O que eu tenho que ________ não tem?

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Por  Carol Gomes

De vez em quando me pergunto o que eu fiz para merecer estar deitada nesta cama, com lençóis de fios egípcios entre minhas pernas finas e bem cuidadas, quando Fulano acredita ter tido um dia de sorte ao encontrar um pedaço de papelão para fazer de colchão e uma ponte para chamar de teto.

O que eu fiz para ter um milhão de coisas: um milhão de oportunidades de emprego, um milhão de chances para recomeçar, um milhão de momentos para fazer birra, quando Sicrano não sabe nem fazer conta de adição para calcular o seu lugar no mundo, não sabe nem somar necessidade com bondade.

Lá vai uma breve história de Beltrano. Como se você se importasse em saber.

Aos cinco anos, Beltrano acompanhava o pai nas ruas de São Paulo pedindo esmola aos motoristas que passavam apressadamente sem ao menos dirigir-lhe o olhar. Com essa idade, eu estava aprendendo a ler e escrever: I G U A L D A D E.

Você lembra dele?

Aos dez anos, ganhei o meu primeiro celular; ele, um tapa na cara dado por sua mãe por não ter conseguido juntar cinquenta reais vendendo bala no farol.

Ao recusar tal produto, você ao menos agradeceu a oferta do mentol?

Quando completei dezesseis anos, fiz um intercâmbio para os Estados Unidos com o intuito de aprimorar o meu inglês. Beltrano, nesta época, foi pego pela polícia traficando entorpecentes e trazido para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente sob berros de quem passava pela rua:

– BANDIDO!

– FILHO DA PU**!

– TEM QUE MORRER!

Na hora de xingar, você se lembrou dos seus pecados?

O que não foi capturado pela polícia nem por aqueles que o julgaram por suas ações foi a essência de Beltrano, de Fulano e, muito menos, de Sicrano.

Um menino analfabeto e com medo, sem esperanças de um destino melhor, tentando trazer dinheiro para sua família, composta por mais desesperados.

Um menino forçado a se tornar homem a partir dos cinco anos.

Um menino que, ao invés de estar brincando, estava alimentando seus irmãos.

Um menino que trocou o lápis e o caderno por um futuro onde suas atividades complementares do currículo são as passagens pela polícia.

Seu nome era ________.

Obs: Preencha esta lacuna com a mesma insignificância que você deu a esses meninos diariamente.

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