Um olhar ao Edifício Wilton Paes de Almeida

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Por Clara Marques

Naquele feriado de 1º de maio, acordei um pouco mais de onze horas da manhã. Fui conversar com a minha mãe e ela me perguntou se eu tinha visto o que tinha acontecido no Largo do Paiçandu. Nesse momento peguei meu celular e comecei a entrar nos aplicativos de notícia para saber exatamente o que era aquela história de um prédio de ocupação ter desabado durante a noite.

Fiquei um pouco assustada com as coisas que li e liguei a TV na Globo News, minha mãe veio me contar do homem que quase tinha sido salvo, mas que o prédio despencou bem na hora que os bombeiros estavam tentando salva-lo. Não quis ver aquela cena. Levei o dia inteiro para ter coragem de ver o Ricardo, conhecido como Tatuagem, caindo junto com o prédio incendiado. Durante essa terça-feira inteira fiquei pensando que eu queria estar de plantão na CBN, rádio onde eu trabalho, para poder acompanhar de perto aquilo tudo que estava acontecendo.

Na minha mente, isso é um pouco contraditório, por um lado eu queria muito estar por perto para poder acompanhar tudo, ver o trabalho dos bombeiros, conversar com aquelas famílias que conseguiram escapar, mas por outro eu queria não estar me formando jornalista, não ter acesso as notícias e saber o sofrimento que aquelas 30 famílias iriam passar a partir daquele dia.

Nos dias que correram após o acidente, eu fiquei bem atenta para saber como as coisas estavam andando, mas não tive coragem de pedir para o meu chefe para eu ir para o Largo do Paiçandu acompanhar as buscas por sobreviventes. Passada quase uma semana pensei: “eu posso acompanhar isso de perto e sentir de verdade como é estar numa situação tão difícil quanto essa”. Enquanto estava na aula de manhã, liguei para chefe de reportagem e pedi para acompanhar a repórter que estava indo para o Largo.

Passei em casa, troquei de roupa, porque me avisaram que estava com muita poeira e sujeira no local. Cheguei lá no Largo do Paiçandu, em frente à Galeria do Rock. Passei pelo acampamento dos moradores, montado na frente da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, cercado por grades de todos os lados.

A primeira impressão que eu tive quando cheguei foi a de que esses moradores pareciam animais presos em um zoológico e os curiosos do lado de fora tirando muitas fotos. Entrei na área da imprensa, os policiais conferiram meu crachá. Encontrei a repórter e ela logo me disse – “Clara, precisamos colocar as máscaras, a quantidade de pó é muito grande e os bombeiros estão pedindo precaução à imprensa”. – Achei estranho, porque lá no acampamento, nenhum morador estava usando máscaras, mas peguei a minha e fiquei com ela o dia inteiro.

Passei o dia inteiro ali, esperando que uma hora ou outra os bombeiros avisassem que tinham encontrado alguma pessoa viva ou alguma célula de sobrevivência. Aquela agonia foi me consumindo durante o dia e cada vez que havia algum tipo de movimentação dos bombeiros, eu ficava bem atenta para saber se havia alguma novidade. Na sexta anterior, o Tatuagem tinha sido encontrado.

Enquanto estava sentada no banco do lado esquerdo da praça, veio uma moradora eufórica contando que uma parente dela tinha aparecido e tinha todos os comprovantes de pagando do aluguel do barraco que ela tinha dentro do prédio. Todos os repórteres foram até ela e ela contou tudo o que estava acontecendo e aquela foi a primeira vez que algum morador me contou o lado deles nessa história toda.

Passei por volta de sete horas sentada no Largo do Paiçandu. Começou a escurecer e os ratos começaram a aparecer. No primeiro dia, vi uns dez ratos passando por perto de mim e comecei a lembrar daquelas famílias que viviam no acampamento, elas estavam morando ali com aqueles ratos. Depois de tudo, cheguei em casa exausta e eufórica. Contei para os meus pais tudo o que tinha acontecido e fui dormir. Foi bem difícil deitar minha cabeça no travesseiro e dormir sossegada sabendo que existiam pessoas morando ali, naquela praça, com bebês e idosos.

Dois dias depois voltei para lá, vivi toda aquela situação de novo. Dessa vez eu entrei no cercado dos moradores e conversei com alguns. Uma moça olhou para mim e disse que eu poderia conversar com o secretário de moradia de São Paulo para ajudar todos eles. Me senti impotente. Como eu poderia falar com ele? O que eu poderia fazer para aquelas pessoas? Não sabia. Passei o dia inteiro pensando nisso. Foi mais um dia difícil. Cheguei em casa e desabei, chorei até soluçar. Depois de pensar o dia inteiro, eu ainda não sabia como eu poderia ajuda-los.

Aquela semana foi difícil. Hoje eu percebi que aquelas pessoas não são mais citadas nos jornais, que a história da vida delas não é mais tão importante para a mídia. Hoje eu percebi que eu ainda não sei o que eu tenho que fazer para ajuda-los. Hoje eu continuo pensando que com a minha profissão eu fiz o que era possível e como indivíduo também. Mas será que se todos fizessem um pouco essas milhares de pessoas que vivem em situações como essas não teriam condições melhores de vida? Eu fiz o que eu podia, mas eu ainda não sei se isso foi suficiente.

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