Os desafios da educação brasileira

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Por Laura Doubek

A falha no ensino dos jovens gera consequências não só para a formação profissional dos estudantes, mas, sobretudo, pessoal

Enfrentamos três grandes problemáticas na educação brasileira atual: a qualidade de ensino, as oportunidades e a diversidade. Através dela, são formados seres humanos não só com base acadêmica, mas ética e pessoal. Os valores e as ideologias aprendidos em casa são reforçados e aprimorados nas escolas, onde vivemos em sociedade. No entanto, as dificuldades enfrentadas hoje não permitem a formação plena dos cidadãos.

Na esfera pública, o sistema de ensino das escolas é precarizado e faltam incentivos tanto aos professores quanto aos estudantes. O salário baixíssimo e a educação de qualidade reduzida – seja pela falta de dedicação do corpo docente pela insatisfação com as condições trabalhistas, salários e direitos ou os alunos que não vêem na escola um futuro digno e de fato acessível. A saída, senão uma reforma da educação, seriam as escolas privadas. Essas, consideradas hábeis a formar bons profissionais, não são inclusivas, visto que as altas mensalidades e localizações não abrangem a desigualdade social que encontramos no Brasil. Sendo assim, nesse primeiro tópico, o aluno em formação se vê sem saída: o ensino não parece mudar suas condições de vida, por isso, procura outros meios de sobrevivência, como o tráfico de drogas, que é incontáveis vezes mais fácil de integrar as crianças periféricas. 

Nessa condição entram também as faltas de oportunidades nas universidades para aqueles que não possuem boa formação: estudar em colégios públicos é, muitas vezes, sinônimo de não ser capacitado para entrar no ensino superior. Isso funciona da mesma maneira das escolas, mas inversamente: as universidades públicas, hoje, são elitizadas pela dificuldade de seus vestibulares que selecionam os melhores estudantes – os de escola particular que puderam pagar pelo ensino e por cursinhos, por exemplo; as particulares, em sua maioria, não possuem a melhor educação e o corpo docente é falho. Cria-se um ciclo na formação acadêmica desses jovens que, em uma sociedade que exige bons históricos educacionais para o mercado de trabalho, são passados para trás pela falta de privilégio que possuem perante aos demais.

Através do estímulo do estudo e da vivência em grupo, formamos seres humanos pensantes, que lutam por suas causas, entendem o funcionamento do mundo e da sociedade e, assim, reivindicam por suas insatisfações. Uma das questões a serem trabalhadas é o padrão fixo das escolas que não forma pessoas que lutam pelo que acreditam, mas que estudam – e se estudam – para conseguirem um futuro no mercado de trabalho. O padrão de educação espera que se formem robôs e não cidadãos. As escolas parecem desinteressantes aos jovens, já que o conteúdo é ensinado de forma extremamente técnica, o que fornece a sensação de que os estudantes não precisam desse conhecimento e que nunca irão utilizá-los em suas vidas.

A última problemática constante da educação brasileira é a falta de diversidade e inserção do contexto em que as crianças e os jovens vivem. O sistema de ensino é utilizado da mesma forma em todas as escolas de diferentes lugares. No entanto, um jovem da periferia não vê o mundo e não tem acesso a ele da mesma maneira que um cidadão de um bairro nobre, por exemplo. Assim, não é correto que estudem o mesmo conteúdo em proporções e técnicas idênticas. Abraçar o contexto em que se vive é, muitas vezes, a melhor forma de criar seres humanos – o que fica claro não ser o objetivo da formação dos jovens hoje em dia. 

Em entrevista com André Gravatá, jornalista e colunista de educação no UOL, ele explica sobre os desafios da educação e a possibilidade de melhorias. André defende que uma reforma na educação e englobar o contexto em que as crianças e os jovens vivem é fundamental. O ensino deve ser trabalhado de forma humanizada, a fim de incluí-los de fato na sociedade como seres humanos e não meras peças do mercado de trabalho. A falta de aulas de artes e uso do corpo, por exemplo, afetam a criação da consciência social dos jovens e degradam diariamente suas perspectivas de melhorias e oportunidades além da realidade em que se encontram.

André Gravatá em palestra no encontro Educação 360
Fonte: Frederico de Souza

Contraponto Digital: Qual sua opinião sobre a educação atual no Brasil? Quais as falhas e pontos positivos?

André Gravatá: Temos um cenário bem desanimador. Por um lado, vemos que ainda não se investe em educação da maneira como deveriam e, ao mesmo tempo, seria importante repensar as políticas públicas para reestruturá-la. Além da transformação da educação, através desse investimento, para algo mais vivo, transformador e humanista. O ensino atual tem um olhar mais amplo de política pública porque sabemos que as escolas não seguem um processo seletivo que faça valer a diversidade que existe aqui. Infelizmente, é uma educação com um padrão muito violento, não só com os alunos, mas com os professores e as famílias.

O lado animador é que existem muitos grupos e movimentos que estão insistindo na possibilidade de fazer algo diferente. Houve um mapeamento durante a gestão Dilma, chamado “Inovação e criatividade na educação básica”, que foi feito para descobrir quais instituições estão fazendo propostas para um ensino mais criativo, diverso e sensível. Ele mostra um panorama da educação brasileira, que é potente, porque mostra escolas que estão insistindo no fato de que não há só uma forma de educar, aprender e ensinar, ainda que a escola atual invista em apenas uma maneira e que isso se repita em diferentes territórios no Brasil.

CD: O que pensa sobre o novo plano da reforma na educação de retirar disciplinas como filosofia e sociologia dos currículos escolares? Qual o objetivo por trás dessa ação?

AG: Olho essas mudanças como uma mirada muito crítica, pois sinto que mudam pouco a pouco a educação e a diminuição da desigualdade. Através da aprofundação, é possível ver um ou outra cláusula que possui questões que sejam consideradas avanços, mas dá para perceber que a forma de educação proposta ainda é muito autoritária e voltada somente ao mercado de trabalho. O que vejo acontecer é que valorizam muito algumas matérias em detrimento de outras, como se fossem menores. É importante estimular as experiências para que esses jovens, que têm uma visão pobre com diminuição de suas possibilidades. No Brasil, como ainda existe o “fantasma” de que crianças e jovens não conseguem aprender o básico, como ler e escrever, quando pensam em mudar a educação, pensam em fortalecer o que consideram relevante. A construção do pensamento crítico e histórico anda lado a lado com a vivência artística.

CD: Como seria um modelo de educação ideal? Como alcançá-lo?

AG: Não existe e não há como definirmos um modelo que responderia a todos o desafios de um país como o Brasil porque, se continuarmos acreditando que existe um único modelo que lida com tanta diversidade, vamos continuar com um equívoco muito grande.

As pessoas aprendem de jeitos diferentes, mas, no geral, não são respeitadas para que aprendam dessa maneira única. O corpo, por exemplo, raramente aparece na aulas, com exceção das aula de educação física. Não existe um modelo único de educação, mas existem, sim, diferentes escolas ao decorrer do país que já mostram que a prática compartilhada é muito interessante para uma educação diferente. Uma das que mais tenho visto no Brasil é a da “cidade-educadora”, que é pensar na escola e em seu entorno como um território de aprendizagem. A educação acontece nelas, mas fora também. Essa prática incentiva que os alunos explorem um espaço de experimentação, ocupem as ruas e as praças para que o ensino seja percebido como uma responsabilidade mais coletiva.

 

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