Precisamos de mais humildade mesmo, Juliana.

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Por Luiza Vilela.

Hoje acordei tão atrasada para ir a aula que precisei pedir um uber. Veja bem, meu dia estava fadado a dar errado logo de manhã: eu atrasei para a aula, estava pagando a mais pra ir pra faculdade, com sono e de saco cheio da vida. A única coisa que eu não queria, durante o trajeto, era conversar. Estava sem paciência.

Foi logo no começo da viagem que minha impaciência matinal se amenizou. Me senti despreocupada: “Juliana está chegando”. Uma motorista mulher. São raras as mulheres que trabalham com uber e toda vez que aparecem, me dão um ar de segurança muito maior… coisa fácil de entender: o medo de estupro e de assédio diminui em 100%, e o prazer de ver uma mulher ocupando um papel teoricamente masculino também me tira um sorriso.

Olhando para a placa do carro, uma coisa a mais surpreendeu: a nota. Todos os motoristas são avaliados pelos passageiros, e a nota da Juliana era 4.98. Fun fact: a nota máxima é 5.00.

Profissional desde o começo, quando abri a porta do carro, a Juliana já me alertou:

“Olá, Luiza, tudo bem? Seu destino é tal, você está compartilhando a viagem com fulano. A previsão de chegada hoje é em x minutos. Posso seguir pelo caminho do aplicativo ou a senhora tem um caminho de preferência?”

Até me surpreendi com o tratamento tão formal.

“Obrigada, Juliana. Vamos seguir pelo aplicativo”.

Seguimos viagem, então, eu, Juliana e um outro cara, sentado no banco da frente. Estavam conversando sobre religiões islâmicas. Fiquei quietinha porque não queria conversar, mas senti uma pulga atrás da orelha. Como a boa semi-jornalista curiosa que sou, virei a cabeça para ouvir um pouco da conversa. No começo, achei baboseira. Como peguei o assunto no meio do caminho, me pareceu que a Juliana estava mais concordando e falando do amor a Deus, enquanto o passageiro falava um glossário de explicações sobre o islamismo e suas inúmeras linhas de pensamento. Ouvi com atenção: Juliana só ouvia, concordava, fazia algumas perguntas. Pra quem estava do banco de trás, parecia mesmo que ela não tinha muita noção do que estava ouvindo. Afinal, é isso, né? A Juliana trabalha com uber. Não dá pra esperar muito disso.

Quando o passageiro foi embora, Juliana me pediu desculpas pela faladeira. Disse que tem que conversar para não parecer mal-educada, e deixa sempre o passageiro falar.

Comentei que a temática parecia importante e ela desatou a falar sobre o islamismo. Quando o assunto morreu, porque eu estava com pouca vontade de conversar, ela virou e perguntou:

“A senhora está indo para a PUC?”

“Tô sim”

“Estuda o quê?”

“Jornalismo”

Minha vontade de ficar quieta foi sumindo enquanto eu falava e começamos então a conversar sobre a profissão, eu falando e ela apenas ouvindo, concordando e comentando algumas coisas. Falei dos projetos acadêmicos que fiz na faculdade, do estágio, da profissão em si. A Juliana ouvia como se soubesse muito pouco de tudo aquilo. A conversa evoluiu. E foi aí que eu tomei um grande susto.

“Já que a senhora é quase uma jornalista, deve gostar de histórias né? Sabe… As pessoas precisam ser mais humildes. Eu sou formada em educação, sabia?”

“É mesmo? Por onde?”

E aí a Juliana falou. Aquilo se desenvolveu como uma entrevista. Ela falou que é formada em educação, que já deu aula em universidade, que tem um currículo lattes de mais de cinco folhas, estudos em MBA, fluente em quatro línguas, estágio avançado em árabe. Ela comentou que queria aprender mandarim.

