A redefinição do espaço

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No lugar dos pavilhões surgiu uma imensa área de lazer e cultura.

Por Ingrid Duarte

A Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, foi criada em 1911 para ser um complexo prisional padrão. Inaugurada oito anos depois, foi importante para preencher o déficit prisional. Porém, a falta de investimentos na estrutura e a superlotação nos anos seguintes agravaram os problemas nos pavilhões e reforçaram a crise do sistema prisional brasileiro cheio de rebeliões e maus tratos. Na década de noventa, chegou a ter 8.000 detentos e o momento histórico mais marcante  foi quando em outubro de 1992, 111 presos foram executados por policiais durante uma rebelião no 9, conhecido como “Massacre do Carandiru”, que continua presente na memória de vários paulistanos.

Foi tão histórico que filmes, livros e músicas sobre o ocorrido foram lançados. Um livro marcante é o “Estação Carandiru”, escrito pelo Doutor Drauzio Varella que trabalhou na enfermaria da detenção com casos, em sua maioria, de tuberculose e aids. Compartilhou com os leitores o cotidiano da vida no cárcere, e como funcionava a ordem e hierarquia da cadeia.  Já no livro “Carcereiros”, o médico mostra a visão de funcionários dos presídios, agentes penitenciários, carcereiros e administradores. A história que abre o livro narra como um grupo de agentes penitenciários conseguiu impedir que o pavilhão vizinho, o 8, se juntasse ao 9 e como isso evitou a invasão da PM no bloco. O massacre poderia ter uma extensão ainda mais trágica

A música “Haiti” de Caetano e Gil são carregadas de versos fortes,  denunciando o que aconteceu no Carandiru e  questões sociais e raciais “E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo / Diante da chacina / 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos / Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres / E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos”. Em nove minutos de música, o rapper póstumo Sabotage fez “O Retorno”  que critica a crueldade e a falta de respostas do ocorrido “Outra versão, Pavilhão 9, eu vou citar pra vocês / Que os mandantes da chacina ficaram no caso / Sendo tirados de otários, pra todos, acasalados / E nunca são julgados atrás de quem se esconde / Não vão pagar pelo massacre dos 111 / Pois é assim que eles enganam o povo a todo tempo / Pela contagem dos presos se foram embora 300 detentos”.

O coronel da PM, Ubiratan Guimarães, foi o comandante da operação. Ele chegou a ser condenado a 632 anos de prisão pela morte da grande maioria dos presos, mas teve seu julgamento anulado e absolvido. Foi encontrado morto com um tiro em seu apartamento em 2006.  Em 2018, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Joel Ilan Paciornik atendeu ao pedido do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público de São Paulo e determinou que o Tribunal de Justiça de São Paulo refaça o julgamento de setembro de 2016, que anulou a condenação de 74 policiais pelos assassinatos de 77 presos. Ainda não há previsão de data para o novo julgamento.

 

Um dos pavilhões

 

Após um processo de desativação, com o deslocamento dos detentos para outros presídios, aconteceu a demolição dos prédios em 2002. O lugar foi reaproveitado, a arquiteta e paisagista Rosa Kliass junto ao escritório Aflalo & Gasperini participaram do novo projeto, com a criação do Parque da Juventude em 2003 (localizado na zona Norte de São Paulo). Nessa nova criação, as aberturas da vegetação são feitas para as pessoas caminharem e se denomina como espaços sombreados de árvores laterais e coberturas.

