Mudanças nas linhas não vão resolver problemas dos ônibus em São Paulo, apontam especialistas

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REPORTAGEM: Maria Tereza Santos e Nathalia Alcoba

A mudança preocupa usuários. Sindicato dos Motoristas alega que não foi consultado durante licitação

A gestão Dória anunciou uma proposta para alterar trajetos e linhas de ônibus em São Paulo. A última consulta pública para garantir que a opinião da população fosse escutada acerca dessas alterações ocorreu na primeira segunda de março (05).

Segundo a prefeitura, o intuito é fazer com que os coletivos cheguem a mais lugares e também aumentar o número de assentos, alegando que os ônibus vão ganhar mais velocidade.

O plano é aplicar um modelo de três sistemas: intrabairro, que se trata de vans e ônibus pequenos que farão a conexão entre bairros residenciais e áreas mais densas; articulação regional que abrange os ônibus médios que ligarão essas regiões até os corredores; e por fim, estrutural, que é o sistema que contará com os veículos que farão o percurso até as grandes vias e o centro.

A questão gerou polêmica nas últimas semanas, uma vez que, todas as audiências públicas realizadas pela Secretaria Municipal de Mobilidade e Transporte sequer obtiveram notoriedade à ponto de grande parte da população acompanhar.

Há uma grande contradição na proposta da prefeitura, pois conta com a retirada de 936 ônibus. Sabe-se que o transporte público na cidade tem um grande déficit, o que, com tais mudanças, tende a crescer, dado que o número de baldeações e a lotação irão aumentar.

O edital prevê que o número de veículos deve cair dos atuais 13.603 para 12.667, o que implica diretamente no emprego de 4 mil pessoas, segundo o Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de São Paulo. “Cabe esclarecer que não somos contra o processo licitatório, que nada mais é do que o trâmite legal das contratações públicas. Somos contra aos moldes que o mesmo vem sendo realizado.”, afirmou Valdevan Noventa, presidente do sindicato.

Segundo ele, a elaboração do documento não contou com a participação do sindicato, do Conselho Municipal de Trânsito (CMTT) e nem dos movimentos sociais que lutam pela pauta do transporte público. Além disso, destacou que nas audiências públicas, informações essenciais não eram divulgadas à sociedade. “A principal mudança que nos preocupa é a questão da redução da frota, que pode refletir no desemprego de cerca de 4 mil trabalhadores.”, acrescentou Valdevan.

De acordo com publicação no site da SPtrans, as alterações nas linhas devem começar após seis meses da contratação de novas empresas, com a previsão de término para 3 anos. Porém, afirmaram que os usuários das respectivas linhas serão comunicados com, pelo menos, 15 dias de antecedência.

O pesquisador, Thiago Guimarães, do Instituto para os Estudos de Transportes da Universidade de Leeds ressalta que é complicado defender a proposta da prefeitura, primeiramente pela falta de transparência do processo, uma vez que a sociedade não teve acesso às informações completas e corretas, de modo fácil de entender.

Aliás, Thiago questiona os critérios da prefeitura para dar continuidade no processo, sendo que, aos seus olhos, a proposta não parece verificar as necessidades dos usuários diários. Em seus estudos, concluiu que quando perguntar para a população periférica de São Paulo, qual é o principal problema do meio de transporte, a resposta é única e em bom tom: “a falta de ônibus”.

Diante disso, conversou com alguns moradores da periferia para entender a realidade delas. O pesquisador diz que é notável a falta de estrutura, pois a lotação é tanta que, mesmo morando perto de algum ponto de ônibus, por exemplo, os mesmos já saem dos terminais lotados, não sendo possível a entrada de mais passageiros. Fora que, as pessoas já esperam muito tempo pelo ônibus e mesmo quando conseguem, se submetem à situações degradantes.

Thiago enfatiza que todo seu trabalho é analisado a partir da perspectiva da população. E completa dizendo que há vários problemas, mas o mais grave é a superlotação que não será resolvida com a retirada de algumas linhas, sendo que o número de usuário em SP não vai diminuir, logo, não tem sentido diminuir a quantidade de ônibus e a circulações dos mesmos, uma vez que a necessidade implora pelo aumento.