A Juliana, que trabalha na uber, com nota de excelência, que só atende uber select e, por coincidência do mundo, aceitou uma viagem no uber pool justo comigo, já concluiu 77 cursos livres e estudou a vida inteira. Durante anos exerceu diversas funções, teve atuação no desenvolvimento de grandes projetos especiais em diversas empresas de diferentes tamanhos e complexidades. Além da uber, hoje é gerente de negócios de uma empresa de cosméticos. A Juliana possui graduação em Processos Gerenciais pela Universidade Norte do Paraná (UNOPAR), Especialização LATO SENSU em Gestão Empresarial pela Universidade Nove de Julho (UNINOVE), LATO SENSU Master of Business Administration (MBA) em Gestão de Pessoas pelo Centro Universitário Anhanguera (ANHANGUERA). A Juliana já viajou pra tudo quanto é canto do Brasil e pra vários países do mundo. Já fez orientação de TCC de um monte de alunos. A Juliana tem o nome gravado no google com suas conquistas, classificada como estudiosa no Escavador, um nome de referência e importância dentro do mercado. Ela foi me contando tudo o que já fez. Era tanta coisa que eu me perdi no meio do caminho.

No começo da viagem eu estava me sentindo minimamente importante por fazer uma faculdade legal, já ter um estágio, saber escrever e ter alguém pra conversar e compartilhar tudo isso. É legal quando alguém se dispõe a entender o que você faz e te respeita por isso, e foi o que eu senti da Juliana no começo da viagem, antes de saber do currículo dela. A Juliana, que vai fazer doutorado fora do país, prestou atenção em tudo o que eu disse e manteve o respeito por mim. No começo da viagem eu tive um pré-julgamento que tinha uma boa profissão e um currículo legal. No meio dela, eu me senti uma formiga sem formigueiro dentro do carro. Eu fiquei perplexa. A Juliana é brilhante, é um gênio. E eu… bem, quem era eu?

Sem perceber, aquilo foi se tornando uma entrevista. Eu perguntava, ela respondia da maneira mais profissional possível. Até que, em um dado momento, a pergunta inevitável veio à tona.

“Juliana, por que uber?”

A Juliana olhou pelo retrovisor e explicou todas as coisas que fez durante a vida.

“Passei minha vida inteira estudando, me profissionalizando e hoje não quero nada disso. Eu dei aula em faculdade e, bem, estudando do jeito que eu estudo, sempre reconheci que a gente sempre tem a aprender. Na universidade, os alunos eram muito arrogantes. Eu vim pra uber porque aqui, ninguém manda no meu serviço, eu mesma faço meu horário… Eu gosto de analisar personalidades, e cada passageiro sempre tem uma história pra contar. Você, como jornalista, deve entender isso né? Haha. Pago minhas contas, tenho uma folguinha com meus dois empregos e consigo bancar tudo o que preciso, principalmente pro meu noivo. Eu tô muito feliz com minha vida agora, Luiza. E nunca mais quero dar aula, pela arrogância dos alunos. Não tenho mais paciência pra quem mal sabe da vida e já se acha um Deus”.

A Juliana estava me analisando e a única coisa que eu conseguia exprimir naquele momento era admiração por uma mulher como ela. Estava quase em choque. Que mulher, meus caros. Fiquei com vergonha de mim.

“Sabe Luiza, a gente precisa de mais humildade. Todo mundo que senta aqui acha que eu não sei de nada, que não tenho conhecimento, que tô desempregada e por isso trabalho com uber. Ninguém nem imagina o tamanho da minha experiência. E eu prefiro nem dizer, é engraçado ver o pessoal falando como se soubesse de tudo. Você como jornalista deve ter passado por isso né?”

“Ainda não, Juliana. Eu tô estudando ainda… não fiz tanta coisa. Ainda tenho muito pra conhecer da vida”.

“Tem mesmo”

Eu me encolhi no banco de trás. Eu fazia parte das pessoas sentadas que não acreditavam no que estava acontecendo.

Enchi a Juliana de perguntas. Adorei ouvir as respostas e deixei minha curiosidade satisfeita. Mas ainda faltava algo. Em um dado momento, questionei:

“E quando é que você vai se casar?”

