Os milhares de “Harry Potter” da vida real

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Por Beatriz Gimenez

Você teria a capa de invisibilidade do Harry Potter? Na saga, o personagem a manipula no momento e da maneira que quiser para descobrir mistérios e segredos. Parece divertido. Mas e se você, de uma hora para outra, ficasse preso dentro dela? No começo não parece uma ideia tão ruim, mas e se depois de um tempo, quando finalmente conseguisse retirá-la, sua presença passasse a incomodar?

Assim, você não consegue livrar-se dela por completo. Quando você a retira e tenta pedir por socorro, aparece alguém para colocá-la de volta. Poucos se dispõe a ajudar: te auxiliam a tirá-la, mas logo um desconhecido o cobre novamente. Você, em algum momento, provavelmente se deixaria vencer pelo cansaço e, invisível, não conseguiria emprego, passaria fome e frio, já que a capa não o protege.

“Mas por que ninguém me ajuda?”, você se perguntaria.  Muitos olham para essa pessoa presa na capa e acreditam que ela permanece nessa situação por vontade própria. “É só tirar”, elas diriam. “Isso é preguiça, coisa de vagabundo, de quem não quer trabalhar”. E você permaneceria vagando, procurando uma saída para sobreviver a cada dia.

Durante as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro, muitas pessoas foram retiradas de suas moradias e vestidas com as capas para, em seu lugar, crescerem infraestruturas que hoje em dia estão abandonadas. Mais recentemente, a queda do edifício Wilton Paes de Almeida no Largo do Paissandú, centro da cidade de São Paulo, deixou centenas de desabrigados. No início, todos os olhos e câmeras estavam voltados para o local, mas, cada dia mais, essas pessoas passam a vestir as capas, doadas pela população, imprensa, e até mesmo pelo governo.

O Brasil não conta com dados oficiais da quantidade de pessoas em situação de rua no país, mas de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), existiam cerca de 101 mil em todo o Brasil no ano de 2015. Desse número, 40,1% vivem em grandes cidades, com mais de 900 mil habitantes, e 6,63% em municípios menores, com até 10 mil habitantes. Na capital paulista, essas pessoas somam de 20 a 25 mil, sendo 3% crianças. Na cidade, sua quantidade aumenta cerca de 4,1% ao ano.

“Somos todos invisíveis. Nossa presença não faz diferença para ninguém, apenas para aqueles que passam por nós e sentem medo ou raiva. Acham que todos são vagabundos, mas estão enganados. Eu sou um homem de bem, de família, estou aqui de passagem, apenas por acaso”. Esse relato foi divulgado em matéria do portal G1 da Rede Globo em que um grupo de repórteres acompanhou pessoas em situação de rua no estado do Espírito Santo. Este, especificamente, quis permanecer invisível, não revelando sua identidade.

Porém, isso não é exclusividade brasileira. Com a chegada do casamento do príncipe Harry com a atriz Meghan Markle, no Reino Unido, desabrigados de Windsor, onde ocorreu o evento, foram orientados a ir para abrigos e tiveram seus pertences recolhidos pela polícia. A atitude causou discórdia: enquanto agentes alegavam que a ação não passava de uma medida de segurança, entidades criticavam, afirmando que o governo inglês era responsável por cobrir toda essa população em situação de vulnerabilidade com as famosas capas.

Felizmente, existem alguns que enxergam através da capa e lutam para, quem sabe, extingui-las. Assim, projetos como o SP Invisível tornam-se cada vez mais comuns com o objetivo de fazer a população olhar ao seu redor e humanizar todos que veem. “Quando todas as pessoas olharem alguém na rua e verem uma pessoa, não um lixo. Olharem para uma situação de injustiça e não se calarem. Olharem para alguém que precisa de ajuda e ajudarem. Quer dizer que elas estão enxergando através da lente do amor”, afirmam em seu site.

A organização quer conscientizar o próximo em relação às várias histórias invisíveis de São Paulo porque, na verdade, essas capas são um pouco diferentes daquela dos livros de ficção: elas só dependem daquele que olha. Para alguns, elas têm 100% de eficácia, para outros, é possível ver apenas um relance daquele que está por baixo, e, para poucos, a capa funciona como um holofote, evidenciando ainda mais aqueles que a usam.

Por baixo das capas existem narrativas: o órfão, a mulher que fugiu de casa por sofrer violência doméstica, um pai de família que foi para a cidade grande buscar melhores condições para a família, uma vítima do álcool, das drogas, da morte ou da vida. É injusto avaliar alguém baseado naquilo que está em frente aos olhos, enquanto tantas coisas mais estão escondidas por trás de um corpo magro, com frio, olhos pequenos ou pele enrugada. Tanto mais está invisível além daquilo que escolhemos não ver, coisas que muitas vezes fariam pessoas, almas e histórias brilharem e ofuscarem a rotina cega em que vivemos.

Pessoas em situação de rua são invisibilizadas por nós, quando julgamos, pela imprensa, quando desqualifica, e pelo governo, que utiliza a estratégia da capa para todos os problemas os quais não tem capacidade ou ímpeto de resolver. Mais capas são confeccionadas e doadas a cada dia, mas parece que o menino Harry Potter foi o único que conseguiu tirar proveito do objeto amado na fantasia e odiado na realidade.

Foto: Reprodução/Periferia em Movimento

 

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