A arbitragem brasileira tem que acabar.

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

Por: Edilson Henrique Muniz

Quando era criança, jogava futebol nas ruas da minha cidade e das cidades dos meus avós. Era simples: o dono da bola chegava e era um dos que escolhia o time, o outro era, em geral, o chefinho do grupo.

A escolha começava, mas era quase que apenas uma formalidade. Um protocolo da CBFR (Confederação Brasileira de Futeboleirinhos de Rua). Os times quase sempre eram os mesmos, criava-se até certa rivalidade entre os atletas. Não havia juiz jogando moedas para o alto.

O jogo começava. Em geral, o time do dono da bola dava o pontapé inicial. Nada combinado, era senso comum. Se alguém se atrevesse a reclamar, os próprios companheiros de time apartavam e usavam aquilo como primeira motivação: “a gente recupera e já vai no contra-ataque, bora!”. Não havia árbitro apitando e concedendo permissão para que a bola rolasse.

Há quem pense que era violento. Nada disso. A regra com relação a faltas era simples e direta: pediu, parou. Não tem conversa, não pode continuar o jogo. Claro que havia quem reclamasse, como não? Está na alma do brasileiro desde pequeno a reclamação. Mas assim como o início do jogo, a contestação cessava com a mesma rapidez com que era cobrada a falta. E logo se deixava para lá o protesto. Não havia árbitro nenhum paralisando o jogo.

Entradas duras acontecem, é jogo de contato. Não há o que fazer. Mas ao invés de rolar no chão, espernear de dor e atrasar a partida, rapidamente dois ou três garotos se prontificavam a levar o ferido para a calçada, sempre perguntando se ele havia se machucado. Jogávamos com um a menos sem problema, ou alguém que estava esperando para jogar entrava e era feita a substituição. Não havia árbitro levantando placas luminosas e autorizando substituições.

Cartão vermelho.

Ninguém sabia falar inglês, mas o tão aclamado Fair Play, divulgado à exaustão em todos os campeonatos possíveis e imagináveis, era algo natural. Quando um morador passava pela calçada, logo um dos jogadores gritavam: “PARÔ”. E era prontamente atendido. Todos permaneciam em seus lugares. Não havia um que se atrevesse a ir em direção à bola tentar roubá-la. Jamais. Era como se fossemos bonequinhos de jogo de videogame e nosso controlador apertasse o pause. Assim que a pessoa passasse, o jogo era reiniciado. Exatamente de onde parou, com as mesmas circunstâncias defensivas ou ofensivas. Não havia árbitro pegando a bola e colocando ao chão, forçando um reinício de jogada completamente nova.

O apito final poderia ser dado de várias formas. O sol, dando seu adeus e cortando a luz das nossas arenas. Mães que apareciam nas janelas gritando que era hora do banho para jantar. A falta de jogadores, depois de quase todos estarem com bolhas na sola do pé ou sem o “tampão” do dedo, arrancado em um chute errado. Não havia árbitro olhando o relógio e apontando o centro do campo para finalizar a partida.

Para quê ter árbitros que não são valorizados por suas federações? Que não recebem apoio nem do maior órgão do esporte nacional, a CBF? Que não tem treinamento adequado e constante para evitar confusões? Que não são reconhecidos como profissionais e precisam ter suas outras fontes de renda durante a semana? Que quando acertam passam despercebidos e quando erram são crucificados?

Os graves erros que podem mudar resultados de jogos, como o pênalti mal marcado para o Vitória contra o Flamengo na rodada inicial do Brasileirão 2018 ou de campeonatos inteiros como no jogo entre Internacional e Corinthians no confronto direto pelo Campeonato Brasileiro de 2005. Eles são vistos a cada final de semana e não se encerrarão enquanto o futebol for tratado com toda pompa e garbo, mas a arbitragem ser sucateada deixada a Deus dará.

A competência deve vir acompanhada do auxílio. Nenhuma classe melhora sem investimentos sérios e tratamento profissional. Se for para deixar como está, que voltem com o futebol de rua e institucionalizem o “rachão”. Pelo menos assim, não haverá vilões ou heróis ditando as regras do jogo.

Share.

About Author

Leave A Reply