A primeira é a mais importante

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Por Rachel Castilho

Eu tinha 6 anos quando ganhei a minha primeira bola. Branca e preta, a convencional, foi a minha melhor amiga por uns 3 anos, quando, já totalmente destruída, foi substituída por outra, dessa vez dourada. Durante os três anos que passei com a minha primeira, fui o garoto mais feliz do mundo. Saía para brincar de bola toda tarde com meus amigos da rua, não importava se fazia sol ou se chovia. Minha mãe ficava louca comigo e ia atrás de mim assim que começava a escurecer, trazendo para casa um moleque imundo e falando irritada: “eu não te disse, Alessandro, que era para estar em casa às 18h hoje?”. A minha rotina era ir para a escola, voltar para casa, almoçar e ir encontrar meus amigos, com quem ficava jogando até umas 20h, se tivesse sorte e minha mãe estivesse ocupada com suas tarefas domésticas. Era divertida, aquela época.

Tudo mudou depois que fiz 10 anos. Meu pai perdeu seu emprego por conta da crise, enlouqueceu e começou a beber mais do que deveria, se tornou um homem agressivo que batia na mulher e nos três filhos sempre que chegava em casa depois de um dia exaustivo procurando emprego ou bebendo no bar. Após um tempo, ele também conheceu outra mulher e, depois de 6 meses desempregado e de ter gasto a maior parte das nossas economias pelos bares da cidade e com presentes para a nova amante, ele nos abandonou e fugiu com ela.

Com três filhos para cuidar, um de 14, eu com 12 e o caçula de 5, minha mãe começou a se desdobrar em duas para ter condições de colocar comida na mesa. Antes ela vendia doces e salgados para complementar na nossa renda, mas, com a fuga do meu pai, isso parou de ser o suficiente. Então ela se tornou empregada doméstica, trabalhando das 6h às 16h todo dia e, ainda assim, precisando continuar com seu comércio informal de coxinhas e trufas. Logicamente ela não dava conta de tudo, então eu e meu irmão mais velho começamos a ajudá-la. Toda tarde eu ia de ônibus até a casa da patroa, logo depois da aula. Lá, tomava conta dos dois filhos dela, gêmeos de 6 anos, enquanto minha mãe cuidava da casa e preparava os salgados e doces.

Nós jogávamos videogame, brincávamos de carrinho e, depois de meses de insistência dos dois, saíamos para jogar bola com uns garotos da rua deles. Foi aí que minha vida começou a mudar. O pai dos dois trabalhava numa escolinha de futebol em Belo Horizonte e, um dia, saiu mais cedo do serviço e chegou em casa a tempo de ver seus garotos brincando de futebol na rua. Ele viu os gêmeos jogando, mas também me viu e gostou do que via. Então chamou minha mãe para uma conversa e disse que considerava que eu tinha futuro se investisse no esporte. Ofereceu uma bolsa para que eu pudesse praticar, desde que ela aceitasse passar o dia todo no emprego. Ela, um pouco emocionada, um pouco assustada, aceitou o acordo e começou a trabalhar em período integral na casa dele, só voltando para casa nos fins de semana. Para que não dormíssemos sozinhos, pediu para uma vizinha nossa dormir em casa, uma garota de uns 25 anos que era filha da sua melhor amiga.

Assim nós seguimos por uns dez meses, até que, em um jogo amistoso da escolinha, um olheiro da base do Cruzeiro apareceu e me viu jogar. Ele estava lá para ver os garotos mais velhos, os de 15 anos, mas aproveitou para acompanhar as partidas dos mais novos e, nisso, me conheceu. Em nenhum momento daquele dia eu percebi que estava sendo observado, mas, no dia seguinte, o patrão da minha mãe me chamou e contou que eu havia sido convidado para participar de uma espécie de peneira no Cruzeiro, que iria ocorrer dentro de três dias. Eu me animei e fui, mas não me saí muito bem, porque estava muito nervoso. Ou seja, minha entrada no mundo do futebol acabava de escapar por entre os meus dedos.

