulher, violências sociais. Tem uma série de companhias que estão fazendo destes temas uma motivação de criação política e estética”, afirma Mariza Junqueira, atriz, diretora, produtora cultural e professora de teatro.

Formada em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Campinas, ela afirma que as minorias estão ganhando espaço nesse cenário artístico. “Tudo isso surge como uma reação, como um reflexo da sociedade, dessa opressão geral que a gente está sofrendo pelo conservadorismo de todos os lados. O teatro responde a isso e cumpre o seu papel político que existe desde o seu nascimento, leva todas essas discussões para a sociedade.”

Para Mariza, esses espetáculos geram desdobramentos na esfera estética teatral e na sociedade.

O teatro popular sempre foi uma importante ferramenta para a divulgação da cultura brasileira. Ao colocar em pauta assuntos importantes da sociedade que se referem às minorias, como questões de gênero, raça e sexualidade, o teatro se torna um espaço de liberdade de expressão.

O Contraponto procurou companhias de teatro que abordam esses assuntos para entender suas propostas e divulgar seus trabalhos em São Paulo. Todos os grupos entrevistados surgiram da necessidade de abordar temas pouco explorados por grandes companhias, além de dialogarem com a importância de levar os espetáculos para todas as áreas da cidade, principalmente para os lugares mais afastados do centro.

Entre os grupos mais antigos da cidade está o Grupo de Teatro Popular União e Olho Vivo. Fundado há 52 anos no Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da USP. A companhia sempre procurou se apresentar em regiões onde a população não tinham acesso fácil a intervenções teatrais, apresentaram cerca de dois mil e quinhentos espetáculos feitos nos bairros periféricos.

Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, César Vieira, líder e dramaturgo da companhia, explica a importância do grupo: “o Olho Vivo foi importante porque ele iniciou esse movimento nos bairros populares da grande São Paulo, falando da história que é sonegada nas escolas, com um teatro popular com uma linguagem do povo e sendo colocado com
acessibilidade”.

O grupo se apresentou em vários países da América Latina, da Europa e da África. No Brasil os espetáculos percorreram desde o sul do país até o norte. Dentre as montagens mais conhecidas está “Rei Momo”, de 1973, inspirado em escolas de samba e no carnaval brasileiro.

Segundo Níveo Diegues, membro da diretoria do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões do Estado de SP (SATED), nos últimos anos os grupos populares de teatro estão se reinventando. “Tem crescido muito a dramaturgia voltada ao público LGBTQI, ao público negro e as questões femininas, como o empoderamento das mulheres e a questão do feminicídio. Na última década surgiram muito esses temas, eles são recorrentes em vários grupos e coletivos.”

Teatro Popular União e Olho Vivo tem nova peça em cartaz (Foto: Reprodução)

Dentre os grupos que abordam a dificuldade desta parcela da sociedade, está “O Circo de SóLadies”, companhia de teatro popular voltado à questões feministas, formado em 2013, com objetivos de trazer mais espaço de trabalho para as mulheres palhaças. Hoje o grupo conta com quatro atrizes, que atuam em espaços culturais, nas ruas de São Paulo e em hospitais, nos espaços de obstetrícia e ginecologia.

“O corpo na sua dimensão política é o ato de maior poder do teatro”, lembra Mariza. “Atuar é um ato político, além do estético, por isso tem uma importância muito grande e gente jogar um olhar para esses coletivos que trabalham em cima destas minorias”.

Para Tatá Oliveira, uma das fundadores e integrantes do grupo, o espetáculo “O Estupendo circo de SóLadies” sintetiza os objetivos da companhia. “A gente desconstrói esquetes clássicas masculinas e as esquetes tradicionais do circo, que muitas vezes estão arraigadas de machismo e a gente tenta trazer um novo olhar. Também trabalhamos com músicas infantis tradicionais, tem muitas que falam sobre violência doméstica, sobre a mulher sempre trabalhar, então a gente traz outro olhar sobre o papel dos homens.”

Além de estar muito próximo do público infantil, o grupo também abrange várias faixas etárias com seus espetáculos. Segundo Tatá, “nosso foco dentro de tudo o que a gente cria é desconstruir o machismo, trazer um olhar da equidade de gênero para a sociedade”.

Dentro da temática racial, o grupo “Os Crespos” se destaca. Surgiu na Escola de Artes Dramáticas da USP em 2005, quando a quantidade de alunos negros passou a ser maior nas turmas anuais de apenas 20 alunos.

Os alunos negros começaram a propor atividades que discutiam a presença negra nas artes cênicas do Brasil e como se dava essa representatividade. E princípio “Os Crespos” surgem como grupo de estudo, depois se torna uma companhia de teatro popular.

Os Crespos (Foto: Reproduçãe

Para Sidney Santiago, ator e um dos fundadores do grupo, “é importante falar sobre questões raciais no teatro, porque o teatro brasileiro e a arte brasileira são instrumentos completamente racistas, porque oras são instrumentos ainda de peças onde são veiculadas imagens estereotipadas e caricatas. Então falar sobre e história do povo negro no Brasil e sobre o legado africano, é falar de quem nós realmente somos”.

A companhia está há 13 anos com trabalhos ininterruptos, produzindo espetáculos, trabalhando com formação de público e escrevendo textos. Recentemente, apresenta as “quintas crespas”, com diferentes abordagens na construção de narrativas na dramaturgia negra.

“Nós temos um audiovisual, uma teledramaturgia, uma produção textual e um palco completamente brancos. É sobre isso que nós estamos falando, é sobre essa dificuldade de
denunciar essas práticas racistas, porque elas estão tão intrínsecas, que já fazem parte do traço cultural, já fazem parte de como nós nos vemos e de como deixamos de nos ver”. Sidney ressalta a importância de refletir sobre a falta de espaço que os negros enfrentam nas artes cênicas do país.

Para saber mais sobre estes grupos:

Grupo de Teatro Popular União e Olho Vivo: https://www.facebook.com/tuovivo
Circo de SóLadies: https://www.facebook.com/circodisoladies
Os crespos: https://www.facebook.com/cia.oscrespos

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