Outra questão apontada pelo pesquisador é a problemática que o aumento de transferências causa, pois a proposta sugere a quebra de linhas de longa distância para aprimorar mais paradas. Em outras palavras, antes você pegava um ônibus e ia até o final do trajeto, mas agora com a reestruturação, a ideia é ter mais pontos de transferências em curtas distâncias.

Segundo Thiago, São Paulo não conseguiu comprovar que consegue fornecer condições adequadas para tais mudanças, principalmente na questão de transbordo no sistema de ônibus, dado que isso funciona no metro porque o intervalo é menos. E mesmo o metro apresenta suas dificuldades, até de lotação, em horários de pico, por exemplo.

Para ele, é preocupante a falta de proximidade dos governantes, que estão de acordo com essa proposta, com as necessidades da população que utiliza esse meio de transporte. Define como falta de sintonia, porque há uma diferença entre realizar um contato social para averiguar o que é necessidade do que técnicos analisarem mapas em um computador para deduzir a vivência de quem atravessa a cidade todos os dias.

Finaliza esclarecendo que a superlotação – gerada diante da enorme diferença da quantidade de ônibus circulando para com o número de usuários – desencadeia no aumento da espera, no desconforto e até no crescimento nos casos de violência especialmente contra as mulheres.

Inclusive comenta que a remodelação não está respondendo nenhuma aspiração de quem usa o sistema, pois dessa forma estão perdendo a mobilidade seja pelo descômodo quanto pela violência. Ocasionando um impacto social, até em termos de inclusão social, está claro que com isso, a busca por outros meios de transporte cresce, motivando o congestionamento e prejudicando o meio ambiente.

Pedro Mendonça,  pesquisador do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade), diz que é importante lembrar que a rede de ônibus não é só o desenho das linhas, mas também a capacidade e características dos veículos, o sistema de integração e o intervalo entre os ônibus que pode alterar a qualidade do serviço.

“Estamos ‘troncalizando’, mas ao fazer isso, passa a exigir dos outros componentes da rede um desemprenho que eles não têm hoje. Por exemplo, a gente tá ‘troncalizando’ os ônibus em várias vias principais que não têm corredor de ônibus, tem faixa exclusiva – que não é o cenário ideal de infraestrutura. Então, quando você implanta essa medida tendo só essa estrutura, os pontos nem sempre são suficientes”, explicou Pedro.

Assim como Thiago, Pedro aponta o aumento do número de integrações como um problema a ser resolvido, pois “quando você muda a rede de forma brusca, certamente terá um caos e confusão nos pontos da cidade por que as pessoas terão que se acostumar e reaprender como e quais ônibus e trajetos usar para chegar até o seu destino”.

Para ele, a Prefeitura não aplica um investimento considerável em corredores desde 2003 e o ideal seria que ao ‘troncalizar’, tivesse uma previsão de implantação de infraestrutura que garantisse a fluidez na circulação dos ônibus que está sendo prometida.

A Secretaria de Mobilidade e Transporte afirmou que a SPTrans estuda melhorias no sistema permanentemente e que é objeto de estudo da atual administração a paulatina recolocação dos cobradores em outras atividades dentro do sistema, de forma que os profissionais possam exercer outras atividades relacionadas à operação, manutenção ou administração das empresas.

Em contato com a assessoria da SPTrans, a empresa reiterou seu compromisso em evitar a demissão de cobradores e informou que no edital de licitação do sistema de transporte público não constarão regras referentes à operação de linhas sem cobradores.

Conversamos com cobradores de algumas linhas que serão extintas ou terão seus itinerários alterados para saber o posicionamento deles e qual a informação chegou até cada um. A maioria não está sabendo tão bem sobre a mudança e, aqueles que estão informados, acreditam que, ou as alterações serão feitas apenas no final do ano, ou que não irão acontecer.

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