Continuei treinando na escolinha, porém, dois meses depois da peneira, o patrão da minha mãe, seu Salvador, recebeu uma proposta irrecusável para trabalhar em São Paulo e se mandou para lá, com a família. Minha mãe não aceitou se mudar para a grande metrópole com eles, principalmente porque não tinha a menor condição de levar os filhos e não queria de modo algum nos abandonar, como o meu pai havia feito. Acordo desfeito com o antigo patrão, perdi o direito de frequentar a escolinha e decidi que o meu futuro não seria no futebol. Ia para a escola toda manhã e toda tarde ajudava minha mãe a procurar emprego. Ela e o meu irmão, nessa época com 16 anos, começaram então a trabalhar em um pequeno restaurante, ela como cozinheira e ele como garçom, e eu passava as tardes com o meu irmão caçula. Nessa época eu decidi que conseguiria meu futuro através dos estudos, então abandonei de vez a ideia de me tornar jogador profissional.

Segui com a minha vida, nunca consegui superar o esporte – sempre sonhando com o dia da peneira – e, quando estava começando a pensar em prestar vestibular, recebi uma ligação de um antigo treinador meu na escolinha: ele tinha se tornado auxiliar técnico de um clube de interior, o Batatais, e queria me convidar para participar de uma seleção do time, para participar da Copa São Paulo de Futebol Júnior do ano seguinte. Ele me disse que o elenco já estava praticamente fechado, mas que ele se lembrava muito bem de mim e queria me dar uma chance, uma chance que ele considerava que eu nunca havia tido quando era mais novo.

Convencer a minha mãe a me deixar encarar uma viagem para São Paulo foi o mais difícil. Depois de muita conversa e do apoio do Gustavo e do Antônio, meus irmãos, ela decidiu que era uma boa oportunidade e me liberou. Eu fui, consegui a vaga na equipe e me mudei em definitivo para São Paulo, pelo menos até o final da Copinha.

Foto Reprodução: Observador Regional

Logo no primeiro jogo minha equipe já surpreendeu o adversário. Era uma partida contra o Linense, time do interior de São Paulo, e nós ganhamos, com um gol e uma assistência minha. O seguinte foi contra o Botafogo-RJ, onde encontramos uma dificuldade natural, já esperada, mas mesmo assim conseguimos perder por um placar mínimo. Classificamos para a fase seguinte, onde derrotamos uma equipe do Paraná, o Londrina, e depois passamos pelo Figueirense. Nas oitavas de final, encontramos nosso maior adversário, os meninos da vila, e saímos derrotados. Mas a derrota não foi o fim para mim: com o término da Copinha, os dirigentes do Santos me procuraram e disseram ter interesse no meu futebol, oferecendo uma chance de fazer parte do clube. Passei por mais uma peneira e, dessa vez, fui bem sucedido e entrei para a base do Santos, com quase 18 anos.

Durante o ano todo treinei com os outros garotos da base, depois de muita conversa com a minha mãe, explicando a grande oportunidade que me havia aparecido. Ela, muito feliz, concordou com a minha mudança e começou a se desdobrar em duas, ainda mais, para que fosse possível me manter em São Paulo, sem trabalhar, apenas focado nos treinos. Depois de um ano e meio vivendo dessa forma, disputando todos os campeonatos sub-20 pelo Santos, chamei a atenção do time profissional e subi.

