30 anos depois: o legado do herói dos povos da floresta

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A vida de um dos maiores ativistas ambientais ainda ecoa e sua luta ainda é fundamental nos dias de hoje

Por Gabriela Fogaça

2018 marca 30 anos da morte de Chico Mendes. Há quinze anos, o jornalista brasileiro Zuenir Ventura voltava ao Acre para concluir a série de reportagens que havia realizado sobre a morte do seringueiro, sindicalista, ativista político e ambientalista brasileiro, assassinado em 1988. Assim, à luz do jornalismo literário, nasceu o livro-reportagem “Chico Mendes: Crime e Castigo”.

Chico Mendes. Foto: Divulgação/Internet

Chico Mendes, apelidado como o “herói dos povos da floresta”, tinha 44 anos quando foi morto em 22 de dezembro de 1988. Pobre e iletrado, nascido em Xapuri, ele entrou para a profissão de seringueiro aos nove anos. Chico se tornou um defensor da floresta e dos direitos dos seringueiros ao indignar-se com as condições de vida dos trabalhadores e dos moradores da região amazônica, tornando-se um líder do movimento de resistência pacífica. Também atuou na política, ajudando na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e sendo um de seus dirigentes no Acre. O ativismo de Chico Mendes foi reconhecido internacionalmente e, ao mesmo tempo, provocou conflitos com donos de madeireiras, de seringais e de fazendas de gado, ao travar a luta pela posse de terra contra os grandes proprietários. Seu trabalho demonstrava a desigualdade existente no Brasil e a constante falta de proteção por parte do governo em prezar pela vida de seus cidadãos.

Assim, o livro “Chico Mendes: Crime e Castigo”, da editora Companhia das Letras, traz uma imersão profunda no universo do maior líder sindical e ambientalista da Amazônia.

A obra é dividida em três partes: o crime, o castigo e 15 anos depois. “O crime” traz as reportagens feitas para o Jornal do Brasil após o assassinato do seringueiro. A segunda parte “O castigo” reúne as reportagens produzidas dois anos depois, em 1990, durante a segunda e a terceira viagens de Zuenir Ventura ao Acre, para cobrir o julgamento dos assassinos. Já a última parte, “15 anos depois” conta sobre o retorno do repórter ao estado acreano para revisitar os lugares e os personagens envolvidos no crime.

O autor relata que a justiça parecia algo inviável em Xapuri. “As testemunhas morrem de medo, a polícia não tem condições técnicas e materiais de investigação e os promotores praticamente não existem”. Além disso, o livro mostra como Chico Mendes, por diversas vezes, tentou denunciar que sofria ameaças de morte às autoridades brasileiras, mandando até uma carta ao então presidente da república, José Sarney.

A segunda parte do livro fala sobre o julgamento dos assassinos, Darci Alves Pereira e Darcy Alves da Silva, ambos condenados a 19 anos de prisão em dezembro de 1990. 15 anos após a morte de Chico Mendes, Zuenir Ventura revisitou o Acre para concluir sua reportagem sobre o herói dos povos da floresta.

O capítulo “Impressões de viagem” traz algumas anotações de Ventura em forma de diário. O estilo de escrita do jornalista mostra que o livro é mais do que uma série de reportagens sobre a morte de um ativista, mas carrega pensamentos e críticas sobre o acontecimento, os locais e as personagens envolvidas nesse contexto.

30 anos depois da morte de Chico Mendes, sua luta ainda continua viva e sua vida serve como um exemplo de resistência ao povo brasileiro. Através de uma linguagem sensível, o jornalista remonta a trajetória de Chico Mendes e revive sua memória e seu legado. Ventura acrescenta que a profissão de jornalista é um processo em constante construção, “um interminável exercício de aprendizado e descoberta”.

“Só depois que ele morreu, aos 44 anos, é que o Brasil descobriu haver perdido o que custa tanto a produzir: um verdadeiro líder”

A luta pela democratização da terra

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Integrantes do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Uma das bandeiras levantadas por Chico Mendes ainda ecoam nos dias de hoje. O direito à terra, monopolizada pela preservação do latifúndio e da exploração da monocultura mostra a necessidade urgente de uma reforma agrária no Brasil. O objetivo da reforma agrária é redistribuir as propriedades rurais para que a terra realize sua função social. Segundo o Estatuto da Terra, criado em 1964, o Estado é obrigado a garantir o acesso à terra para aqueles que vivem e trabalham nela. Também é possível argumentar que o direito à terra é um direito humano, já que ela proporciona e configura, para milhares de famílias rurais, o acesso à moradia, alimentação e ao trabalho.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é um movimento político e social brasileiro. Fundado na década de 1980, ele luta pelo direito à terra e pela reforma agrária, por meio da organização dos trabalhadores rurais. Atualmente, o MST está presente em 24 estados nas cinco regiões do Brasil, totalizando cerca de 350 mil famílias que conquistaram a terra. Desde 2016, o movimento vem realizando a Feira Nacional da Reforma Agrária, que acontece no primeiro semestre do ano, na cidade de São Paulo. Agricultores de todo o país levam os frutos da luta camponesa à capital paulistana, com o objetivo de fortalecer o debate sobre a democratização da terra, e mostrar que a produção de alimentos saudáveis, que respeitem a terra, a natureza e os trabalhadores é possível.

A luta pela terra foi e ainda é mal vista por parte da população. A mídia hegemônica, por vezes, classifica as ocupações de terra por “invasões”, contribuindo para uma perspectiva criminalizada do movimento. Políticas públicas que beneficiem seringueiros, ambientalistas, sindicalistas e a população rural são extremamente necessárias. Assim, o debate sobre esses temas se fazem fundamentais 30 anos depois.

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