A Juliana parou de falar. Ficou quietinha, dirigiu mais um pouco e me olhou pelo retrovisor meio desconfiada. Se antes ela falava com a precisão de um palestrante, agora estava com os ombros encolhidos.

“Eu não sei… depende de muita coisa.”

Dava pra ver as lágrimas se formando nos olhos da Juliana.

“Desculpa, me emocionei… É que é tão difícil… Meu noivo tem 23 anos, eu tenho 39. Nos gostamos muito, sabe? Ele é sírio, refugiado. Eu tenho um pouco de ciúmes dele haha… Parece um modelo… Eu sou muçulmana. Queremos nos casar, mas a mãe dele está no Líbano.”

Não dava pra acreditar que aquilo tava mesmo acontecendo.

“Uma vez me confundiram com a mãe dele. Fiquei arrasada, sabe? As pessoas não conseguem aceitar, mas a gente se gosta muito.”

Parei um pouco pra pensar. 23 anos para 39 é uma diferença muito grande… Meu namorado tem 24. Que história, Juliana, que história. Nem conseguia responder direito.

“E vocês pretendem se casar fora?”

“Sim, numa mesquita. Eu ajudo ele a pagar as contas. Ele mora comigo, no meu apartamento, e eu ajudo a pagar quase tudo. Menos a aliança… Ele vai me dar uma aliança, acredita? Com o dinheiro dele. Não me deixou ajudar, disse que tinha guardado pra isso.”

“Isso que é a amor hein?”

“É sim, Luiza. Mas também é muito difícil. Essa semana fui assaltada no uber e perdi 1000 reais.” Juliana parou de falar por um minuto pra limpar as lágrimas dos olhos. “Sabe Luiza, é muito difícil. Esse dinheiro eu tava usando pra pagar a passagem da mãe dele…. Eu tinha guardado há tanto tempo, ia enviar pra ela. Faz mais de um ano que os dois não se vêm. Mas eu vou conseguir tudo de novo, se deus quiser. Não ver a mãe é muito triste”

“Você ama ele, Juliana?”

“Amo… Amo muito meu noivo. Falta de amor entre nós nunca aconteceu. Mas a gente vai conseguir. Eu vou conseguir. Eu amo meu noivo, ele já passou por tanta coisa no país dele, que fica difícil não querer ajudar. Eu não posso deixar ele aqui sozinho, sabe? E ele também me ama. Ele tem como me deixar, tem os documentos todos certinhos de refugiados, mas nunca me deixou porque me ama também”.

No final da viagem, a Juliana me deixou na frente da faculdade com lágrimas nos olhos. Eu fiquei sem reação.

“Desculpa, não queria fazer você chorar”

“Tudo bem. Eu perdi meus pais muito cedo, sabe? Sou uma pessoa que não chora por quase nada… mas quando me falam da minha sogra, eu simplesmente não consigo. Espera um minutinho aqui pra acompanhar a finalização da sua viagem tá? Aqui, avaliada e viagem finalizada. Tchau, Luiza, boa sorte na vida e bom dia. Obrigada por me ouvir”

“Magina, Juliana. Boa sorte com a sua luta, tenho certeza que tudo vai dar certo. Com amor e sacrifício, tudo acontece, te garanto. Você é uma pessoa incrível, tudo vai dar certo”

“Obrigada. Eu vou conseguir, eu sei. Vai com deus, menina, amém”.

“Amém”.

Assim que a Juliana virou o carro, eu fiquei olhando até ela ir embora. Ela me falou tantas coisas que foi difícil de processar tudo.

As pessoas têm uma história de vida que vai muito além do que a gente pensa, não é mesmo?

Bem… A Juliana me lembrou de um trecho da música da Elis Regina: “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”. Olha o tamanho da vida da Juliana. A Juliana do uber. A Juliana formada em quase tudo. A Juliana que vai se casar.

Vai com Deus, Juliana. As coisas vão dar certo pra você. Por agora, fico com a sua mensagem.

A gente precisa mesmo ter mais humildade.

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