No auge do gênero, musical LGBT termina no vermelho

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A luta de um produtor independente para conseguir financiamento acabou com a perda de um carro

Por: João Abbade

O ator e produtor Leandro Terra montou “Yank! – o musical” de forma totalmente independente e sem patrocinadores. Não deu nada certo. Terra terminou no vermelho e perdeu seu carro para não entrar em dívidas com o banco. “Em um temporal, meu carro acabou dando perda total. Recebi o dinheiro do seguro e tive que gastar tudo para pagar o que devia.” Entretanto, o Brasil está melhor do que nunca no que diz respeito aos musicais! O ano de 2018 vai bater o recorde de grandes produções com mais de 40 peças em cartaz apenas na cidade de São Paulo. Espetáculos como “A Noviça Rebelde” e “A Pequena Sereia”, liderados por Larissa Manoela e Tiago Abravanel, lotaram todas as sessões durante três meses em cartaz. Enquanto isso, a realidade daqueles que tentam produzir obras menos conhecidas e sem atores da grande mídia é bem diferente.

Musicais estão no seu auge. Desde 1728, quando “A Ópera do Mendigo” uniu as três formas de artes primordiais do gênero (música, dança e representação), nunca tivemos tamanha presença do gênero em tantas mídias diferentes. A Broadway, principal distrito teatral dos Estados Unidos, encerrou a temporada 2017/2018 com recordes históricos de público e arrecadação. Segundo a entidade dos produtores de teatro, as 67 peças da temporada totalizaram US$ 1,7 bilhão em bilheteria. Mais de 13,8 milhões de ingressos foram vendidos no ano fiscal.

“Yank!” é um musical criado em 2005 pelos irmãos Davis e Joseph Zellnik e conta a história de dois soldados que vivem um romance homoafetivo no fronte de batalha da Segunda Guerra Mundial. A peça trata de preconceito, código militar, homofobia e a própria forma como os dois amantes se sentem ao ter um relacionamento em uma sociedade tão conturbada pelo período bélico.

O produtor tentou, de várias formas, financiar o projeto. Aplicou para a Lei Rouanet, foi aprovado e partiu para a fase de captação. Por anos, enviou e-mails a empresas falando sobre suas ideias, mas nunca conseguiu um encontro formal para fechar negócios. Os empresários sempre “batiam na sua cara”, normalmente pedindo atores com fama antes de ceder o financiamento. Depois de dois anos sem respostas, Terra decidiu conversar com pessoas que poderiam se interessar pela temática LGBT para ajudar o projeto a decolar. Os atores da Globo Gabriel Leone e Armando Babaioff (que na época não eram tão famosos quanto hoje) toparam colocar seus nomes na apresentação da peça, mas mesmo assim o mecenato não veio. Ele desistiu temporariamente de tentar.

Leandro voltou a ter esperança em 2016, por conta de uma visita do compositor da peça, David Zelnick, a São Paulo. “Decidi tentar novamente por causa do autor, que veio pra cá e se apaixonou pelo Brasil. Ele até começou a falar português”, conta.

Bem na época da visita, sites como Catarse e Benfeitoria – onde o público pode contribuir com o financiamento de um produto – estavam explodindo. Como última esperança, Leandro decidiu criar uma campanha para Yank. Não deu novamente. A produção conseguiu R$ 13.600 através da campanha. A quantia representou 40% dos gastos finais da primeira temporada do musical, que teve 12 apresentações, durante um mês.

Os outros 60% do financiamento vieram do bolso do produtor, que esperava recuperar o dinheiro através de uma linha de produtos da obra. As mercadorias não venderam o suficiente para cobrir os gastos, e Terra confessa até ter “passado o chapéu” para tentar arrecadar fundos. “Tive que chegar a esse ponto. Expliquei que era uma produção independente, e deu uns R$ 4 ou 5 mil durante o mês”, diz ele.

Foto: Divulgação

Apesar do musical ter se tornado “queridinho” e conseguido lotar algumas sessões – com direito a fila de espera na última semana -, a produção terminou no vermelho.

Por natureza, musicais são muito mais caros que outras formas de teatro. São necessários microfones de precisão e uma aparelhagem de áudio nada acessível. Os teatros também precisam estar preparados, pois muitos palcos não são qualificados para atores dançarem.