Realizando um sonho, tendo me tornado profissional, vi minha vida começar a decolar. Um dos atacantes xodós da torcida, sempre que o jogo complicava ouvia meu nome sendo gritado pela arquibancada, pedindo para que fosse colocado em campo. Até que tive a minha grande oportunidade no time titular, quando o atacante titular sofreu uma lesão e rompeu o ligamento do joelho. Entrei em seu lugar e surpreendi bastante, mostrando que, com menos de 20 anos, já tinha condições de atuar em quase toda a partida, cansando só lá pelos 70 minutos de jogo. Minha maior dificuldade era a parte física, ainda era muito magrinho, então decidi me dedicar ao máximo para que pudesse ter desempenho total do meu corpo durante as partidas, para que meu corpo e minha mente estivessem totalmente conectados durante os 90 minutos do jogo. E, depois de seis meses intensivos de treino, consegui encontrar uma forma bem próxima à ideal para aquele momento e para a minha idade.

Me tornei titular absoluto, queridinho da torcida, o cara a ser marcado e temido pelos rivais, e logo vi meu contrato ser renovado e meu salário aumentar consideravelmente. Consegui levar minha mãe e irmãos para São Paulo, comprei uma casa boa para nós quatro e os tirei do trabalho quase informal em que se encontravam. Era o recomeço da nossa vida, um novo começo merecido, depois de tanto sofrer e de tanto trabalhar por isso. Continuei me dedicando ao máximo ao Santos, até que, depois de dois anos, recebi uma grande proposta para atuar na Europa, na Inter de Milão.

Com 22 anos, dez anos depois do momento mais difícil da minha vida, mudei para a Itália e senti a grande diferença entre o futebol jogado por eles e o que jogava no Brasil. Além disso, a língua, o clima e a comida também pesaram muito para mim nos primeiros meses depois da mudança, assim como a saudades de casa e da minha família, novamente longe de mim. Apesar disso, não desisti e consegui me adaptar às mudanças, fazendo com que fosse reconhecido mundialmente, pelo meu estilo alegre e decisivo, sempre definindo as partidas.

Depois de 8 meses jogando na Europa, recebi a minha primeira convocação para a seleção. Desde então, venho sendo chamado para todos os jogos. Não perdi minhas principais características com esses anos e essas mudanças, apenas aprendi a aprimorar meu talento e a jogar com mais inteligência, eu amadureci em campo. Além disso, nunca esqueci minhas origens, e criei uma fundação para selecionar jovens talentos que não tem condições de pagar por uma escolinha de futebol, na minha cidade, um projeto que planejo aumentar com o tempo. O futebol mudou a minha vida, mesmo eu tendo desistido dele por um momento. Tudo o que eu desejo é que outros garotos, assim como garotas, também tenham oportunidades de mostrar suas habilidades, mesmo que não sejam os mais ricos do bairro. Eu passei por isso e quase fui esquecido, quase deixei as minhas habilidades para lá, porque fui reprovado na primeira oportunidade e porque não tinha condições econômicas. São inúmeras as crianças que passam pelo mesmo que eu passei, por isso dar oportunidade para elas é tão importante.

Minha mãe voltou a estudar, está fazendo um curso técnico em farmácia, que ela sempre quis fazer. Meu irmão mais velho, o Gustavo, que aprendeu a gostar da vida nos restaurantes, resolveu fazer faculdade de gastronomia. Já o caçula, o Antônio, está terminando o ensino médio e já mirabolando qual curso será o ideal para ele fazer na faculdade. Assim que tive condições, dei uma vida decente para a minha família, que tanto se sacrificou para que eu tivesse condições de seguir meus sonhos. O meu pai eu nunca mais vi, não sei nem ao menos se está vivo. Entretanto, se um dia ele reaparecer, terá espaço certo na minha vida. Apesar dos erros que cometeu, ele continua sendo o meu pai e eu ainda o amo.

Amanhã é a estreia do Brasil na Copa, a minha estreia em Copas do Mundo. E eu sinto como se isso fosse só mais um novo começo para mim, um novo começo para escrever a minha história na história. A minha primeira bola? Está muito bem guardada na minha casa na Itália, como um troféu, mesmo estando caindo aos pedaços. Afinal de contas, ela foi a minha primeira companheira no futebol, aquela com quem dividi os meus primeiros momentos fazendo aquilo que eu mais amo e que tanto mudou a minha vida.

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