Boatos interferem na vacinação contra a febre amarela

Google+ Pinterest LinkedIn Tumblr +

Por: Daniel Yazbek e Giovanna Cicerelli

A campanha de vacinação contra o surto de febre amarela no Estado de São Paulo, entre novembro de 2017 e março de 2018, foi marcada por filas nos postos de saúde, pânico e, principalmente, notícias falsas. Boatos propagados em redes sociais como WhatsApp e Facebook enredaram os meses de combate à doença.

Frasco da vacina contra a febre amarela. Foto: Agência Brasi

No mês de dezembro, surgiu uma onda de notícias falsas pela internet que indicavam um efeito mortal da vacina junto das notícias verdadeiras sobre mortes de macacos por conta da doença. E, no ápice da histeria coletiva, pessoas mal informadas boicotaram as vacinas e mataram macacos acusados de serem os responsáveis por propagar a doença. Houve pouca confiança naquilo que os médicos expressavam.

O professor e doutor em Psicologia Educacional pela Unicamp, Paulo Afonso Caruso Ronca, explica que os boatos “emergem como formigas por cima de um doce e se multiplicam na velocidade da luz.” O problema é, então, estrutural: mentiras tão bem arrumadas que “aparentam feições de verdades insurgem em uma civilização que adora o novo e se estabelecem em espaços de minguada ética”.

Sendo assim, por conta do pânico que tomou conta da população, nasce o efeito massificador, ou seja, “o fator medo ilude, paralisa: ‘morreremos todos’ ou ‘salvaremos todos’ – pânico”. Entretanto, para Ronca, o fator aglutinador na disseminação de boatos está na origem do problema. Trata-se de “um governo fraco, sem autoridade para pronunciar vozes de comando e sem aplausos da população”.

Ao se pensar na criação, expansão e reprodução desses boatos, diferentes motivações podem ser destacadas: econômica (para ganhar dinheiro com anuncios), política (desmoralizar um adversário), maliciosa (para dificultar a vacinação) e, especialmente no caso da Febre Amarela, antivacinação (pessoas que defendem que vacinas fazem mal).

Para o responsável pela Coordenadoria do Controle de Doenças (CCD) da Secretaria da Saúde do Governo do Estado de São Paulo, o infectologista Marcos Boulos, no caso da campanha de vacinação contra a Febre Amarela, não houve motivação política, “a divulgação foi feita para vender manchete”, isto é, apenas uma maneira não profissional de se difundir informação.

Ele assume que o governo estadual tem sua parcela de culpa no que diz respeito à divulgação de informação. Contudo quem teria atrapalhado bastante a campanha, em sua opinião, foi a cobertura midiática. “Eu não posso tirar culpa também da nossa divulgação, porque nós somos um divulgação do Estado. [Mas] quem chega na população é a mídia. Quando divulgam da maneira que aquilo chama mais atenção – manchete – acaba assustando a população.”

Os boatos influenciaram a tomada de decisões por parte da população. Com isso, o real conteúdo em pauta foi retirado, ou seja, não se falou sobre a necessidade da vacina. Tampouco do fato de que a morte dos macacos era indicativo de que o vírus havia chegado em determinado local. Assim, postos de saúde ficaram lotados, animais foram mortos e, com medo dos efeitos colaterais, uma parte dos paulistas se negou a tomar a vacina.

Fila para a vacinação contra febre amarela na Unidade Básica de Saúde Gleba do Pêssego, em Itaquera-SP. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

De acordo com Boulos, até novembro de 2017, a campanha corria bem e não havia problema quanto à desinformação. Porém, à medida que a doença chegou mais perto da capital, principalmente no município de Mairiporã, começou uma histeria coletiva.

Na opinião de Boulos, quando os veículos perceberam o que tinham feito, começaram a reparar o dano. Mas surgiu uma nova onda de desinformação de que o problema era a própria vacina. Para o infectologista, a solução contra a desinformação no caso da vacina é a educação sanitária, explicando à sociedade o que está acontecendo e o por quê. O jornalista, mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, Ivan Paganotti, e também pesquisador sobre “notícias falsas”, defende que o público é quem deve ponderar quais informações são corretas, bem apuradas e importantes, afinal, terceirizar essa responsabilidade é algo bastante problemático que pode até censurar a liberdade de expressão.

Paganotti lembra que, no ano passado, o Congresso brasileiro tentou implantar uma lei para combater a disseminação de notícias falsas, que foi vetada pela Presidência da República, pois teve uma definição tão ampla que “qualquer conteúdo jornalístico com pequena imprecisão já deveria ser categorizado como notícia falsa”. Algo que se aproxima de censura.

Uma vez que boatos e erros jornalísticos correram simultâneamente, é difícil calcular o impacto que isso teve na campanha de vacinação. O que pode ser feito contra mentiras e imprecisões são mais campanhas de conscientização e identificação de notícias falsas e de educação sanitária.

O comunicólogo explica que “uma coisa é um erro jornalístico, outra coisa diferente é um site criado para enganar as pessoas”. Dois problemas distintos com duas formas de combate também distintas.

Share.

About Author

Leave A Reply

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.