O espaço é dividido em três: Parque Esportivo, Parque Central e Parque Institucional, a terceira e última fase do projeto foi concluída em 2007.  Esta estrutura integra um projeto paisagístico, onde o Governo do Estado investiu R$ 6,3 milhões, através da Secretaria da Juventude Esporte e Lazer. Com muita área verde, quadras, ciclovias e lugares para descansar com a família e amigos, os 250 mil metros quadrados são diariamente aproveitados pelos quase 200 mil visitantes por mês

Também há manifestações artísticas e culturais, um exemplo, são os murais trabalhados em grafitti. Na área foi mantida os pavilhões 4 e 7,  antigos muros, ruínas e passarela de vigia como marca histórica do Carandiru, uma forma de nunca esquecer os momentos duros e tristes que muitas pessoas passaram lá. Para quem quer praticar algum esporte ou passar o tempo, mas não tem material, o parque empresta. É só apresentar o documento de identidade no portão 1 para conseguir bolas de futsal, vôlei, handebol, basquete, raquetes e bolas de tênis e de ping pong, jogo de damas e jogo de xadrez.

Grafitti feito no parque

Pessoas jogando basquete

 

A administradora Linda Cavalcante, geralmente vai ao parque caminhar e correr, apesar de não ter muito tempo ela sempre acompanha os informativos regularmente. Sobre o histórico do parque, ela acha importante um local onde teve um sangrento episódio da história  penitenciária se modificar completamente. “É bacana pensar que em um local de tanto ódio, tristeza, hoje crianças brincam e pessoas se exercitam, essa energia atual é muito boa”.

A cada quinze dias, Matheus Verne vai ao parque para encontrar amigos, praticar atividade física, escutar música e frequentar saraus. Mesmo nesses momentos, é inevitável não questionar a transformação do local. “É um ambiente que carrega dores de um genocídio policial incompetente que fez o que melhor sabe, matar negros e pobres, muito se questiona a importância histórica do parque que pode variar por quem conta”, afirma o estudante. Outra frequentadora, Karina Okamoto diz que o parque traz à tona a questão de como lidamos com espaços de trauma social. “Penso que é importante manter a memória desse passado, e ao mesmo tempo ter um espaço cultural, de lazer e de convívio na Zona Norte, resinificando um lugar que tem uma história de peso e passa a ser mais uma opção de lazer”.

Dentro do espaço físico do parque, um dos pavilhões foi aproveitado para a criação da escola técnica ”ETEC Parque da Juventude”. Em 2010, foi criado a Biblioteca de São Paulo, inspirada no conceito de grandes livrarias da cidade, com mais de 35 mil obras e divididas em faixas etárias, para atrair mais leitores e melhorar a comunicação. É agregador para cadeirantes e deficientes visuais com mobílias especiais para cadeirantes e equipamentos para auxiliar a leitura com lupa eletrônica e computadores com leitores de tela. Uma curiosidade, é que semanalmente são adquiridos livros para o acervo da BSP que faz um serviço integrado com a Biblioteca do Parque Villa-Lobos que oferece serviço contínuo de empréstimo de livros, site com catálogo on-line e sugestões.

Fachada da biblioteca

Ainda aproveitando o espaço do parque para fazer piqueniques e descansar, Karina frequenta a biblioteca de vez em quando. Apesar de não conseguir participar ativamente das atividades fornecidas, ela acha interessante as propostas que incluem peças, bate-papos e apresentações musicais. “Fui umas vezes ao Segundas Intenções, um bate-papo com escritores. Considero relevante a possibilidade de conhecer autores contemporâneos e suas obras, de um modo que os aproxima do público, de leitores e possíveis leitores”, reitera. Já Matheus aproveita o espaço silencioso “Busco livros da faculdade e tenho meu  próprio momento de leitura”.

Lembrando o fácil acesso, com a interligação da linha de metrô Carandiru. Permitindo moradores da região e de outras regiões se deslocarem facilmente ao parque e suas mediações para conhecer o ambiente simbólico do que foi e o que é o. O funcionamento é das 6:00-19:00 todos os dias da semana.

Endereço: Av. Zaki Narchi, 1309 – Carandiru – São Paulo.

 

Seguem mais fotos:

Entrada da Biblioteca e momentos de lazer

Área Central do Parque

Menino fazendo manobra de skate no espaço esportivo

Menina andando de bicicleta

Escultura do Parque Central

Área Central do Parque

Ruínas do Parque

Ruínas do Parque

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