Crise faz crescer comércio ambulante no metrô de São Paulo

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REPORTAGEM: Caroline Hikari e Lucas Estanislau

“Comecei a vender mercadoria no metrô porque é mais fácil e prático do que arrumar um emprego com carteira assinada. Trabalho nenhum com salário mínimo sustenta uma casa com filho”, afirma Luís Santos, pai de dois filhos, residente em Guaianazes e que, além de vender porta documentos de plástico nos vagões do metrô de São Paulo, ainda faz “bico” de segurança noturno aos finais de semana.

Como Luís, vários brasileiros passaram para a informalidade nos últimos três anos com a crise econômica. O comércio ambulante no transporte metroviário da capital paulistana tornou-se um dos destinos de trabalhadores buscando uma forma de sobreviver.

O comércio irregular nas linhas de metrô da cidade de São Paulo aumentou 179% nesses últimos três anos. Segundo dados do metrô, as apreensões de mercadoria, em  2015, foram de 6.664, enquanto que, em 2017, ocorreram 18.543 ações de recolhimento.

Ainda de acordo com informações do metrô de São Paulo, o número de denúncias aumentou de 11.632, em 2016, para 14.724, em 2017. Em nota, a empresa afirma que o aumento das denúncias ocorreu por conta das campanhas realizadas contra o comércio irregular, como investimento em agentes de segurança e o canal de denúncia via SMS.

Para o coordenador do boletim do Grupo de Pesquisas DEPE (Desenvolvimento e Pesquisas Econômicas) da PUC- SP, Marcos Henrique do Espírito Santo, a alta nos índices de ocorrências ligadas ao comércio irregular no transporte metroviário de São Paulo está ligado ao aumento dos índices de subutilização da força de trabalho.

“Em um primeiro momento da crise, em 2015, os que tinham menos escolaridade foram os mais atingidos e perderam qualquer tipo de estabilidade no trabalho, então são os primeiros que vão para o comércio ambulante”, diz o economista, professor da FMU.

Espírito Santo ainda analisa os desdobramentos que empurraram a classe média para a informalidade. “Em 2016, quem começa a sofrer é a classe média que, depois de cortar gastos como escola particular e viagens, passa também a trabalhar como subocupados”.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, que registra a série histórica sobre o mercado de trabalho, desde 2012, pelo realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa composta de subutilização do trabalho no 4º trimestre de 2017 foi de 23,6%, o que corresponde a 26,4 milhões de brasileiros sem emprego formal.

Para o professor, a deterioração do mercado de trabalho e a nova legislação trabalhista aprovada no governo do presidente Michel Temer são algumas das razões para o aumento da subutilização da força de trabalho.

“A nova legislação trabalhista reforça isso, pois serve exatamente para baratear o custo do trabalho. Então, ela reforça esse cenário de recuperação pela via da desocupação e de trabalho com menor remuneração”, diz o economista.

Renato Nascimento, 34 anos, já atua na informalidade no transporte metroviário paulistano desde que perdeu o emprego como mecânico em 2016. Sua renda mensal varia entre R$1.000,00 e R$1.200,00, sendo dividida entre seus dois filhos e esposa. Para Renato, o desafio do comércio ambulante é exaustivo e, por isso, não descarta a oportunidade de poder voltar a trabalhar formalmente.

“De um ano pra cá ficou muito mais difícil porque aumentou muito o número de vendedores e consequentemente as vendas diminuíram”, comenta.

Segundo o professor da FMU, a imprensa e os economistas em geral tratam os trabalhadores em situação de subocupação como pequenos “empreendedores” e que esse discurso só esconde uma péssima situação de trabalho.

“Quando a mídia fala ‘os pequenos empreendedores do ramo alimentício’, estão falando da pessoa que abriu um restaurante e está emitindo nota sobre o produto ou daquele trabalhador ambulante que quando chega o ‘rapa’, perde tudo? É necessário rever o discurso”, afirma Espírito Santo.

A instabilidade e a insegurança financeira também incomodam Wesley Assunção, que vende mercadorias no metrô desde o ano passado. “Não gosto de não saber quanto vou receber no final do mês. Minhas filhas precisam de uma estabilidade”, afirma Wesley.

Ex-pedreiro vindo do interior de São Paulo, Wesley, começou vendendo balas nos metrôs e nos trens. Hoje, não se limita apenas ao transporte público. “De final de semana, eu gosto de ir vender essas lentes [panorâmicas] na Paulista.”.

Para Ruy Braga, sociólogo do trabalho, livre-docente pela Universidade de São Paulo, a informalidade do trabalho tende a aumentar no Brasil.

“Por que a situação estabelecida é de difusão do subemprego, tendo em vista que a nossa economia não gera postos de trabalho qualificados”, afirma.

Braga também aponta a reforma trabalhista como um dos vilões do trabalhador brasileiro e diz que ela “estimula informalidade, o subemprego, a concentração de renda e diminui o investimento capaz de diminui o desemprego”.

Para o futuro, ele não acredita que o cenário seja favorável para o crescimento do emprego e afirma que a “taxa de desemprego tende a se manter”.

“Enquanto não houver uma retomada do investimento, não haverá uma retomada do emprego. Nessas condições, o futuro será sinistro para o trabalhador brasileiro”, conclui Braga.

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