O produtor teve muita dificuldade com as Leis de Incentivo à Cultura, mas prefere explicar a dificuldade de financiamento pela situação do país. Para ele, o alto índice de violência faz com que pessoas não queiram sair tanto de casa, enquanto as empresas, em meio a crise financeira, “só querem atores que deem retorno imediato, como Paulo Gustavo e Fernanda Souza”.

A temática LGBT também traz receio aos patrocinadores. “Algumas empresas, por preconceito, não querem patrocinar esse tipo de peça ou associar sua marca com o determinado tema”, analisa o especialista em leis de incentivo, Armando Appel, da Ala Cultural.
Apesar do preconceito e de todas as dificuldades, o produtor do espetáculo diz que a temática abriu mais portas do que fechou, e até trouxe pessoas que queriam ajudar a levar Yank para frente.

As leis de incentivo

A situação de obras musicais independentes no país é complexa. “Hoje, quase não existe pessoas financiando cultura sem ser via lei de incentivo”, diz o especialista da empresa Ala Cultural. “Elas são praticamente responsáveis por todo movimento cultural das artes cênicas.”

Enquanto produções gigantescas como “A Pequena Sereia” e “Wicked” são financiadas com dezenas de milhões de reais, musicais menores são fadados a terem seus projetos aprovados, mas nunca de fato financiados na lei Rouanet – o que escancara problemas na divisão de renda dos benefícios.
A lei é dividida em duas frentes: o mecenato (no qual empresas interessadas doam parte de seu imposto) e o Fundo Nacional de Cultura, em que o próprio governo financia as obras. A primeira, segundo Appel, funciona de forma adequada. “Normalmente se apontam defeitos da lei, mas o mecenato funciona até muito bem”, aponta ele. “A quantidade de projetos maravilhosos financiados através do mecenato é gigante, mas obviamente ainda há alguns ajustes a serem feitos”, complementa.

Foto: Reprodução/Hollywood Pantages Theater

Já o Fundo Nacional de Cultura é a parte mais deficiente das leis de incentivo. Para o especialista, esses recursos do governo seriam muito úteis para financiar projetos que não tem um apelo comercial tão forte a grandes empresas. Com o auxílio do Estado, aquelas atividades não rentáveis seriam estimuladas e poderiam ser produzidas, trazendo uma maior pluralidade artística para a cena, opina Appel. “A quase inexistência do Fundo Nacional de Cultura é o que vem causando a maioria dos problemas e críticas à Lei Rouanet.”

O ex-ministro da Cultura Juca Ferreira (PT) costuma indicar como maior problema o fato dos departamentos de marketing das empresas terminarem decidindo quais projetos verão a luz do dia. “É uma parceria público-privada em que o dinheiro é público, mas a decisão é privada”, criticou ele em um pronunciamento, que aponta o grande poder das empresas como defeito.

Appel diz que até existe espaço para produções menores, apesar de grandes empresas usarem a Rouanet como ações de marketing, apoiando apenas produções com destaque na mídia. “As empresas precisam urgentemente entender que financiamento da cultura é uma coisa e ações de marketing devem ser feitas com receita de marketing.

Um olhar para o futuro

Leandro está tentando entrar em cartaz mais uma vez com Yank!, mas desta vez declara com muita convicção: “sem patrocínio nunca mais”. O que ele está tentando agora é conversar com empresas e mostrar o sucesso de público das temporadas anteriores para conseguir verba direta.
“Se fizéssemos só com o dinheiro de bilheteria sei que perderíamos dinheiro de novo”, diz ele. E dinheiro, Leandro não tem mais de onde tirar: “não tenho mais o que fazer, ia acabar perdendo meu apartamento”.

A história de Leandro mostra que não é fácil captar dinheiro da lei Rouanet, mas depois de tanto sufoco, será que seria possível financiar outro musical de forma independente? Ele diz que atualmente é impossível bancar teatro musical assim. “O gênero é muito caro e existem poucas empresas dispostas a ajudar as pequenas produtoras”, conta.

Mas por que é tão difícil captar recursos através dessas leis? Segundo o especialista, “é difícil captar recursos por que tem muito projeto e poucas empresas para financiar”.

Existe alguma solução para esse financiamento precário? “Precisamos buscar outras formas de financiamentos e fazer campanhas mostrando que patrocinar cultura é um excelente negócio”, finaliza Appel.

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